Com mais de 3 meses de hiato, o blog voltará de férias logo em breve, com vários outros posts.
O quarto virtual agora entrará na versão 2.0, um blog com mais humor e conteúdos variados, sem perder sua essência, claro!
Até breve com novidades!
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Antonio Prata
O fim de (quase) tudo
Na manhã do dia 1º, meu amigo me liga, deprimido:
-Você sabia que o mundo vai acabar?
Penso tratar-se de uma dessas bobagens que misturam calendário Maia com filme-tragédia e começo a desancar o marketing hollywoodiano, mas meu amigo explica que não é nada disso. Viu num documentário que a Terra acabará daqui uns bilhões de anos, quando o sol, tendo esgotado seu combustível, dará um último suspiro, transformando-se numa gigante vermelha e engolindo nosso simpático planeta. Ficamos um tempo em silêncio, os dois pensando nesta bela e terrível imagem: a bola de fogo consumindo o Everest, a Teodoro Sampaio, os avestruzes, os casais apaixonados, as usinas nucleares e as fronhas nos varais.
-Olha, não chega a ser exatamente um consolo, mas daqui uns bilhões de anos nem eu nem você vamos mais estar por aí…
-Eu sei, mas eu achava que a humanidade ia continuar. Que o teto da Capela Sistina, as gravações do Cartola, os poemas do Walt Whitman e os peitos da Claudia Cardinale em “Era uma Vez no Oeste” ficariam pra sempre, só que tudo vai desaparecer… Isso não te angustia?!
-Não quero parecer muito egoísta, mas o que vai ser das pinceladas do Michelangelo depois que eu bater as botas não tá entre as minhas maiores preocupações.
-Pois tá entre as minhas. Antes, eu achava que o mundo era eterno e que se eu escrevesse um livro muito bom [meu amigo é poeta], esse livro ia se juntar a todas essas coisas que permanecem. Mesmo que ficasse no fundo de uma biblioteca, numa estante perdida entre um zilhão de estantes, ia estar lá: minha pequena colaboração para a humanidade. Você nunca quis produzir algo que sobrevivesse a você?
-Sinceramente? Concordo com o Woody Allen, quando disse que não queria atingir a imortalidade através da sua obra, preferia atingi-la simplesmente não morrendo. Uma vez cadáver, que diferença faz ser ilustre ou desconhecido? Ruim mesmo é nunca mais comer um frango a passarinho, é ou não é?
Meu amigo não responde. Parece um tanto decepcionado com a minha insensibilidade. Procurou um ombro fraterno para chorar a transformação de toda a poesia em poeira cósmica e eu venho com essa de frango a passarinho? Lembro, então, de algo que li num livro e que pode melhorar a situação:
-Calma! Nem tudo vai acabar: mesmo depois do fim da Terra, as ondas de rádio que emitimos continuarão se propagando por aí.
-Quer dizer que das obras completas da humanidade vai sobrar só o conteúdo das AMs e FMs?!
Percebo minha gafe, mas é tarde. Meu amigo se desespera. Shakespeare virará pó, mas a voz de Justin Bieber, agora mesmo, viaja pela Via Láctea; e se em algum canto houver vida inteligente -e a vida inteligente tiver construído um radinho-, o legado de nossa passagem pelo cosmos ressoará, eternamente: “Baby, baby, baby oooh/ baby, baby, baby oooh/ baby, baby, baby oooh”. Realmente, não faltam motivos para se deprimir.
Blog ‘Crônicas e Outras Milongas’
antonioprata.folha.blog.uol.com.br
AMANHÃ EM COTIDIANO
Pasquale Cipro Neto
O que pensar de jovens maiores de idade quando vemos uma foto como essa?

É claro! Nem precisa dizer. Subindo numa gangorra dessas, com um pirulito na boca e cheio de crianças, você poderia mesmo imaginar que todos não tínhamos mais nada a fazer e que realmente somos crianças, estou certo?

Pois bem. Nesse dia, fomos até o orfanato, chamado “Casa de Passagem”, onde muitas crianças realmente são órfãs e outras foram separados dos pais por algum motivo (geralmente judicial). Ir para um lugar desses faz com que nosso lado humano cresça, provando que sempre é bom levar alegria às pessoas, mesmo que sejam tão desconhecidas (já viu aquele ditado: “Fazer o bem sem olhar a quem.”?).
Com certeza, foi um grande dia. Ter me divertido com essa galera toda foi muito prazerosa. E nem venha me dizer que isso é “coisa pra criança”, afinal, quantas pessoas hoje deixamos de ajudar, de certa forma, para perdermos tempo com futilidades ou coisas do tipo. (Brincar com crianças é feio, mas falar mal dos outros, ah, isso é bonito, não é?).
E entre tantas brincadeiras, é bom sermos chamados de tios e ver que aquelas crianças realmente apreciavam todo aquele carinho. Não só bom para nós, como para elas, principalmente.

Aproveito pra agradecer ao pessoal que me levou lá: Letícia, Larissa, João e Paulinha, já que nem sempre posso ter a oportunidade de fazer um programa como esse.
Às vezes podemos não ter oportunidade ou tempo, mas quando tivermos é sempre bom fazermos esse tipo de coisa. Assim, podemos ver que nossa vida também se baseia em ajudar quem mais precisa e não apenas de reclamarmos de nossos problemas ou de julgarmos aqueles que nem sequer faz parte de nossas vidas. Reflita sobre isso!
Um ótimo fim de semana a todos.
Capítulo 4: No centro da cidade
Novamente aquele despertador soava irritantemente às seis da manhã. Apesar de ter tido um belo sonho, fui despertado por um pequeno cachorro amarelo que lambia todo o meu rosto, naquela manhã. Mas, eu não queria sair de lá por nada.
Ao ouvir isso, Larissa me jogou um pesado travesseiro em meu rosto.
Era um sinal de que Larissa já havia melhorado um pouco desde ontem. Ou, apenas buscou um pouco de energia para me jogar aquela almofada. No mesmo instante, Vívian aparecia no quarto, apenas enrolada na toalha:
Vívian adentrou aquele cômodo cor-de-rosa, mesmo sem qualquer veste por baixo daquela roupa de banho, colocou a mão na testa de Larissa, parou por um instante e lhe perguntou:
Quando Vívian saiu do quarto para o banheiro, Larissa e eu fomos até a panela e a encaramos por bons minutos. Então, Vívian apareceu na cozinha, ainda de toalha:
Vívian, violentamente, nos tirou daquela panela e começou a mexer a água da panela com uma colher de chá.
Ding dong! A campainha tocava. Como uma boa visita, fui atender. Ao passar pela sala, Brunna saía de seu quarto, já uniformizada e com uns cadernos nas mãos.
Brunna se assustou com o comentário feito e olhou para as pernas:
Ela estava de calça sim, mas uma brincadeira pela manhã não faria mal a ninguém. E se ela tivesse trajada daquele jeito, eu não me importaria.
Ainda impaciente, ele me empurrou novamente e dirigiu-se à cozinha. Fui logo atrás.
Aquela gritaria havia cessado, mas as faíscas que saíam de nossos olhos, em direção ao outro, era perfeitamente nítida.
Saindo de casa, fomos até o ponto de ônibus. No ponto seguinte, apenas Letícia subiu. Todos estavam estranhando a ausência de João.
Quando chegamos à faculdade, um garoto desconhecido gritava para todos que ali passavam:
Após a dispersão, Larissa, Vívian, Brunna, Hiago, Letícia e eu o ladeamos e continuávamos a caminhar em direção à sala.
E Larissa virou a folha de cabeça certa para mim.
Continuamos a andar pela sala. Dessa vez, todos fariam provas na sala da agronomia. Como era um costume estranho daquele instituto, ao passarem por um caminho de terra e chegarem ao saguão de acesso às salas, uma turma de professores entregou-lhes uma bota de couro para que eles pudessem calçar. Enquanto calçavam, ficando na mesmo posição em que Napoleão perdeu a guerra, alguns funcionários do instituto passavam e metiam-lhes fortes tapas em suas bundas. Larissa e João chegaram a cair no chão, Hiago deu dois socos na cara de um zelador e Vívian deu um de seus gritos, seguidos de gemido:
Na porta, duas alunas, de 25 anos e que ainda estavam no colegial, tentavam atrapalhar a entrada de todos:
Enquanto meus estimados amigos tentavam colocar a segunda bota, e recebiam mais tapas, eu analisava a relação de alunos matriculados e suas respectivas salas de prova. Estava me lembrando daqueles tempos de ensino médio, em que todos eram sorteados em uma sala em épocas de semestrais. Para dar uma melhor imagem, passei o dedo por toda aquela folha, como se tentasse encontrar meu nome escrito ali:
Realmente, por onde eu passei o dedo, a folha estava em branco. No meu dedo, as letras que eu havia tirado do papel.
Então, todos nos dirigimos para a sala de aula, em fila indiana. Letícia comandava o grupo, seguido de Vívian, Hiago, João, Brunna, Tchely (que, novamente, não sabemos como foi parar ali), Catarina, Larissa e eu. Todos foram entrando um a um para onde Cris os aguardava. Quando eu ia entrando, Cris bateu a porta em minha cara, deixando-me de fora.
Todos olhavam atentamente as três regras básicas que estavam no quadro.
Todos presentes bateram suas mãos na testa.
Então, Cris foi do início da sala até o fundo, onde Arthur estava.
Por uns instantes, a sala fizera silêncio. Ela o olhou por alguns segundos, levantou seu corpo, recolocou seus óculos invisíveis e por alguns instantes ficou ali parado, observando o garoto do cristalino. Então, Cris virou-se e foi até a mesa, pegou as provas e…
Todos se levantaram alvoroçados e foram pegar as provas que caíam no chão, gritando. Tchely, Letícia e Catarina chegaram a disputar no tapa uma das folhas, mesmo sabendo que na mesa da professora ainda havia várias, intactas.
Já sentados, organizados, e com suas folhas amassadas de prova na mesa, os alunos começavam a pensar e rabiscar o que sabiam.
Cris andava por toda a sala para ver o que cada um de seus pupilos faziam e para evitar quaisquer tentativas de cola. Alguns não conseguiam evitar, como Davi, que estava com a cola na mão. E depois, a cola estava na boca.
A professora continuou andando, rumo a sua mesa. João aproveitou o momento e sussurrou para Vívian, que se sentava à sua frente:
Vívian ainda não havia chegado nessa questão. Estava empacada na primeira questão que era de V ou F. Mas, para ajudar seu grande pequeno amigo, ela resolveu pular de questão. A questão era: “Se você comer muito açúcar, corre o risco de ter…”.
Ninguém na sala tinha certeza da resposta correta. Muitos pensavam que era algo como “dor de barriga”. Apenas Vívian sabia a resposta correta. Por isso, ela resolveu ajudar.
Então Vívian começou a se apontar. João não estava conseguindo entender. Desconfiada de ter ouvido algum barulho, Cris olhou por toda a sala vistoriando. Vívian aquietou-se rapidamente.
Vívian continuou se apontando. João não conseguia entender. Mas, todo aquele movimento começava a despertar o interesse na sala, pouco a pouco. Algumas pessoas perguntavam a João, apenas mexendo os lábios:
A professora continuava de costas. Vívian levantou-se da cadeira e começava a se apontar, olhando para João. Neste momento, a sala inteira já estava prestando atenção na nossa amiga. Vívian percebendo que estava sendo atração, indicou o número dois nos dedos e começava a se apontar. Todo mundo entendia que ela estava passando cola, mas não entendia o que ela estava querendo dizer se apontando daquele jeito.
Vívian, impaciente, arrastou todas as cadeiras do meio da sala para algum lugar e começou a dançar ali mesmo. Batia palmas e rebolava, remexia o corpo, arriscava uma dança do ventre e até pôs uma espada na cabeça. Depois, começou a dançar funk dançando até o chão.
Camila ficou muito feliz com a resposta e escreveu na prova. Alguns ainda não haviam entendido. Então, Vívian pendurou-se num candelabro que tinha no meio da sala (a escola toda ainda possuía uma decoração de tempos antigos) e começou a dançar sobre ele. Então, todos iluminaram suas cabeças e escreveram sexo como resposta, com exceção de Letícia, que escrevera loucura, João, que ainda não havia entendido nada e Larissa, que aproveitava o momento para vomitar.
Vívian pulou do candelabro. O barulho que seus pés fizeram ao tocar o chão chamou a atenção de Cris que se virou repentinamente. Ela via apenas uma sala comportada, fazendo sua prova. Vendo que não era nada de mais, Cris resolveu ignorar o barulho. Vívian conseguiu se sentar bem a tempo em sua carteira, assim como todos os alunos arrastados pela garota conseguiram colocar a tempo suas cadeiras de volta ao lugar. Questão de milésimos de segundos. Foi aí, que…
Quando Cris se virou, o candelabro se despencou na cabeça Ítallo, que tentava se concentrar em sua prova, quieto.
João ainda ficou um tempo tentando entender o que Vívian dissera. Enquanto aquilo matutava sua cabeça, ele tentava fazer outras questões.
Por outro lado, Larissa continuava não muito bem. Tentava responder primeiro as perguntas de alternativas para se livrar de um grande peso.
Nesse momento, Cris ligava de seu celular para a diretoria da escola:
Cris desligara. Enquanto esperava, ela passava pelas mesas para verificar os textboxes dos alunos, certificando-se de que não havia problema com nenhum deles.
Larissa apresentou um sorriso amarelo.
Cris devolveu a folha à garota, que lhe perguntou:
Então, Cris parou para olhar suas pernas descobertas.
Subitamente, o chão da sala se abriu, bem no rumo de Letícia, que caía num lugar profundo, sem destino, desconhecido. Enquanto ela caía, dava um grito bem alto, ouvido por todos, mas ignorado. Não me perguntem o porquê de isso ter acontecido. Também não me perguntem quem teve essa brilhante ideia de fazer isso. Eu só sei que foi assim (assovia).
Quando o chão se lacrou, todos voltaram a fazer suas provas. Todos, exceto Larissa, que, como não se sentia nada bem, resolveu entregar a prova com algumas questões em branco. Quando analisou novamente, percebeu que apenas quatro questões estavam em branco. De seis! Que progresso!
Enquanto Larissa tentava sair da sala honestamente, eu estava dando outras voltas pelo instituto. Passei por caminhos que, no dia anterior, ainda não havia passado. Tudo porque aquelas garotas não paravam de encher o saco. Não o meu, mas de todos que passavam.
Em minha trajetória, encontrei um celular preto, antigo, no chão. Até hoje, o pessoal briga comigo por eu não ter pego e devolvido, mas vou contar a verdadeira história do que aconteceu naquele dia. Nada de mentiras. Agora vocês entenderão o que realmente aconteceu. Confiram.
Estava eu caminhando pelo instituto com uma metralhadora na mão. Como havia feito alguns amigos, enquanto caminhava, resolvemos brincar de Counter Strike de verdade naquela escola. Espalhamos algumas armas pelo caminho e montamos dois times de três pessoas. Então, a disputa foi sangrenta. Tiro para todos os lados. Quando restava apenas eu do meu time e outro do time adversário, resolvi procurá-lo nos terrenos mais baixos da faculdade. Foi aí que eu encontrei aquele celular.
Aquele celular mudaria minha vida. Finalmente poderia conversar com qualquer pessoa do mundo que a conta jamais seria paga por mim. Era muita felicidade!
De repente, o celular tocou. Era um número desconhecido para o dono daquele aparelho. Meu coração tremia. Tudo em volta ficava escuro. Eu estava gelado. Então, o adversário apontou sua arma pra mim e gritou:
Arranquei-lhe a arma de suas mãos e a enfiei em seu…
Enquanto as crianças ao meu lado corriam, o celular não parava de tocar. Abri-o e coloquei em meu ouvido. Foi quando, uma voz assustadora disse:
Voltei ao outro telefone.
Ao perceber o que eu havia feito, coloquei o celular de voltar ao lugar e saí correndo. Como se isso fosse adiantar alguma coisa. Agora vocês conseguem entender perfeitamente minha situação, não é mesmo? Hein? Respondam!
Voltei até a ala da agronomia, e lá estava Larissa. Contei-lhe tudo o que havia feito e ela me contou o que havia acontecido em sala.
Continuamos andando em direção ao pátio. Alguns colegas continuavam a caminhar conosco após fazerem as provas. Flaviana, quando viu Larissa e após cumprimentá-la, foi logo informando:
Então, paramos. De longe, Vívian aparecia com seu cigarro na mão, ao lado de João, sorridente.
Tentei tirar o cigarro de suas mãos para fazer uma demonstração, mas logo fui recebido com um tapa na mão, deixando-o cair.
João tentava recuperar seu ar, ainda sorrindo:
Levantei-me da lama, neste momento.
Todos olharam para mim céticos.
Esse era o grupo: as meninas (Letícia, Larissa e Vívian) conversando lá na frente, enquanto eu e João, lamacentos, tentávamos tirar o excesso que nos cobria. Repito o que disse: Tentávamos.
Mas, quando passamos pelo pátio, algo triste aos olhos de Larissa chamou-lhe a atenção. Na parede, vários cartazes estavam fixados sobre o tema “homossexualidade”. Muitos deles, contra.
Ignorando aqueles cartazes, lá foi a turma dirigir-se para o mesmo lugar que todos os universitários (ou sei lá como eles atribuem esse nome para alunos de institutos federais) se reúnem nos intervalos: naquele lugar pequeno, que não tem nem cadeira para se sentarem, mas que tem um pequeno buraco que dá acesso à moça que vende salgados congelados.
Quando chegamos, Vívian pegou um de seus cigarros da carteira, colocou na boca e o acendeu. Catarina foi até mim, e apontou para uma das manchas de minha camiseta:
Olhei para baixo, e ela fez um movimento de sobe e desce com a mão no meu rosto, como aquelas brincadeiras de criança.
A turma da veterinária começou a se reunir mais uma vez. Para não ter qualquer problema, Arthur não se esqueceu de seu cristalino, dessa vez.
Eles estavam empolgadíssimos mais uma vez sobre o evento de exposições que estava acontecendo em Montes Claros, denominado Expomontes. A turma atualizava-se com outras informações, como as palestras que teríamos no primeiro dia, como se reuniriam para o show de Paula Fernandes e quais os pontos de parada antes de irmos embora.
Cada vez mais, eu ficava aflito. O combinado era Larissa e eu irmos de ônibus, mas tudo ali já parecia mudar. Como eu não era nenhum aluno de veterinária, era mais que correto que eu não fosse com eles no mesmo ônibus. Entretanto, Vívian estava disposta a me ajudar, mas nada ainda estava certo.
Um pouco afastados do grupo, Larissa, João, Letícia e eu nos aproximamos do lanchinho, como no dia anterior. João, mais uma vez, pediu seu salgado de frango congelado. Larissa preferiu não pedir nada, mas, para seu azar, a vendedora reconheceu seu rosto logo de cara:
Larissa, que ainda estava de costas, tirou os óculos e virou-se, completamente vesga:
Ela olhou para mim e para João, tentando apontar para um culpado, mas não conseguia estabelecer nenhum.
Alguns minutos depois, lá estava ela, gritando euforicamente:
Letícia aparecia sorridente, com um pedaço de cartolina amassado na mão e mostrou à garota.
Larissa levantou-se e a abraçou fortemente, logo sendo correspondida. Os olhos de ambas brilhavam.
Pulando para a cena seguinte e deixando o leitor curioso sobre o que acontecera, encontramos Hiago vindo ao nosso encontro. Como Larissa ainda não estava recuperada completamente, resolvemos ir embora para ir à Policlínica.
Subimos no ônibus. A professora do dia anterior, novamente, saía correndo de sua sala para tentar alcançar o ônibus. Como a cena foi a mesma do dia anterior, vamos ignorá-la para não termos que pagar um cachê maior (já que o salário dos atores aqui mencionados já geram alta despesa para mim, o escritor).
No ônibus, Vívian e Hiago sentavam-se na primeira fileira, Larissa e eu na fila imediatamente posterior. Hiago e eu ainda não havíamos acertado todas as contas, portanto o clima continuava carregado.
Eu sabia que, depois daquilo, o diálogo morreria. Aproveitei o momento de hiato para tirar algumas fotos no ônibus com Larissa, mesmo doente. Vívian virou-se para trás e colocou a mão em sua testa.
Já estávamos entrando na cidade. Para quebrar aquele gelo, comecei a cutucar o braço de Hiago.
Hiago pensou bastante. Ele não queria atender àquele pedido de forma alguma, não tinha motivos para isso. Mas, como ele gostava muito de Larissa, estando esta doente, ele resolveu aceitar esse encosto.
O ônibus parara. Apeamos e rumamos para a Policlínica Salinense. Após passarmos por um imenso jardim e descermos uma rampa, entramos em um lugar que parecia ser a primeira sala de espera, minúscula por sinal. Na fila, quatro pessoas. Uma delas, uma idosa a ponto de morrer.
Sentamos os três naquele banco desconfortável com o encosto gelado da parede. Enquanto Vívian esperava uma das atendentes verificar qual era o último número que ela havia escrito, Larissa dirigia-se ao banheiro, unitário.
Eu já vira hospitais pequenos, mas não como aquele. Sentia-me quinze anos mais jovem, quando ainda morava numa pequena cidade com pouco mais de 10 mil habitantes.
Já desistindo de procurar, a atendente resolveu escrever o número 246 para Vívian, que foi se sentar ao lado da velha em estado terminal. E lá foi ela, tirar mais um de seus cigarros da carteira para fumar. Larissa (que já havia voltado), olhou irritada para Vívian, apontando para a idosa. Vívian olhou para o lado, quando viu a velhinha:
Entre algumas tossidas e escarros, a senhora dizia, lentamente, mostrando um olhar seco e triste:
A jovenzinha parecia irritada quando se dirigiu ao caixa.
E lá foi a moça, desaparecer pelo corredor.
Larissa, ao ver o estado da velha senhora, que aparentemente dormia, arregalou os olhos e foi logo conversar com a atendente:
Conseguindo passar a perna, lá fomos os quatro para o fim daquele corredor. Entramos numa porta. E… Adivinhem: entramos na segunda sala de espera. Dessa vez, com mais de vinte pacientes.
Foi um tiro no pé. Ao invés de homens correrem atrás dela, um monte de mulheres fez o papel. Não para o que vocês imaginaram, mas para bater nela mesmo, já que todas elas eram as esposas dos homens que se encontravam por lá. Vívian fugiu.
Alguns minutos depois, Larissa foi chamada. Ficando na sala, além dos pacientes figurantes da história, é claro, apenas Hiago e eu. Entretanto, apesar de esperarem que mais uma briga ocorresse, um longo silêncio entre nós prevaleceu. Para acabar com o tédio, Hiago puxou seu celular do bolso e começou a jogar. Como sou vidrado nesses joguinhos, independente de plataforma, resolvi sentar-me ao seu lado e colocar o cabeção bem no meio da tela do celular, impedindo-o de jogar.
Prensei-o na parede. Nesse momento esqueci que estávamos em um hospital.
Quando ela se foi, Hiago e eu nos olhamos por alguns instantes e caímos na risada. Nem nós havíamos entendido o que acontecera ali. Será, por fim, uma trégua?
Já até pensava em fazer as pazes, até que o idiota ligou a câmera de seu celular e tirou uma foto minha. Aquilo me deixou possesso. Novamente, estava eu tirando o celular de suas mãos tentando apagá-la.
Enquanto Hiago tentava me impedir de tal ato, Vívian aparecia naquela sala, ofegante.
“Esperem aí”. Para onde ela estava achando que iríamos?
Voltando para sala, lá estava a médica, jovem, 32 anos, solteira, lindos olhos azuis e de busto volumoso, a perguntar sobre o estado de Larissa.
A médica levantou-se de sua cadeira e abriu a janela às suas costas.
Víamos apenas uma mulher atirando-se da janela, enquanto gritava. Entretanto, antes que ela pudesse se jogar, passou alguns minutos tentando passar pela janela, já que um de seus peitos havia se prensado em alguma parte daquela janela. Depois de se jogar, outro médico apareceu em seu lugar. Esse não era peitudo.
Larissa deu um sorriso amarelo.
Larissa começava a rir como uma retardada.
Larissa continuava a rir da mesma forma. O médico apenas observava atentamente as expressões de Vívian.
Também não deve deixar de mencionar que até semana passada, ela estava tomando remédios de tarja preta.
Larissa ainda ria.
Enquanto o médico procurava em sua gaveta alguma coisa, Vívian aproveitava para tirar fotos dos erros ortográficos que se encontravam naquela sala.
Larissa pegou a folha e começou a ler.
Quando as duas voltaram à sala de espera, lá estava o pessoal amontoado, tentando apartar a briga que acontecia: Hiago e eu, como sempre.
Larissa, ao ver a cena, foi ao nosso encontro, já gritando:
Olhamos um para a cara do outro. O pessoal já nos soltara, mas ainda por perto, para evitar qualquer outra eventualidade.
E fomos embora, como se nada tivesse acontecido. Lá fora, fomos logo perguntando:
Enquanto rumávamos para casa, Vívian nos mostrava os erros nos cartazes. Palavras como “sombrancelha” e “rejuvenecer” eram claramente visíveis. Questionávamos o nível de graduação da pessoa responsável por isso e se era realmente confiável que Larissa fosse se tratar naquele lugar.
Foi assim até chegarmos ao nosso destino. Lá, encontrava-se Paulinha, varrendo a casa novamente.
Hiago já não nos acompanhava. Foi para sua casa tomar um banho. Larissa foi para seu quarto descansar um pouco. Vívian para a cozinha fazer um mingau ralo para nossa amiga.
Fui até a área onde Paulinha estava. Ela alimentava Champignon e Alice e tentava fugir do assustador Tio Lu.
Quando finalmente todos encontraram algo para fazer, com exceção de Larissa que estava dormindo, fui para o computador e fiquei esperando por Hiago. Esperei, esperei e esperei. Lembrei-me de que estava coberto de lama e fui correndo para o banheiro, tomar um banho. Quando saio, deparo-me com aquele homem, todo suado.
Fomos para a rua. Não deixei de notar que ele estava com uma roupa completamente diferente à roupa que ele usava de manhã. Para piorar, ele usava uma camisa branca, como a minha.
Dei-lhe um tapa na cabeça.
Eu ainda não conhecia bem aquela cidade, apesar de ser pequena, eu já ter andado por ela e já estar no meu terceiro dia por lá. Então, já fui fazendo algumas perguntas a Hiago, mesmo algumas sendo óbvias demais, para quebrar aquele gelo.
Sabia que era ironia dele. Então resolvi dar-lhe um tapa na nuca.
Era estranho o que eu havia encontrado de tão longe: uma livraria em Salinas. Eu precisava entrar lá para conferir. Livrarias me chamavam a atenção.
Entrei lá e foi aquela decepção: não era bem uma livraria, mas uma papelaria, com direito a materiais escolares, de escritório, decorações para casa e várias canecas do Atlético Mineiro e do Cruzeiro. Um fato interessante sobre o norte de Minas é esse: lá eles dão mais valor aos times mineiros que o pessoal do Triângulo.
Quando entramos, fomos logo olhando tudo que estava lá. Era pegar, analisar, comentar, criticar e colocar de volta no lugar. Era assim com todos os objetos por quais passávamos. Até que um rapaz, novo funcionário, chegou até nós e perguntou, educadamente:
Mesmo assim, o vendedor não parou de nos seguir, então, resolvemos incluí-lo nesse passeio.
Olhamos para uns bichos de pelúcia. Alguns mexiam a cabeça, outros mexiam os braços e outros falavam: “Me larga, idiota”.
O vendedor sempre nos seguia. Sempre que perguntávamos algo, ele respondia:
Era até engraçado. Ele não sabia de nada.
Também fomos à seção de times. Lá, vários bonecos de Cruzeiro e Atlético Mineiro. Como sabíamos que Larissa torcia para o Galo, fomos procurar algo para ela:
Naquela papelaria, ou livraria, como eles gostavam de denominar, vendiam sim alguns livros. Mas, era uma pequena estante com poucos exemplares. Até meu acervo pessoal era mais rico, digamos assim.
Despedimos do vendedor e saímos. De fora, comentei com Hiago:
Continuamos nosso passeio. No meio da cidade, havia um mercado municipal, ou uma espécie de camelódromo. Para resumir, era onde o pessoal se reunia para vender muamba. Hiago relutou em entrar naquele lugar, mas eu precisava conhecer, mesmo que também não gostasse muito. Para se ter uma ideia, até hoje tenho receio de entrar no camelódromo, denominado Shopping Popular, da minha cidade.
E lá fomos. O cheiro era terrível. Incrível imaginar como ainda havia aqueles que conseguiam comer lá dentro. Eu teria feito vômito.
Depois da área de alimentação, porque dizer praça é um equívoco, víamos perfumes, pulseiras de relógio, bijuterias, utensílios domésticos e até alguns eletrônicos do Paraguai. Ladeando aquele mercado, algumas lojas de roupas com vendedoras nas portas que nos chamavam para entrar:
Ela precisava mesmo ter enfatizado que aquilo estava uma pechincha.
Depois do mercado, entramos em várias outras lojas. Lojas de enfeites para a casa eram as preferidas de Hiago. Entrávamos, analisávamos e esperávamos os vendedores falarem sobre o produto. Para finalizar, sempre ouvíamos:
E sempre respondíamos com a mesma frase:
Voltar da próxima vez. Para mim, o vendedor teria de esperar eu voltar mesmo para Salinas. Sabe-se lá quando isso aconteceria novamente.
Também entramos naquelas lojas de presentes, que vendem jogos de tabuleiro.
Ao chegarmos à praça dos bancos, a mesma em que Vívian dançara sensualmente, Hiago perguntava se eu não gostaria de tomar um sorvete. Pedi um pouco de tempo. Subimos num coreto e lá conversamos um pouco sobre a vida. Naquele instante, nada de briga, nem discussões. Tudo entre nós estava em paz.
E para comemorar, fomos até a padaria próxima para tomarmos um sorvete. Como eu preferia picolé, resolvi pedir. Hiago fez o mesmo. Naquela cidade, só existia uma marca de sorvete, a “Kigelado”. Algo bem criativo, como vocês podem notar.
Continuamos andando. Quando estávamos quase chegando ao fim da cidade (deveríamos ter andado menos de dois quilômetros). Encontramos algumas pracinhas. Eram pracinhas bonitas, mas não muito arborizadas, o que fazia falta. Aproveitamos para descansar um pouco, sob aquele sol escaldante.
Ri um pouco. Trocamos o número de nossos celulares e após mais alguns minutos de conversa, voltamos a andar. Alguns caminhos eu queria conhecer, mas Hiago sempre me dizia que nada tinha por lá, então resolvemos ir embora. Será que ele queria me esconder algo?
Ao nos depararmos com uma loja de roupas resolvemos entrar, mesmo ainda com aquele picolé na mão. Fui olhando as roupas, pegando-as com a mão suja mesmo. Então, se você, meu amigo, morador de Salinas comprou uma roupa dessa loja e viu uma mancha marrom no tecido, não se preocupem: é mero detalhe da roupa mesmo. Ops!
Vi algumas roupas bonitas. Pena que eram todas caras. Como eu não poderia gastar tanto naqueles dias, apenas demonstrei interesse. E Hiago me acompanhava, dizendo o que ele gostava e não gostava. Alguns de nossos gostos batiam e outros não.
No balcão, havia uma foto de um modelo com uma camiseta muito bonita. Apontei para ele e comentei com Hiago:
De princípio não tinha entendido muito bem aquela exclamação, mas quando olhei novamente e reparei bem na foto, comecei a rir descontroladamente. A vendedora ainda perguntou se eu não estava sofrendo de alguma convulsão.
Quando o relógio já marcava 13 horas, fomos ao supermercado. Antes de sair, Vívian havia me entregue uma lista de compras e já havia me alertado:
Dito e feito. Quando entramos no supermercado, a primeira coisa que ele fez ao passar por aqueles ketchups foi colocar um no carrinho.
Levamos arroz, extrato de tomate, refrigerante, algumas frutas e verduras e um pouco de ração barata para Tio Lú, o cachorro doente. Eu notava como naquele supermercado, como alguns produtos não haviam sido lavados e foram jogados na geladeira imediatamente após terem sido tirados de suas respectivas caixas. Algo bem nojento.
Na seção de frios, Hiago chegou a me repreender. Como ele era vegetariano, pelo menos naquele momento, chegou a discutir comigo que eu também não poderia comer presunto. Mussarela sim! Presunto, não!
Depois de realizada a compra, pedimos que a entregassem no endereço de Larissa e fomos procurar algo para comer.
Quando estávamos quase chegando, Hiago apontou para uma placa do outro lado da rua.
Quando eu avistei a placa, uma manada passou bem em nossa frente. Depois, um desfile de gorilas e, por fim, um trem de ferro. Depois de toda essa mentira deslavada, finalmente consegui ler o que estava escrito:
Loja de celulares “comfiamssa”. Em nós, você pode “comfiar”.
Quando rumamos para o outro supermercado para procurar o que estava faltando, nos deparamos com uma amiga de Hiago. Eles se cumprimentaram e assim foi o diálogo:
E ela passou um dedo pelo corpo dele como se o seduzisse. Eu olhava aquilo, meio de vela, sem graça. Por isso, fiquei de costas e fui vendo os carros passarem na rua. Se bem que, naquele momento, não havia passado carro algum.
Quando ela se foi, sem notar minha presença, logo fui perguntando:
E depois de todos aqueles comentários, fomos ao supermercado, depois comemos alguma coisa na padaria e entramos em outras lojas. Numa das revendedoras de certa marca de celular (não citarei qual para não criar qualquer vínculo), chegamos a discutir sobre um eletrônico que ele insistia comigo que não era um tablete, devido ao pequeno tamanho. Ele fez questão de perguntar para a vendedora que confirmou. Eu lá tenho culpa se aquele garoto só gostava de coisas grandes?
No final, entramos em uma daquelas lojas de perfume que tem por todo canto (não aquela que todo mundo conhece, mas uma menos conhecida), onde uma simpática e bela vendedora sentava-se atrás de um balcão.
Hiago ainda tentou relutar para não entramos naquela loja.
Enquanto entrávamos na loja, algumas pessoas apareciam na República Conosco, como Letícia, João e Izabella para fazerem trabalho. Quando perceberam que eu não estava, João e Letícia logo perguntaram para Larissa:
Quem via de fora certamente teria a mesma reação. Como dois garotos que, até há pouco brigavam por quaisquer motivos andavam sossegadamente pela cidade?
Na loja, experimentávamos alguns perfumes. Era um espirra pra lá, espirra pra cá, espirrada no olho, olho ardendo, vendedora sendo enforcada…
A cada respirada em um perfume, uma cheirada no café. Perfume um, uma cheirada, perfume dois, segunda cheirada. Como eu gostava muito de café, cheguei a ficar bons minutos cheirando aquilo.
Aquela discussão também se fazia nos perfumes. Cada um com um gosto diferente: o que eu gostava, ele detestava e vice-versa.
Ela foi me explicando que cada perfume possuía determinadas notas de certos aromas até comporem o odor final. Para mim, leigo, era tudo água perfumada. Ou melhor, era “Água de Cheiro”.
Fomos para a seção de perfumes femininos. Uns muito doces, outros com um aroma perfeito para a mulher, é claro.
Ela aproveitou para mostrar outros produtos.
E ela continuou a espirrar alguns perfumes, enquanto Hiago e eu discordávamos.
“Oh!” – pensei. “Que rostinho mais bonitinho!”. Mesmo assim, não deixei me levar. Se ela quisesse me vender, teria que fazer o desconto que eu estava pedindo.
Quando saímos da loja, ainda comentei com Hiago.
Era esse o fim do passeio. Logo depois, fomos para a casa, onde os meninos continuavam a fazer o trabalho. Eu jogava Nintendo DS, no meu cantinho, enquanto os meninos proferiam palavras que, na minha opinião, eram palavrões.
No fim do dia, tomamos um lanchinho. Larissa fez a pipoca (de micro-ondas), enquanto Brunna fazia o suco (com pó de gelatina). Para piorar a situação (vocês perceberam que nesse dia tava crítico, né?) e após Larissa queimar alguns pães de queijo, o pessoal pediu para eu preparar o café:
Eu poderia muito bem arrastar a cara dela no chão vermelho daquela sala, mas, não! Eu precisava mesmo atender aos pedidos dela! No final, meu café ficara doce e ralo. E o mais importante: Letícia tinha ido embora antes mesmo de provar o meu café! (Minha vingança não seria feita naquele dia).
Minutos mais tarde, perguntei à Larissa se ela não tomaria um pouco, enquanto Vívian tremia como se sofresse de epilepsia, no chão, atrás de mim.
À noite, o pessoal ainda fazia um pouco de trabalho. Hiago, em sua casa, chegou a perguntar à Larissa se eu poderia passar um pouco por lá. Relutei um pouco.
Mas, ele insistiu, e resolvi ir para lá, mesmo depois de o relógio marcar meia-noite. Aproveitamos para ver os shows de Paula Fernandes que ele tinha gravado para treinarmos para o show que aconteceria dentro de dois dias. Como eu estava bem por fora, improvisava para cantar mesmo. Depois, aproveitamos para ouvir outras músicas e comparar nossos gostos musicais que, dessa vez, combinavam mais que os de perfume. Finalmente, nos tornávamos amigos.
Na rua, Sol continuava a vagar sem destino. Ela estava com fome e com frio, mas não com sede, após tomar um pouco da água empoçada que havia em um dos buracos. Sol já se arrependera de ter deixado aqueles cuidados que tanto lhe proporcionaram conforto, até que algo lhe fez mudar de ideia: um cachorro, alto, forte e num carrão importado. Ela entrou de carona e foi logo ordenando:
Do outro lado da cidade, a vendedora de perfumes discutia com seu patrão por ter descontado sessenta centavos do perfume que ela me vendera. Sim! Eles discutiam às três da manhã, e nem casados ou namorados eles eram. Nem sequer amigos.
Voltei para a casa muito tarde tentando fazer o menor ruído. Faltava apenas duas horas, mais ou menos, para o dia começar a clarear. Dormiria pouco para a viagem de amanhã e aquilo não seria bom. Tudo bem, essas coisas acontecem!
Quando entrei em casa, tirei os chinelos e fui andando sorrateiramente. Larissa havia me entregue as chaves, mas como as portas eram muito duras, ficava quase impossível não fazer qualquer ruído. E tudo acontecia como as Leis de Murphy: quanto mais eu tentava fazer silêncio, mais barulho eu conseguia fazer.
O escuro também não ajudava. Depois de ter feito um estrondo com a porta de entrada, bati meu dedinho no pé de uma das cadeiras de ferro que se encontravam frente ao quarto de Vívian. O barulho foi feio, mas não tanto quanto a ferida que havia aberto. Eu pulava tentando não gritar de dor, mas já era quase inevitável não terem percebido. Vívian levou um susto, mesmo não ter levantado da cama, os cachorros latiam e as três garotas, Tchely, Brunna e Paulinha que dormiam juntas, caíram da cama, uma em cima da outra, seguindo do grito de Paulinha, que chegou a ficar embaixo.
Ainda pensando que eu não havia acordado ninguém, continuei o meu caminho para o quarto de Larissa. Champignon chegou a sair do quarto para me dar uma boa cheirada. Com medo de não ouvir mais qualquer latido, decidi não fazer qualquer movimento brusco. Ao abrir a porta do quarto de Larissa, tentando parecer o mais silencioso possível, eis que a garota se mexe, aponta o celular em minha direção e acende a sua luz. Com aquela claridade, comecei a derreter.
Quando Alice começou a lamber meus restos mortais, lembrei-me de que não era um vampiro e voltei ao normal. Larissa ainda tentava identificar o ser estranho que continuava parado ali na porta, mas não se lembrava de que tinha uma visita em casa. Resolvi esclarecê-la:
Para a minha sorte, ela não chegou a pensar que era algum estuprador, sequestrador ou coisa do tipo. Talvez, se realmente fosse, ela estaria mais segura. Coitadinha!
Fui já deitando na cama, puxando lençóis, travesseiros, cobertas e empurrando os cachorros que se encontravam no meu caminho. Foram horas difíceis. Mesmo com tanto sono, só consegui dormir depois de um bom tempo. Mas aí…
Como nessa semana tivemos o dia das crianças, vou postar aqui algumas tiras de Charlie Brown e umas de Calvin e Haroldo (já presente neste blog).
It’s only for Zelda’s fan.
Capítulo 3: Conhecendo o instituto
Era uma vez, uma gata xadrez que andava pela rua seis. Essa gata estava à procura de alguma comida para seus filhotes. Quando um motoqueiro passou, ela pulou em sua garupa, mesmo sem saber o destino. E lá foi o pobre felino tentando se segurar naquele vento.
Era sábado. O motoqueiro estacionou no Instituto Federal do Triângulo Mineiro, campus Ituiutaba, onde estudava. A gata, ao perceber que estava no meio do mato, deu um tapa em sua testa, perguntando-se onde teria se metido. O jovem motoqueiro caminhava para sua sala, onde fazia sua pós-graduação.
E lá também estava eu. Duas semanas depois de ter perdido aula, sentado ao lado de uma antiga amiga de faculdade, Carolina. Eu contava a ela sobre as coincidências da vida:
Larissa também estava empolgada. Assim como eu, ela passara em uma federal, o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, campus Salinas, e também perdera duas semanas de aulas.
Coincidências ou não, nossas histórias, mesmo estando tão distantes, se assemelhavam. Com a faculdade não era diferente. E, como eu já havia recebido um convite da garota, era mais que justo que um dia eu fosse conhecer o outro IF.
E lá estava eu, cinco meses depois de ter dito essa frase. Antes, eu e Larissa disputávamos pra ver qual era a pior:
Aquela discussão parecia não ter fim. Mas, naquele instante, nada disso importava. Era indescritível a sensação de estar pisando ali. Poderia não ser o melhor lugar do mundo, mas para mim pouco importava. Era um sonho que, finalmente se realizava.
Sim! Eu estava tão empolgado de estar ali, que resolvi mandar uma mensagem para Carolina naquele instante. Os dizeres “Estou no IFNMG” mal saíram de minha caixa de saída e eu já sacava minha câmera do bolso para tirar fotos, com intuito de lhe mostrar quando voltasse. No mesmo instante, Carolina pegou seu celular do bolso, leu a mensagem e anunciou para todos que estavam ali perto:
Mas, antes de falarmos do lugar, vamos voltar ao início do dia.
Seis horas da manhã, o telefone de Larissa começava a tocar. E eu pensando que, naquelas férias, não teria que ser obrigado a levantar tão cedo! Como estava em seu quarto, ela já foi logo me perguntando enquanto eu abria os olhos:
Levantei-me, troquei de roupa, penteei o cabelo, tomei café, escovei os dentes, peguei a câmera, o DS, a carteira e tudo mais que eu tinha direito. Quando estavam quase todos prontos, Hiago tocou a campainha e entra. Vívian bate no quarto de Tchely, perguntando se ela iria conosco:
Então, fomos Larissa, Vívian, Hiago, Brunna e eu para o ponto de ônibus. Quando ele parou, subimos. Recebi logo uma “facada” quando soube que precisava pagar 75 centavos pela passagem. Tive vontade de dizer à cobrada que dinheiro não nascia em árvore, mas deixei para lá, já que eu estava em Salinas.
E lá fomos. No ponto seguinte, João e Letícia subiram. O coletivo já estava bem lotado. Alguns iam em pé e outros sentavam em colos alheios. Larissa aproveitava a ocasião para me apresentar alguns colegas:
Ao fim da cidade, o instituto se encontrava. Era um lugar interessante de se ver, principalmente para quem ia apenas a passeio. Era notável, pelos prédios, que o instituto já possuía alguns anos de vida, ao contrário do que eu imaginava, já que o IFTM não completara nem cinco anos de funcionamento.
Ao descermos da condução, encontramos mais alguns centos de jovens desesperados, por estarem em época de provas. Entre elas, Catarina, que eu havia conversado noite passada, via internet.
E lá fomos nós, subindo para a sala de aula, ladeados por um enorme grupo de estudantes desesperados em época de provas.
Era engraçado ver tamanho desespero. Lembrava-me dos meus tempos de faculdade em que, segundos antes da prova, eram tempos preciosos para tentar absorver o máximo de informação possível.
Enquanto subíamos a pé, o professor Leonardo passava de carro sem olhar para os lados. A prova, nesse dia, era dele. Talvez tenha sido por isso que ele preferiu não dar moral para ninguém.
Quando chegamos à sala, o pessoal se despediu de mim e entrou. Alguns pediram que eu entrasse e fizesse a prova por eles. O que seria melhor para qualquer um ali da veterinária, já que sou formado em Sistemas de Informação.
E lá estava eu, sozinho, sem ninguém. Não pude deixar de reparar que aquele lugar parecia uma fazenda mesmo, com prédios antigos, barro e mato por todos os lados, além de vacas, porcos e bezerros misturados a tantos outros animais, que me fazia sentir como um também. Então, para conhecer melhor o lugar, fui dar uma volta.
Larissa já estava avisada: Quando terminasse a prova, era para me dar um toque e eu retornava à sala de aula. Isso se eu não me perdesse no caminho. Pensei até em comprar um pãozinho para ir jogando pelo chão para fazer uma trilha, mas achei isso muito “João e Maria”. Então, resolvi deixar para lá.
Agora, contarei a vocês um pouco do que vi. Um barracão ainda não terminado cercado por tantos pneus velhos, que dava até medo de olhar e encontrar alguns ovos de certo mosquito periculoso, envolto por mato queimado. Depois, tirei fotos de algumas árvores que embelezavam o local. Lá também poderiam ser visto algumas hortas, alguns bezerros e até um campo de futebol. Também se viam tratores, um pequeno lago e uma bela paisagem dos morros de Salinas.
Era de se encantar aquela vista. Em minha terra, uma vista como aquela não era comum. Então, aproveitei cada momento.
E eu sujei o meu tênis. Aquele tênis branco já não seria mais o mesmo. Como eu já havia dito, apesar de uma paisagem tão bonita como aquela, encontrávamos mato, terra e buraco em todos os lados. Até carroceiro passava às vezes por ali.
Nem percebi quanto tempo passara. Quando vi, o relógio já sinalizava oito horas. Para me ajudar a voltar ao meu destino, um rastro de cavalo me apontava a direção. Já chegando à sala, Larissa me dava um toque no celular indicando que terminara a prova. Não precisei atendê-la, pois já estávamos à vista do outro.
Aos poucos, a galera foi aparecendo. João, nesse instante, apareceu com um largo sorriso para meu lado.
Letícia também apareceu. Aproveitei para tirar uma foto dela. Ela me correspondeu de forma muito bela: levantou seu maior dedo e o apontou para mim. Tive vontade de respondê-la, mas deixei para lá.
Tchely também saíra. Ao vê-la, quase caí para trás. Ela não estava no ônibus e eu não a vi entrar na sala. Então, como ela foi parar ali?
Neste momento, levantei-me, olhei fundo nos olhos dela, aproximei-me bem devagar e fui alterando o volume de minha voz cada vez mais:
Sempre aprendi que termos como “Venho por meio desta” não é correto de se dizer. Mas, dizendo em voz alta, aquilo soava tão formal, que decidi deixar assim mesmo.
Depois, saíram João Pedro e Camila, um dos casais da turma. Como todo bom namorado, João Pedro sentou-se em um toco e Camila sentou-se em seu colo. E foram discutir as questões. Como eu não era participante, fiquei apenas de expectador.
Neste instante, foi a vez de Arthur sair. Ele veio correndo e logo foi perguntando à Larissa:
E lá fomos nós, enquanto Arthur não parava quieto.
Enquanto caminhávamos em direção ao pátio, João e eu trocávamos algumas ideias:
Tirei minha câmera do bolso e a entreguei para que ele pudesse ver as fotos que havia tirado.
João parou de falar, ao pisar num monte de esterco de cavalo. O mesmo rastro que me guiara para a sala de aula.
E então, João começou a nos apresentar alguns lugares.
Preferi ignorar. Então, ele continuou a representar o papel de meu guia turístico.
Olhei para João de cima a baixo e confirmei o quão fino ele era. Sim, ele era magrelo.
E lá foi nosso grupo se deslocar para a praça de alimentação. Pensei que fosse algo grandioso, mas era apenas uma pequena janela com uma moça dentro, oferecendo alguns salgados de frango e presunto para os alunos, em troca de um real e vinte e cinco centavos. Enquanto isso, duas alunas da veterinária conversavam ali perto:
Ao lado, também estava uma pequena roda do grupo de veterinária. Aproximamos. Notei que havia um pátio ali do lado. Alunos de outras turmas encontravam-se ali, mas o papo da turma de cá estava mais animado.
Sim! Esse é o nome da garota. Até hoje, não se descobriu a origem disso.
Por um momento, Izabela passou na cabeça todas as pessoas da sala para ver se se lembrava de algum Álisson. Aí, ela me viu e continuou:
E a animada conversa já continuava:
‘Mãe minha’, ‘mãe minha’, ‘mãe minha’, pensava eu. Que cacofonia! Era só falar rápido que se entendia outra coisa. ‘Mãe minha’.
E ele a beijou em seu rosto, como símbolo de pedido de desculpas quando Arthur aparece, entra na roda e fala para todos escutarem:
Davi foi muito legal, ao pegar a colher, tirar seu próprio olho e entregá-lo, por completo, ao jovem Arthur, que ficara muito agradecido.
Enquanto Arthur devolvia o olho de Davi, a galera voltava ao interessante assunto em que estavam. Do outro lado, meio isolados, Larissa e eu apenas prestávamos atenção na conversa. João, que estava do nosso lado, sentindo seu estômago reclamar, pediu uma empada de frango à balconista. Após esperar que ela fosse ao freezer, tirar uma empada congelada, colocá-la no forno micro-ondas por breves 30 segundos e retornar o troco para uma nota de cinco, lá estava João, olhando demoradamente para a empada antes de lhe dar uma mordida.
Ouvindo isso, a balconista apontou língua para a garota.
Para evitar qualquer briga, saímos dali. A mulher tentava pular pela janela, mas João fez o favor de empurrá-la de volta, fazendo-a cair. Quando ela estava se recuperando do tombo, outros alunos apareceram, pedindo mais lanches. Então, a balconista preferiu desistir, mas não antes de jurar vingança para o dia seguinte.
Vívian estava xingando uma de suas colegas que tanto detestava. Para piorar, ainda brigou com Larissa na noite passada por ter passado cola a ela. Como aqui pretendemos preservar cada personagem, não diremos que ela se referia à Catarina.
E nós continuávamos nosso passeio. Próximo aos ônibus, lá estava Hiago abraçado à Catarina pelas costas, enquanto cheirava seu pescoço. De longe, parecia uma tentativa de beijo.
Hiago e Catarina se despediram e ele veio ao nosso encontro. Estava muito feliz, até aquele momento, exatamente por ter ficado tanto tempo distante dele. Como evitá-lo era inevitável, o jeito foi me acostumar.
Mais 75 centavos. Mas, dessa vez, o ônibus estava vazio. O que me deixava mais feliz era saber que eu estava roubando o lugar de Hiago, sentando-me ao lado de Larissa. Ele teve que ficar lá, ao lado de Vívian.
Ao contrário de nossas saídas em Belo Horizonte, Larissa, em Salinas preferia sentar-se nas primeiras cadeiras, geralmente mais baixas. Na capital mineira, sempre sentávamos ao fundo, na cadeira mais alta. Talvez porque ela gostava de se sentir mais alta, ou de ver os outros de cima, nunca entendi muito bem.
Então, começamos a andar. Como acontece em todo seriado sem-graça, uma professora gordinha saiu da secretaria, correndo, tentando alcançar o ônibus, que não parava. E ela gritava para o motorista ouvir. Todos os alunos perceberam e começaram a gritar para que o motorista pudesse parar, mas em vão, já que ele usava fones de ouvido. Entretanto, para a sorte da professora gorda, o motorista percebeu pelo retrovisor algum alvoroço em seu ônibus e olhou para trás. Percebeu a professora nesse exato momento e freou. Mas, isso não impediu que a pobre senhora entortasse seu pé e caísse de cara na lama.
Pobre professora. Atrasada, desajeitada e gorda. Isso já está tão clichê nas histórias de comédia que era preciso colocá-la aqui. Os alunos a olhavam assustados, enquanto ela não conseguia se levantar. O motorista levantou-se de sua poltrona e ficou parado por um bom tempo para ver se algo acontecia. Mas, nada acontecia.
O motorista olhou para todos os alunos. Eles retribuíram. Um esperava a reação do outro, mas ninguém se mexia. Lá fora, alguns professores saíam de suas salas e via aquela cena. A professora caída nem se mexia. Os outros professores estavam boquiabertos, mas também não se mexiam. Será que a pobre professora morrera ali mesmo? E por que ninguém se mexia para ajudar a pobre senhora?
O motorista deu uma última olhada para os alunos. Foi até a janela e perguntou aos outros professores:
Não se ouvia qualquer som. Em vez disso, os professores apenas faziam sinal indicando que não sabiam. Então, percebendo que não adiantaria, o motorista voltou-se à sua poltrona, colocou novamente os fones em seu ouvido, ligou a máquina e lá fomos nós pela estrada.
Estávamos tão empolgados de, finalmente, estarmos em curso, que até pensamos em cantar “um elefante incomoda muita gente”, mas resolvemos parar ao ver a cena se repetindo: a professora estava em pé novamente e voltava a correr atrás do ônibus. O motorista logo percebeu aquilo, por isso, pisou fundo no acelerador para deixar logo os portões do instituto. E foi assim que a professora perdera sua carona para casa.
Não foi uma longa viagem e o caminho sempre era o mesmo. Por isso, aquele foi mais que tempo suficiente para eu ter tido uma boa lembrança da cidade. Salinas era sim uma cidade pequena, mas que trouxe tantas lembranças que eu seria capaz de escrever um livro sobre o que eu passei lá. Quem sabe algum dia.
Descemos no ponto. Chegamos e não eram nem 10h ainda. Quando entramos em casa, além dos cachorros que nos recebiam latindo, lá estava Paulinha varrendo a casa.
E aqueles cachorros pulavam. E como pulavam! Cachorros eram as únicas coisas que eu estava vendo naquele momento, depois de um fora desses.
Então, as garotas trocaram suas roupas e lá foram fazer a faxina de casa. Larissa ficou por conta de arrumar seu quarto e, para meu azar, eu precisava ajudá-la, já que era ali que se encontravam minhas malas.
Vívian foi lavar as louças. Ela me contava como gostava de ajudar as pessoas, mesmo quando não fosse necessário:
Vívian me olhou com uma cara não muito boa.
Passado alguns minutos, Brunna entrou em casa. Naquele dia, o almoço foi por conta dela. Sim! O almoço foi por conta dela. Então, ela entrou, trocou de roupa, foi para a cozinha, tirou as panelas da dispensa e começou sua obra de arte.
E ela virou as costas para mim e saiu da cozinha. Eu ainda estava tentando entender o que foi aquilo depois do fora, quando ela gritou lá da sala:
‘Ah!’ – exclamei em pensamento.
Quando Brunna desligou o fogo da última panela, ela perguntou:
Aquela mesma reação do dia anterior repetiu-se. Todos se entreolhavam, com medo. Era a primeira vez que a garota de Francisco Sá cozinhava para eles.
E lá estava eu me servindo. Como ninguém tinha opção, formaram uma fila atrás de mim. Mas, diferente de tantas outras filas, naquela encontrávamos apenas pessoas muito bem educadas:
Sim! Tchely novamente aparecera misteriosamente diante de nós. Talvez transportada por forças do além.
Após nos servirmos, sentamos cada um em um canto da cozinha. Eu e Larissa ladeávamos a mesa branca de plástico, Tchely sentava-se no chão, tentando empurrar os cachorros para longe dela, Vívian trouxera a cadeira que ficava em seu computador e Brunna sentava-se em um banquinho. Paulinha era a única que ficava em pé, na porta para a varanda.
Atrás de mim, uma mesa de passar roupas. Em cima da mesa, uma vasilha fechada de feijão inteiro. A vasilha estava tampada e a cor de sua tampar era cor-de-rosa. Nenhum animal foi morto para que aquele feijão pudesse ser feito. Bem, talvez algumas pragas que atacavam a colheita…
E lá foi Brunna nervosa para a dispensa. Pegou um pote pensando ser sal, mas era açúcar. E ela foi correndo, em câmera lenta, no rumo das panelas, jogar todo o açúcar na panela de arroz. Todos perceberam o que ela iria fazer, por isso, em uníssono e em câmera lenta, gritaram:
E o herói do dia saiu correndo até Brunna, esbarrou sua grande cabeça peluda nas pernas de Brunna, fazendo o pote de açúcar voar, ainda em câmera lenta, enquanto escorregava por aquele piso vermelho fazendo seu chinelo de dedo voar por aquela cozinha. Enquanto Brunna caía, o pote de açúcar caía em minha cabeça. Tudo culpa de tio Lu.
Brunna, sentindo-se culpada de tudo isso, foi buscar um pano. Larissa, virou-se para mim e me disse, sussurrando:
Então, Brunna, após retornar, ajudou-me com o pote de açúcar, pediu-me desculpas pelo ocorrido e prometeu não mais cozinhar, enquanto eu estivesse ali. Um grande alívio para os presentes.
Foi assim que, naquele dia, o almoço conseguiu se livrar das garras do açúcar. Incidente que não pode ser evitado um mês depois, quando Paulinha jogou açúcar na batata frita no lugar do sal. Mas, isso é uma história que contarei em outra ocasião.
O sol já não estava em seu ponto mais alto. Quase todos naquela casa descansavam tranquilamente. Novamente, peguei o último livro da série Harry Potter, deitei-me no chão e comecei a lê-lo. Deitar-me naquele chão vermelho e gelado, no único lugar em que o sol entrava naquela casa era uma sensação maravilhosa. Contudo, como estava sem almofadas ou travesseiros, encontrar uma posição confortável não era nada fácil.
Vívian estava no banho. E não estava sozinha. Antes que alguém pense qualquer besteira, ela não estava com um homem. Ela estava tomando banho e dando banho na cachorra da Larissa. Antes que alguém novamente pense mal, ratificarei: era a poodle Alice.
Eu ainda não sabia se prestava atenção no livro ou na briga.
Eu ria. Aquilo tirou minha atenção por completo. O sono também não ajudava muito, por isso, fiquei de frente à parede e tentei tirar meu cochilo, naquele chão mesmo.
Quando já estava quase pegando num sono, Vívian aparecia na sala, segurando a cachorra e um secador, apenas enrolada na toalha. Ao ver aquele pequeno corpo estirado naquele chão, frente ao sol, logo pensou:
‘Que garoto maluco! Depois fica doente e não sabe o motivo! Eu tenho medo de ficar assim um dia. Você não tem medo também, Alice?’
Alice continuou encarando-a, como se nada tivesse acontecido.
‘Ah, é! Eu me esqueci! Eu estou apenas pensando! Alice não vai me compreender. Que burra eu sou!’
Alice estava toda molhada. Muito engraçada para quem a via naquele estado. Vívian a levou para seu quarto e se trancaram ali. Ligou o secador e começou a sessão ‘seca cão’.
Assim como o banho, a sessão incluía altos gritos e xingamentos. A cachorra não parava quieta. Sempre que Vívian dava uma brecha, lá estava a pobre animal tentando fugir do quarto. Mas, Vívian conseguiu vencer aquela guerra.
Com toda aquela barulheira, não consegui dormir. Então, retornei ao livro. Quando estava em uma parte bastante interessante e toda a casa já estava em absoluto silêncio, eis que a porta da entrada começa a fazer um barulho estranho, como se estivessem arrombando. Era Hiago, que entrava sem qualquer cerimônia. Quando me viu, teve a mesma reação de Vívian, mas já foi logo perguntando:
Então, adormeci.
Três horas depois, levantei-me, fui à cozinha e lá estava Vívian:
Larissa aparecera neste momento. Ela estava de pijama, com a cara amassada e com a voz mais aguda que o normal.
Nossa amizade era algo muito lindo. Fomos criados meio a ironia e sarcasmos, mas nunca nos deixamos de amar. Além disso, estarmos vivendo tão longe um do outro contribuía para que nosso amor ficasse cada vez maior, pois era assim que gostávamos de ter o outro: distante.
Eu poderia continuar a admirar aquele momento maravilhoso, mas algo me interrompeu. Novamente, Hiago estava ali. Não sei o que tanto aquele garoto fazia naquela casa.
Admito. Meu sotaque é ligeiramente paulista. Minha tendência é forçar o R. Como o pessoal do norte de Minas tem o sotaque ligeiramente baiano, a diferença torna-se bem nítida.
Larissa foi para seu quarto. Acompanhei-a e Hiago também. Deitamos na cama dela e os dois começaram a conversar tranquilamente, quando eu voltei a intrometer.
Sem hesitar, ele pegou meu braço direito, virou-me contra o colchão e me prensou com seu joelho em minhas costas.
Hiagou despediu-se e foi para a casa. Ri de mim mesmo. Nem eu sabia o que estava fazendo.
Vívian apareceu na sala. Perguntou-nos se estávamos prontos. Partimos. Passeamos rápido pela cidade e já estávamos na sorveteria.
Já estava anoitecendo quando chegamos. Larissa sentia uma leve ardência em seu corpo. Hiago aparecera novamente.
Dirigimo-nos para a casa de Hiago. Fomos até a varanda e nos sentamos no sobrado. O sobrado não tinha qualquer cerca, portanto era fácil alguém cair de lá e se esborrachar no chão a mais de cinco metros. Sentei-me no meio dos dois.
Hiago nos trouxera um pequeno balde cheio de laranja e duas facas. Cheguei a pensar que aquelas facas seriam úteis para que ele pudesse me assassinar, mas, ao olhar para baixo, percebi que aquela não seria a única forma.
Larissa não sabia descascar uma laranja, por isso fazíamos torcida para ver se ela conseguia tal ato. Entre uma ferida e outra na pobre fruta, ela nos contava:
Rimos. Larissa não perdia o sensor de humor, mesmo no estado em que ela se encontrava. Sua febre estava cada vez mais alta e seu nariz já começava a escorrer.
Eu estava terminando de descascar minha laranja. Como aquela era uma faca bem melhor que a outra, era a mais desejada. Por isso, Hiago me pediu de volta.
Parecia uma trégua entre nós dois. Talvez fosse o efeito da Laranja.
‘Ligar?’ – pensei.
Então, Hiago pegou seu celular e começou a discar para o número. Uma música japonesa começou a tocar.
Era Tchely. Surgira do portão de casa, olhou para nosso rumo e nos viu ali na sacada. Hiago aproximou-se mais da beirada da sacada e gritou:
Percebi que Hiago estava bem na ponta da sacada. Meu coração gelou. Tentei puxá-lo para trás, mas como o garoto estava muito pesado, não consegui.
Tchely entrou. Quando voltou, segurava uma câmera semiprofissional. Bateu três fotos nossas:
Ajudamos Larissa a voltar para o apartamento e, de lá, fomos para casa. Hiago ainda demorou alguns minutos, pois tomaria um banho antes de descer. Em casa, Vívian cozinhou uma sopa para a garota.
Mas, isso não impediu que ela regurgitasse a laranja dentro do lixo.
Quando Hiago apareceu, foi direto ao quarto de Larissa e deitou em sua cama. Para implicar, deitei-me na mesma cama e o empurrei para o colchão, onde Larissa estava deitada. Ele logo foi tirando sarro:
Então, ele pegou o lixo e viu uma bela imagem.
Para mostrar seu bom estado, Larissa colocou em seu mensageiro instantâneo a seguinte mensagem pessoal: ‘Nada melhor que ficar doente em véspera de Expomontes. Uhul!’. Hiago aproveitou a ocasião para responder a todos que perguntavam que ela estava grávida. E de mim. Tinha pena da pobre criança.
Distante, a campainha tocava. Uma, duas, três vezes. Vívian logo desconfiou:
Fui lá pra fora. Um pouco distante, um garoto de boné sentava-se na calçada. Olhei fixo para ver se me lembrava dele. Assim que me viu, ele foi logo perguntando:
Era Erick. Estivemos juntos noite passada, mas eu não me recordava de sua fisionomia. Para não parecer mal-educado, pedi-lhe que entrasse.
“Claro que posso fazer pra ela, Vívian. Assim que terminar darei um pulinho aí e entrego!” – respondeu João, por mensageiro.
Topamos ir. Erick, Hiago e eu caminhávamos pela cidade, passávamos por passarelas e rotatórias. Mesmo que eu não tivesse andado muito por aquela cidade, o caminho percorrido era quase sempre o mesmo.
Após uma longa caminhada de quase cinco minutos, chegamos à padaria. Entramos e fomos todos educados:
E lá fomos nós. Hiago carregava um saco lotado de pães.
Seguimos para casa. No caminho, percebia que, dificilmente os carros eram de Salinas.
Era difícil de acreditar que os dois carros da capital eram de dois professores deles. Tão difícil quanto acreditar que, nesse momento, um cara descia rolando a tal passarela da moda.
Em casa, como previsto, Vívian queria matar Hiago por seu exagero. Para compensar, Erick assumiu o gasto por completo.
Enquanto Vívian aceitava o dinheiro de Erick, eu provava o tal cachorro quente democrático.
Era uma mistura de salsicha e soja, para agradar carnívoros e vegetarianos. Um gosto um tanto exótico, mas que valia a pena experimentar.
Já estava bem tarde e João ainda não havia aparecido. Ele havia se enrolado com o resumo da prova que estava fazendo.
“Como Larissa está?” – perguntava João.
“Em estado terminal!” – respondeu Vívian.
“Se ela morrer, eu a mato. Esse toolbox está me dando muito trabalho!” – continuou João.
“Vívian, tem algum problema se eu entregar uma xérox ao invés do original?” – perguntou João.
“Acho que não tem problema não. Cris é de boa, se ela não aceitar, vamos amarrá-la e tudo fica resolvido!”. – disse Vívian, que repetiu a conversa para Larissa escutar.
“Vívian, diga à Larissa que está muito tarde. Levarei os resumos amanhã, se ela não se importar. Enquanto isso, vou tentar terminar aqui. Até amanhã!”
E eles se despediram. Vívian contou o caso de João à Larissa, para que ela pudesse se tranquilizar.
Como estava tarde, Erick e Hiago se despediram de nós. Larissa preferiu não dormir na casa de Hiago por razões óbvias. Deixariam para outro dia. Respirei mais aliviado por não ter que aturá-lo por mais algumas horas, mesmo que ambos estivessem dormindo. Com isso, encerramos a noite. Amanhã seria um dia mais agitado.
Mas, o que havia acontecido com a gata xadrez do começo do capítulo? Finalmente encontrara seu caminho de casa, pegando carona com o mesmo motoqueiro. Para seus filhotes, levou um pedaço de pão amanhecido e tiveram um delicioso jantar.
Capítulo 2: Próxima parada, Salinas
E foi assim a nossa primeira conversa do dia, a poucas horas de nos encontrarmos. Como já não conseguia mais dormir, levando em consideração o transporte, as estradas e o sol em minha cara, voltei a jogar meu DS. A mulher ao meu lado também tentava tirar um cochilo, visivelmente em vão.
Fechei o videogame e o guardei no bolso. Em outras ocasiões, continuaria jogando.
“Parentes por lá”? Por que todo mundo me pergunta isso? Será que você só viaja se tiver parentes morando onde deseja ir?
A conversa parou por aí mesmo. Duas horas depois, recebo uma mensagem de Larissa: “Se você chegar e eu não estiver na rodoviária, espera um pouco porque acabei de achar um cachorro e estou na luta para levá-lo para casa”.
Larissa e alguns de seus amigos de faculdade encontraram um labrador preto em frente à companhia de água, no centro da cidade, e resolveram levá-lo. Como eles não estavam próximos de casa, Hiago, um dos que a acompanhava, pediu a um carroceiro, próximo a eles, que o ajudassem.
Enquanto eles lutavam para levar o cachorro, que também era cego, a minha viagem chegava ao fim. Os morros de Salinas já eram visíveis, assim como os prédios, o mato e a terra. Também era bem notável que a cidade carregava divulgação de suas cachaças para todos os lados.
Entramos na rodoviária. O ônibus desligara os motores. Finalmente, aquele tedioso caminho chegara ao fim. Desembarquei. Agora, eu poderia pegar outro ônibus e voltar à minha terra. Pelo menos foi o que eu tentei, até descobrir que os guichês estavam fechados…
Desci do ônibus, peguei minhas malas, sentei-me nas cadeiras velhas e quebradas e esperei. Esperei, esperei e esperei. E como esperei. Já não estava mais aguentando, então resolvi tomar uma atitude: resolvi esperar mais algum tempo. Após quase uma hora de espera, ligo para a garota de um metro e meio de altura (ou pouco menos que isso):
Andei um pouco pela rodoviária. Não encontrei o tal ponto de referência de forma alguma.
Olhei e avistei o posto. Próximo, uma bela garota ruiva, de sorriso estonteante, trajada de camisa preta e uma calça jeans, vinha à minha direção. Logo atrás, vinha Larissa.
Larissa começou a reparar na mulher, não olhou por onde andava, tropeçou em uma pedra e caiu num buraco. Na verdade, nada disso acontecera, então, apaguem o que vocês leram, inclusive sobre a ruiva.
De longe, respondi à Larissa com um sorriso. Ela correspondeu. Após longos três meses de espera, finalmente nos reencontrávamos. Depois de nos abraçarmos, fiz o que todo bom amigo faz nessas horas: entreguei uma das malas para ela carregar.
Há mais de cinco anos, eu e Larissa nos conhecemos em um fórum de RPG. A partir daí, nossa amizade foi crescendo, passando por boas histórias, mesmo que virtuais. No início deste ano, ela veio à minha formatura, onde nos encontramos pela primeira vez. Depois dessa, tivemos mais dois encontros: um em Montes Claros e outro em Belo Horizonte que, indo embora desse último, ela pediu para que fosse à terra da cachaça para conhecer a cidade e seus (completamente normais) coleguinhas de faculdade. E lá estava eu.
E ficamos lá parados por cinco minutos tentando imaginar o quão ruim seriam nossas vidas sem o tal almoço.
E foi assim o passeio. Descida, rotatória, subida. Paramos na Rua Belo Horizonte. Sim! Larissa não largava Belo Horizonte nem quando estava a 600 km de distância.
Próximos ao nosso destino, Larissa apontou para um prédio, onde havia uma instalação da Previdência Social.
Essa informação me foi muito útil mais tarde. Logo saberão o motivo.
Era tarde demais. Larissa já proferira aquele nome em vão. E eu pensei que conseguiria me esconder dele naquelas duas semanas que me acomodaria por lá. Pois é! Meu plano infalível estava completamente desmoronado, graças àquela ruiva maligna, que agora ria maleficamente em seus pensamentos.
Foi nesse momento que ele apareceu, ali na sacada. Só não o descrevo aqui para não apanhar depois. Então, tentem usar a imaginação de vocês.
Acenei de longe, para não parecer mal-educado. Ele retribuiu e logo disse:
Enquanto Larissa dizia a última frase com um sorriso sacana no rosto, eu fazia um sinal de negativo com as mãos, esperando que ele ficasse ali por 15 dias, trancado em casa. Quem sabe uma simpatia resolvesse.
Há três meses, enquanto eu estava em Belo Horizonte, Larissa conversava com Hiago via internet. Sabendo de algumas histórias que Larissa havia me contado sobre ele, resolvi pegar em seu pé e incomodá-lo de tal forma que ele se irritasse comigo. E o plano deu certo. Tanto que, na época de festa junina em Salinas, quando conversamos mais uma vez, ele confirmou o quanto eu era insuportável. Tanto que, ao me ver, ele desejava meu retorno. Algo recíproco.
Entramos na república, lar de Larissa, Vívian, Tchely, Brunna e Paula, três caninos, incluindo o novo labrador, e uma galera que sempre estava por lá. Hoje, reuniam-se para fazer mais um daqueles trabalhos tediosos e estudar para a prova do dia seguinte.
Como me sentia nervoso com apresentações, ainda mais com tanta gente, respirei fundo, larguei minhas malas no chão, caminhei à pessoa mais próxima de mim e esperei as apresentações de Larissa.
E fui eu lá cumprimentar as tantas pessoas que estavam ali presente. Era incrível como todos ali sabiam quem eu era e como eu sabia quem eram todos por ali, graças à própria garota que me recebera na rodoviária.
E lá fui, para a cozinha, após deixar minhas malas no quarto para conhecer Vívian.
A minha história com essa mulher começou também não há muito tempo. A primeira vez que Larissa a mencionou, estávamos em Belo Horizonte, andando com sua prima Amanda e seu irmão Daniel, depois de ter tomado um delicioso milk shake. Larissa mencionara que uma de suas amigas fazia depilações.
Num belo dia, enquanto seu marido estava folgadão, deitado no sofá, sem quaisquer vestes e roncando alto, Vívian se aproveitara do momento para desenhar um nobre elefantinho em um lugar impróprio, que não posso mencionar, por haver tantas crianças inocentes que podem estar lendo agora. Ainda não contente, ela pegou seu celular, em cima de suas roupas ainda não passadas, ativou a câmera e… Click!
No dia seguinte, enquanto estavam todos falando sobre a aula prática de castração de porcos, Vívian aparece, alegre e sorridente, pulando num pé só e com seu celular na mão, anunciando para todos:
E lá estavam todos, admirados pelo elefantinho de estimação de Vívian, segundos antes de o aparelho aparecer caído na lama, misteriosamente.
Agora, estava eu, abraçado àquela mulher, que, dias antes, me prometera fazer o mesmo.
Não aguentei aquela frase e a soltei. “Mais alto?”, pensava eu. Por que todo mundo pensa que sou mais alto? Larissa me falara o mesmo quando me viu pela primeira vez. Que absurdo!
Eu sabia que não deveria levar a sério. Mesmo assim, fiquei vermelho, ainda não habituado àquele tipo de conversa. Apenas retribuí com um sorriso. Para quebrar o gelo, ela continuou:
Que loucura! Sério mesmo que eu estava ouvindo aquilo?
Larissa me levou para a varanda para me mostrar o cachorro cego. Lulu, ou tio Lu, homenagem ao professor deficiente de um olho só, era seu nome. O cachorro era preto, magrinho, com quase um ano de idade e fazia muita merda, literalmente.
Vívian me entregara um pote de bolachinhas amanhecidas. Estava feliz comendo, quando a campainha tocou. Era Letícia. Após ter entrado, ela se dirigiu à cozinha, onde me viu e me abraçou. Vívian avisara a ela que eu estava comendo suas bolachas.
Em relação à Letícia, natural daquela cidade mesmo, diferente da maioria da turma, a única vez que tenho conhecimento de algo sobre ela, foi quando Larissa me mostrara uma foto da turma e seu rosto alegre me chamara atenção. Era o rosto de uma garota meiga que parecia ser bastante brincalhona. Mas, não foi essa impressão que tive mais tarde.
E lá foi ela, se dirigir ao resto da turma que continuava a fazer trabalhos. Entre esse pessoal, estava Paula. Ela era a única perdida por ali, antes da minha chegada, pois, em meio a tantos veterinários, Paulinha, para os íntimos e folgados, como eu, estudava Matemática. Paula era da mesma cidade de Brunna, Francisco Sá, situada entre Salinas e Montes Claros. Ela adorava dizer que um dia ficaria louca, como o resto do pessoal. E, pelo visto, já surtia efeito.
Enquanto isso, na cozinha, Larissa e Vívian colocavam num pratinho velho, alguma comida da noite passada. Eles estavam alimentando uma cadelinha que vivia por ali, carinhosamente apelidada de Sol. Tenho pensado se esse nome foi dado devido à cor meio amarelada de seus pelos.
E para lá fomos, com um prato de comida. Lá fora, Hiago, olhava para a cadela. Para não parecer mal-educado, cumprimentei-o, sendo retribuído. Enquanto isso, Larissa alimentava o pobre animal.
Enquanto a cadela aguardava por sua refeição, fui tentando puxar assunto com o garoto:
Algo que não entendi até hoje. Se eles estavam cuidando dela, por que não levavam para a casa de ninguém? Por que o pobre animal ainda dormia na rua? E, novamente, eu não estava falando de Hiago!
Fomos embora. Para minha infelicidade, ele estaria ali dentro de poucos minutos. Entramos, quando Vívian anunciara para todos que o almoço já estava pronto. Com isso, o pessoal que não morava ali desapareceu rapidamente. Os outros olhavam-na com cara de terror. Vívian, com um sorriso malvado, esfregava as mãos. Eu ainda não estava entendendo a situação, quando Vívian olhou bem nos meus olhos e anunciou:
Vívian foi até o quarto de Brunna e depois de Tchely, chamá-las, pois ambas dormiam sossegadamente. Tchely, uma mulher ruiva e já casada, era de Belo Horizonte e adorava um soninho. Não importava se fosse de manhã, a tarde, depois do banho ou quando todos estivessem se divertindo em algum lugar, se pudesse tirar uma soneca, estaria perfeito para ela.
Minutos depois, estavam todos comendo, na cozinha, ladeado por Alice, um poodle, e Champignon, sabe-se lá qual sua raça.
Era a vez de tio Lú. Ele recebeu uma pasta amarela, com algo preto encrustado, como se fossem percevejos. Após seu almoço, Vívian começou a preparar o banho do canino. Nesse momento, a campainha soava. Era Hiago.
E lá foram os dois banhar o animal. Aproveitei para tirar algumas fotos, inclusive uma em que Vívian subia as calças de Hiago, que não paravam de cair em momento algum, mostrando a todos uma cena bastante desagradável. Quando fui reclamar, ele ainda me soltou algo do tipo:
À tarde, o pessoal retornara. Alguns entravam com medo, perguntando se todos já haviam almoçado.
Enquanto as oito pessoas se acomodavam em uma pequena mesa branca de plástico para apenas quatro, Vivian, inconformada, vai até mim, após ouvir o toque de celular de Larissa:
E a música Best Wishes, abertura japonesa de Pokémon da 14ª temporada, começou a soar de meu celular. Comecei a dançar ali mesmo.
E lá foi o pessoal estudar. Como eu ainda não estava enturmado, deitei-me na cama de Larissa e fui ler um pouco. O livro que estava lendo era o último da saga Harry Potter, pois o filme já estava com dias contados para a estreia e eu não queria ir vê-lo antes de terminar a leitura.
Quando o sol já estava próximo de se deitar, pedi a Larissa e Vívian que me mostrassem a cidade. E lá fomos nós conhecer alguma coisa. Vívian nos prometera uma casquinha de sorvete no final do trajeto, o que deixou as duas crianças que a acompanhavam felizes. Sim, eram Larissa e esse que vos escreve.
Andamos um pouco e já estávamos bem no centro da cidade. Em frente a uma escola, onde a rua era dividia por um canteiro, lá estava uma mina de ouro para Vívian: Escondida entre algumas pedras, um daqueles remédios novos em folha para o ouvido. Animada, ela grita:
Sim! Essa é Vívian. Muitos de vocês devem estar assustados, como eu, mas não se preocupem. No fundo, no fundo, no fundo, bem lá no fundo, talvez, deva existir uma pessoa sã. Ou não.
Para confirmar o que eu acabei de dizer, quando estávamos em frente à Policlínica Salinense, Vívian fez questão de parar e dizer:
E ficou lá sonhando acordada. Fiquei tentando imaginar se aquilo era realmente uma policlínica, ou um sanatório camuflado, depois de tais palavras. Tive vontade de entrar e conhecer. Como meu cérebro já estava a ponto de “fritar”, parei de pensar.
Continuamos a andar. Se estivéssemos no mar, continuaríamos a nadar. Um fato curioso da cidade é a quantidade de funerárias. Vívian chegou a chamar minha atenção devido a esse fato:
Vívian parou por um momento, foi até mim, diminuindo o tom de voz e me disse, com uma cara muito séria e de olhos bem arregalados:
Depois, fomos à praça da igreja. Lá foi o local das tendas de festas juninas, realizadas há um mês. Lamentei-me por não ter ido.
Depois, fomos até a Praça do Banco do Brasil. Em volta, uma das agências do Sicoob Credinor. Fiquei feliz, pois era a cooperativa que eu trabalhava e exclamei algo a respeito. Larissa já foi logo soltando:
Quando estávamos dando uma volta pela praça, Vívian pediu que parássemos em frente a uma árvore:
E lá foi ela. Perna esquerda no chão, perna direita no galho da esquerda, braço direito no topo da árvore, braço esquerdo na placa do lado, cabeça entre dois galhos estreitos, barriga virada para o chão…
E lá fomos nós, voltando para casa, enquanto Vívian continuava sua dança, até que:
Mais tarde, quando já estávamos em casa e depois de Vívian ter brigado por não termos esperado, a campainha tocava. Letícia, Erick e João eram alguns nomes que me recordo agora. Erick morava em Ouro Preto. João era de Salinas mesmo. Já conhecia muito bem o instituto, lugar onde estudara desde que era pequeno. Hoje, com 19 anos, João continuava pequeno. E ficou assim pelo resto de sua vida. Mas, a história não acabava por aqui.
O trabalho a ser desenvolvido naquela noite exigia que se fizesse a representação das glândulas mamárias bovinas de uma vaca. Quero deixar bem claro que vou deixar a frase escrita dessa maneira para que pessoas leigas como eu possa entender, então, por favor, não me corrijam. A representação poderia ser feito em cartolina, papel A4, massa de pão ou hieróglifos. Um grupo escolheu o papel e o outro a massa de pão. E o pão nos lembrou de que estávamos com fome. Eis então que um deles grita:
Em Salinas, não havia muitos lugares de reuniões juvenis. Farley era um dos que o pessoal conhecia. Lá, eram servidos sanduíches de vários recheios e sucos de apenas três sabores. Como eu estava louco para conhecer, fui. Éramos cinco: Paula, Erick, Vívian, Larissa e eu. Chegamos, sentamo-nos à única mesa que havia do lado de fora e esperamos pelo garçom. Ao chegar, Vívian foi logo dizendo:
Neste momento, o garçom aparecera para nós. Um garoto de quase dez anos de idade, que já chegou perguntando:
No mesmo momento em que ele fizera essa pergunta, Vívian continuou sua fala:
Vívian começava a rir, acompanhada de Larissa, Erick e Paula. Eu nem prestava atenção no que eles estavam fazendo.
O resto da turma pedira maracujá nativo. Não pedi exatamente por não conhecer o suco, já que aquilo não era natural na minha terra. Quando chegou, fiz questão de roubar o copo de Paulinha para provar um pouco.
Pedimos então os sanduíches. Examinei um a um para não desperdiçar o dinheiro. Ali, cada sanduíche custava, em média, R$ 5,00. O suco era apenas R$ 1,00. Algo raro em minha terra, já que os sucos naturais ultrapassavam a casa dos três reais. No cardápio, os sanduíches possuíam nomes estranhos. Não eram como os daqui que tinham nomes de carro.
Para não fazer feio, resolvi pedir um frambúrguer, que era um sanduíche como outro qualquer, alterando apenas a carne bovina por carne de frango, caso alguém não tenha compreendido o nome. O garçom em miniatura anotou os pedidos e se foi. Enquanto esperávamos, tiramos algumas fotos. Depois, Vívian apanhou um de seus cigarros e foi fumar ao meu lado:
Por fim, começamos a cantar uma música que Larissa já estava cantando há alguns dias: Não aprendi dizer adeus, de Leandro & Leonardo. Quem a ouvia, não estava bem. Quem estava bem, ficava depressivo. Quem estava depressivo, ficava na fossa. E quem estava na fossa, estava a ponto de cometer suicídio. Larissa já estava no penúltimo estágio. Por isso, cantamos todos juntos para ver se ela resolvia se enterrar de uma vez por todas. Quando já estávamos no auge da música, uma garçonete, provavelmente mãe ou tia do menino, aparecera anunciando:
Um a um, os que me acompanhavam na mesa batiam suas mãos, abertas, na testa. A garçonete começou a bater sua cabeça contra a parede rebocada.
E lá foi ela, dando-se por satisfeita ao sair de lá, depois de tanta discussão. Para acalmar os nervos, voltamos a cantar.
♪ Não aprendi dizer adeus, mas tenho que aceitar, que amores vêm e vão, são aves de verão. Se tens que me deixar.. ♪
Depois de tanta espera, os lanches chegavam. Do outro lado da rua, um homem, de cabelos cumpridos e barba por fazer, passava. Larissa, Vívian e Erick gritavam, em coro:
Felipe, professor de ecologia da turma da veterinária, passeava com seu cachorro. Ele foi até onde estávamos e nos cumprimentou:
Todos se entreolharam. O professor, sem graça, resolve se despedir, mesmo não dando tempo de ninguém ter falado nada.
E lá se foi o homem. Na hora de pagar a conta, foi um conta-moedas para todos os lados, dinheiro jogado ali, dinheiro jogado aqui. O menino, que representava muito bem um garçom, ficava desorientado.
Saímos do local, chutando, empurrando e derrubando cadeiras e mesas. E fomos embora felizes da vida. Larissa aproveitou o momento para informar-me de algo que ainda não tínhamos acertado:
Meus olhos brilhavam. Ir para o show daquela mulher para olhar suas belas pernas era tudo o que eu queria. Neste momento, um palco brotou do chão, no meio da rua, fazendo um monte de carros se congestionarem (eram três, no total). Paulinha, a aluna da matemática, pega um microfone, sobe no palco e começa a cantar.
♪ Vai se entregar pra mim… ♪
– Uhul! Paulinha! Nós te amamos! – berrávamos todos, enquanto levantávamos uma bandeira com os mesmos dizeres.
Enquanto caminhávamos, Larissa e eu cantávamos outras canções antigas de sertanejo, o que deixava Vívian mais furiosa ainda. O problema era que a maioria das músicas eu conhecia. Sucessos como “tira essa roupa molhada”, eram cantadas em alto volume para que todos ali, naquela cidade, pudessem escutar. Algo triste de se ver em uma juventude que caminhava para a perdição.
Quando chegamos à república, o pessoal ainda trabalhava arduamente. Letícia e João já bocejavam, reclamando por termos demorado tanto. Como já estava tarde, todos se despediram. Decidiram terminar no dia seguinte. Arrumamos as camas e fomos dormir. Larissa e eu dividíamos o quarto, com as duas cadelas, enquanto Tchely, Brunna e Paula dividiam a mesma cama de solteiro. E a noite prosseguia com uma sinfonia de roncos, uivos e latidos.
Enquanto isso, naquela madrugada, Sol partia em busca de sua felicidade.
Capítulo 1: E esse ônibus que não chega nunca
O relógio já marcava 21h quando cruzava os limites de Uberlândia. Ao meu lado, uma mulher, de sotaque baiano, já anunciava enquanto tiravas suas enormes botas pretas do pé:
Eu precisava disfarçar meu desconforto ao perceber que aquele cheiro subia rapidamente ao meu nariz e virei o rosto. “Que alívio!”, pensei por estar do lado do corredor, até ver que outra mulher, uma senhora de, mais ou menos 60 anos, também tirava seus sapatos. Neste momento, ouvi um celular tocando ao meu lado. Era o da mulher de sotaque baiano.
Nisso, a mulher me olhou com cara de desprezo e apontou para o celular Motorola, modelo PT-550.
Tudo bem em me chamar de feio ou dizer que minha namorada poderia ser uma baranga, mas dizer que eu estava ao celular quando neste momento ele estava dormindo em meu bolso? É muita covardia pra uma pessoa só! Aquilo precisava de medidas drásticas! Então, fechei meus olhos e vi uma linda cena em que eu puxava os cabelos da moça e fazia sua testa “beijar” a janela de sua poltrona. Reabri os olhos e lá estava eu com um sorriso sacana no rosto.
Neste momento, todos os passageiros se viraram para nós, ao ouvirem a mulher gritando com seu marido:
Todos ali presentes, inclusive o cobrador (o motorista não escutara) estavam assustados. Quem era aquela mulher? O que ela estava fazendo ali? Quais eram seus planos malignos? E por que o lagarto se transforma em borboleta, depois de virar um casulo? Essas eram questões que eu precisava responder. Então, levantei-me e procurei minha lupa de detetive. Aí, lembrei-me de que não me dispunha de uma e voltei a me sentar.
A mulher desligava o celular e o guardava em sua bolsa. Ela também demonstrava um belo sorriso. Pelo visto, e como todos também perceberam, ela era muito apaixonada pelo homem que deixara em sua cidade. Resolvi arriscar um assunto, enquanto ela, cuidadosamente, colocava seus pés descalços nas costas da poltrona em frente:
Então, sentei-me, muito sem graça, a espera de alguém vir ao meu encontro para me consolar. Como ninguém veio, continuei a conversa com aquela simpática mulher:
Eu estava me sentindo muito ridículo quanto àquela situação. Não conseguia puxar um assunto sequer. Pelo visto, como todas as minhas outras viagens, não iria conseguir fazer uma nova amizade. Mentira! Pois, da última vez, consegui fazer amizade com o cobrador.
Aconcheguei-me na poltrona. Puxei a alavanca que estava do meu lado direito para deitá-la, mas, para minha infelicidade, a poltrona estava quebrada. Descobri isso segundos depois, quando já estava em uma posição de 180º e eu estava com olhos mirando bem dentro do vestido da garota que se sentava atrás de mim.
Alguns minutos depois de eu ter arrumado a poltrona e ter ganhado um belo roxo de cinco dedos em meu rosto, lá estava eu tentando pegar num sono novamente. Como não consegui, resolvi novamente puxar assunto com a mulher ao meu lado que, neste momento, olhava com solidão para a paisagem noturna pintada pelas mãos divinas:
Assustada, ela virou seu rosto para mim, deu um sorriso e começou a responder:
Ela me contou que passeou pelo Parque do Sabiá, um zoológico que havia na cidade. Também passeou no shopping, viu alguns filmes, comeu no Habib’s e ainda dançou ao som de Lady Gaga em alguma boate GLS por aí.
Com isso, acabei me lembrando do que fiz com meu amigo André nesse domingo. Aproveitamos para andar pelas lojas de brinquedos, lojas de cds e dvds, olhamos os livros mais interessantes (a livraria, inclusive, possuía o nome de tantos escritores, que fiquei imaginando se algum dia poderia ver o meu ali), ainda vimos alguns jogos e fomos brincar com um tal de iPad.
Mais tarde, ainda fomos ao cinema para ver em 3D o filme Transformers. Reclamei com ele ainda, já que eu detestava o filme, mas não nego que tive arrancadas boas gargalhadas de mim.
Ao final do dia, ainda fomos à igreja e jantamos em uma pizzaria. O garoto estava encantado, pois era a primeira vez que ele ia a um rodízio de pizza, além de comer uma deliciosa fatia de pizza de chocolate (lá, conhecida como ‘sensação’). Depois, pegamos um táxi e ali, na rodoviária, nos despedimos. Ele voltando para casa e eu rumando para a longínqua cidade da cachaça.
Adormeci. Neste momento, o ônibus já estava saindo de Pirapora. A mulher ao meu lado já desembarcara. Será que seu marido a buscara? Caso contrário, ele apanharia.
Amanhecera. Já eram 6h quando entrávamos em outra cidade. Percebi que havia adormecido devido à baba fresca no canto da boca. Limpei-a. Olhei para o lado do corredor e perguntei a uma mulher do meu lado onde estávamos. Entramos em Montes Claros.
“Montes Claros?”, pensei. Como chegamos tão rápido se pelos meus cálculos chegaríamos depois das sete? Ainda havia mandado algumas mensagens à Larissa sobre tal fato para que ela pudesse arrumar um táxi para mim e isso só seria possível se eu chegasse na hora que eu realmente estava chegando. Mas, agora era tarde. Eu já não podia mais pedir que a garota nascida em Belo Horizonte, que já morou em Montes Claros e agora estudava em Salinas, remarcasse para mim.
Olhei para o relógio. 6 horas e 7 minutos. Comecei a me desesperar. Em uma das mensagens dela estava escrito que o ônibus com destino a Salinas desembarcaria em oito minutos. O próximo seria apenas às dez. E nem sinal da rodoviária. Ficar sozinho numa cidade daquelas por tanto tempo me dava um frio na espinha. O que eu faria até lá? E que mal seria chegar depois das 13! Mas, um pouco de esperança ainda havia em mim.
6h10. O ônibus finalmente estacionara em seu destino. Tentei sair o mais depressa possível para conseguir pegar minhas malas e embarcar. Salinas começava a ficar mais perto do que eu imaginava. O coração batia forte, mais acelerado. A emoção tomava conta de mim.
Fui o primeiro a chegar ao bagageiro, depois do cobrador, claro! Ele já abria uma das portas e começava a tirar as malas.
“Não há nada que eu possa fazer?” Como não? Era só abrir a droga do outro bagageiro e entregar o que eu precisava! Isso é o que eu chamo de má vontade! Deveria era ter fechado a porta de onde ele estava e deixá-lo trancado até que alguém sentisse falta. Assim, ele aprenderia! E apodreceria!
Sim, eu estava revoltado. Mas, não tinha muito tempo para me preocupar com isso. Saí correndo até o outro ônibus e lá estava o motorista, recebendo as passagens de outras pessoas.
Respirei fundo. Não era algo tão grave, se olhasse por outro ângulo. Fiquei do lado do homem de uniforme e supliquei:
E, neste momento, eu via Salinas afundar. A vontade que eu tinha, depois de trancar um e enforcar o outro, era de desistir de tudo aquilo e voltar para a minha terrinha, mas eu já estava longe e não podia desistir. Ainda havia esperança, pois havia uma luz e era aquela luz que… como era mesmo o resto da música?
Aproveitei a adrenalina que pulsava forte em meu sangue e voltei para o primeiro ônibus. Finalmente o outro bagageiro estava aberto. Passei na frente de todos e já fui falando alto para o motorista:
Era inacreditável. Sentia o chão abrir sob meus pés. Aquele dia, recém-nascido, acabara de morrer para mim. Salinas virava pó neste momento. Era triste pensar que naquele início de férias nada mais daria certo. Eu já nem sabia o que fazer. Todos os meus sentimentos brigavam entre si para ver quem comandaria minhas próximas reações.
Tudo sumira. As pessoas, as rodoviárias, os montes. Eu teria que ficar mais quatro horas naquela cidade, esperando e esperando. E sabe-se lá o que…
Finalmente, as malas estavam acabando. Depois de tanto sofrimento, recebi-as. Fui correndo para o outro ônibus e, num salto, capotei. O ônibus já saíra da plataforma e já estava virando para sair da rodoviária.
Eu poderia ter me ajoelhado naquele instante e começado a chorar, mas nem todas as minhas esperanças se esgotaram. Parti para o último recurso que me restara: Dirigir-me à Rua Pimentel por meio de um táxi. E, se isso tudo isso falhasse, aí sim, ajoelhar-me e chorar como uma criança que perde seus doces no meio da rua.
Corri para a ala dos táxis e já parei o primeiro que vi:
Apressadamente, joguei as malas no banco de trás, fui para o banco da frente, sentei-me, fechei a porta e esperei o taxista acelerar. E ele acelerou. Apontei para o ônibus que estava na nossa frente e disse:
Rá! Eu sempre quis dizer isso. Mas, para minha infelicidade, ele disse:
E lá fomos nós rumar para outra estrada. Aquela velocidade, somada à emoção de chegar antes do horário, sem saber quanto tempo levaríamos, dava uma sensação de estarmos em um daqueles filmes de ‘Velozes e Furiosos’. Até pegaria minha máquina fotográfica para registrar esse momento único, mas estava tão preso àquela emoção que deixei para lá.
E o táxi não corria, mas voava. Cada lombada era uma sensação de frio no estômago e adrenalina pura. E quanto mais ele corria, menos eu tinha a sensação de que chegaria a tempo. Sim, estava numa sensação completamente reversa. Eu já nem sabia de mais nada, só sabia que queria chegar vivo ao meu destino.
O ponto já estava à vista. De longe, eu via aquele ônibus azul se aproximando. Não haveria tempo de embarcar. Era tenso poder imaginar que não acabaria bem. Mas, neste instante, o taxista saltou de sua poltrona e logo ficou de frente para o ônibus. Destino: Januária.
E aí ele perguntou aos outros futuros passageiros sobre o ônibus que eu aguardava.
Respirei mais aliviado. Era muito bom saber que nem tudo estava perdido. Agora era só esperar pelo ônibus. Estava quase pulando nos braços do taxista de tanta felicidade, quando ele anunciou em alto e bom som:
Ele anunciara o preço da corrida. Do voo, melhor dizendo. Olhei para o taxímetro e, novamente, olhei para ele, com cara de desconfiado. Estava marcando R$ 11,40.
Percebendo que não deveria ter dito isso, ele tentou consertar:
Resolvi relevar. Motivos? Eu já estava impaciente com toda aquela história. Queria apenas repousar meu ‘assento’ e viajar em paz. Fora que ele também conseguiu me deixar ao destino antes que o ônibus pudesse aparecer. Por último, mas não menos importante, eu sou rico! Muito rico! Logo, aquele dinheiro não me faria falta alguma.
Tirei as malas do banco e me juntei ao povo. O taxista partira. Agora, era hora de esperar. E esperamos. Após dez minutos, lá estava o ônibus que tanta raiva me fizera passar. O ônibus parou. O cobrador desceu. As malas foram postas no bagageiro. Quando fui subir, o motorista me abordou:
Ele me disse isso com um singelo sorriso sacana. Como não queria briga nem nada, apenas disse:
“Não graças a você, que fez questão de me fazer sofrer e gastar dinheiro” – pensei.
Mesmo tão revoltado, embarquei, procurei uma poltrona livre, deixei minha mochila no chão e me aconcheguei. Abri um dos zíperes da mochila e peguei meu videogame portátil, um DS. Ao meu lado, uma jovem mulher, muito bonitinha, de cabelo Chanel que tentava dormir.
Comecei a jogar para passar o tempo. Pelos meus cálculos, chegaria ao meu tão demorado destino às dez da manhã, agora mais tranquilo por não haver mais paradas.
De tantos jogos, escolhi Pokémon. Meu Piplup já estava quase evoluindo, quando sinto um leve movimento proveniente de meu bolso. Puxei meu celular, olhei o visor e fiquei feliz com o nome que li.
Era Larissa, que agora me ligava pra saber exatamente onde eu estava e combinarmos minha chegada.
Ao som de “Camino al Sol”, RBD, redijo este texto.
Há bons dois anos, conheci um amigo que me ensinou várias coisas a respeito do que é se sentir só, como deveria agir, o que poderia fazer. Pois bem, contemos um pouco da minha história:
Passar quase a vida inteira sozinho ou com poucos amigos não é uma tarefa fácil. Se você passou toda sua vida só fica difícil imaginar como seria a vida diferente. Podemos criar expectativas ou más impressões, depende de cada pessoas. Mesmo assim, você sente falta de alguma coisa, de estar com alguém, de ter alguém para quem contar seus problemas. Quando você é uma pessoa já mais popular e perde aquela quantidade imensa de amigos, é pior, pois você se arrepende de certas coisas que você fez ou do que poderia ter feito.
Pois bem, esse amigo me fez perceber que eu não deveria ficar lamentando com essa minha vida solitária, mas que deveria sempre olhar pelo lado positivo das coisas, entender que tenho amigos que quero bem, que eu não preciso me mudar para agradar ninguém e que os bons e velhos amigos sempre estarão ao nosso lado.
Apesar de não sermos mais amigos, carrego muitas coisas positivas para o resto da vida. Aprendi a dar valor aos amigos que tenho e não sair “caçando” novos para aumentar números. Aprendi que nunca se está só quando se tem pessoas que se importam e que, mesmo que um amigo esteja muito distante, tanto física quanto mentalmente, não quer dizer que se esqueceram de nós.
Não que seja drama ou uma tentativa de chamar a atenção, mas todos têm o direito de se sentirem sós, tristes, confusos, mal humorados ou qualquer outro sentimento ruim. O que não se pode fazer é brigar com outros por esses motivos ou deixar que isso domine sua vida. Siga em frente enquanto é possível, erga a cabeça e vá viver digna e saudavelmente.
A respeito da letra da canção: Você pode ter muitos problemas, pode ser que amanheça e você não queira sair da cama, pode haver muitas feridas que não se cicatrizem, pode ser que ninguém esteja te escutando, você pode estar se sentindo confuso, mas não deixe de viver intensamente, não deixe se abater porque você não teve um bom dia. Viva, sonhe, cante, sorria, dance sem medo, mas não se deixe vencer! Que venham os problemas, mas que eles sejam superados, pois, não importa o quanto seu dia esta nublado: o sol renascerá!
A quem também estiver se sentindo só por hoje ser dia dos namorados, esse texto também vale. Não se lamente por hoje você estar só, pois nunca sabemos o dia de amanhã.
Funciona assim: Você rotula e critica alguém. Faz brincadeiras preconceituosas, exatamente pelo que elas são e diz que é só brincadeira. Não importa o que a pessoa seja, o que importa é rebaixá-la alegando ser apenas brincadeira, principalmente se for algo já “manjado” pela sociedade. Em nome do humor, esse tipo de atitude é completamente aceito, mesmo que o alvo não tenha te feito nada de mais.
E aí quando alguém te diz verdades, ou faz brincadeiras de mal-gosto, te critica ou não aceita seu jeito de viver, você simplesmente briga com essa pessoa. Você não aceita qualquer verdade, pois as pessoas não sabem o que você está pensando. “O que você faz ou como você vive ou a forma como você age é normal. Por que estão dizendo isso?”
Aprenda! É exatamente isso o que as outras pessoas sentem. Raiva! Por que com você tem que ser diferente se é exatamente isso que faz com outras pessoas, mesmo que indiretamente, mesmo que seja para divertir os idiotas como você? Já parou pra pensar que as maiores ofensas vem na forma de brincadeira? E aquela frase que diz: “Certas brincadeiras trazem um fundo de verdade”?
Nessa vida o que nos vem, volta. Respeite e tenha consciência dos seus atos. Você pode estar perdendo um amigo por coisa à toa ou deixar de conhecer alguém que seja melhor que você os outros seres que te rodeiam. Você se acha “foda” porque consegue fazer rirem aqueles seus amigos “populares” que riem de qualquer besteira pejorativa? Pois é, uma hora isso não vai ter mais graça. Eles também rirão de você.
Aqueles que sempre te quiseram bem, aos poucos, vão se afastando, consequentes dessa atitude e quando você olha ao seu redor, só encontra pessoas como você, que criticam e julgam os outros, que você acha normal, atitudes que um dia pra você pode ter sido uma ofensa. Resultado: você aprende a ser quem nunca foi.
Você aprende a fingir, perde sua identidade, torna-se estranho aos velhos amigos e, sem perceber, toma um rumo bem divergente do que imaginava. “Mas, qual o problema quanto a isso? Se há pessoas que não suportam seu jeito, é problema delas, não é? Afinal, é muita besteira agirem assim, é muito drama. Essas pessoas choram à toa, tem mais é que curtir a vida. Essas pessoas precisam dar mais importância à vida delas e ignorar idiotas como nós, certo?”
É por isso que não me admira que no mundo tenha tanta violência, consumo de drogas e bebidas, depressão, bullying e outras desgraças, que têm ocorrido a cada dia com mais frequência. Culpem a sociedade, que preferem criar mais e mais esses que optaram pelo pior caminho. “Afinal, a culpa é toda deles, o que nós fizemos? Eu não tenho culpa disso.”
E quando isso acontece, lá vão os outros julgar novamente que essas pessoas simplesmente fazem o errado, quando não sabem a causa de tudo. Mas, não se lembram daquele pobre garoto que foi subjulgado e discrimado quando tinha apenas 12 anos. “Pois, era divertido brincar assim, era divertido machucar quem era mais fraco que nós, era divertido mexer com quem nos era diferente da sociedade, era divertido alimentar seu ódio.”
É um ciclo que não para.
Repense seus atos, antes que você machuque alguém profundamente.
Je veux être seule
Reste là, toi ta gueule
Je ne peux pas me calmer
Laisse-moi t’embêter
J’ai trop des tristes pensées
Pour ça je veux crier
Je ne suis pas contente
Furieuse comme un enfant
C’est la manie
C’est la manie
Je ne suis pas genée
J’ai un esprit troublé
Donne-moi un peu de temps
Ça passera par le vent
Je veux être seule
Reste-la, toi ta geule
Je ne peux pas me calmer
Laisse-moi t’embêter
C’est la manie
C’est la manie
Je veux être seul
Reste là, toi ta gueule
Je ne peux pas me calmer
Laisse-moi tempêter
C’est la manie
Tradução:
Eu quero ficar sozinha
Não te aproxima, cala a boca
Eu não posso me acalmar
Me deixa extravasar
Eu tenho muitos pensamentos tristes
Por isso quero gritar
Eu não estou contente
Furiosa como uma criança
É a mania
É a mania
Eu não sou tímida
Eu tenho um espírito problemático
Me dá um tempo
Isso passará pelo vento
Eu quero ficar sozinha
Não te aproxima, cala a boca
Eu não posso me acalmar
Me deixa extravasar
É a mania
É a mania
Eu quero ficar sozinha
Não te aproxima, cala a boca
Eu não posso me acalmar
Me deixa extravasar
É a mania
No final de janeiro, eu e meu irmão, ambos fissurados por jogos e proprietários de dois consoles fabricados pela nintendo (o Nintendo Wii, console de mesa e o Nintendo DS Lite, portátil), resolvemos comprar pelo mercado livre (empresa virtual que trabalha com vendas de produtos entre usuários comuns) dois controles classics para relembrar a infância com jogos antigos de Super Nintendo e Nintendo 64, já que jogos de Game Cube e Play Station não foram possíveis de jogar.
Para quem não conhece, eis aí os produtos que pedimos:

Os controles vêm com grip (espirram a cada dois segundos =), que são esses suportes que vocês podem ver abaixo deles, facilitando seu manuseio (alguns preferem sem, eu mesmo pensava assim, mas agora vejo que essas coisinhas bonitas ajudam, ao invés de atrapalhar).
Depois de curtos dois meses de espera, esperando os controles chegarem da China, xingar o vendedor, reclamar com o mercado livre, brigar com todo mundo que me via com cara feia na rua e ter exigido que o ML excluísse o perfil do camarada, finalmente as belezinhas chegaram para alegrar a vida da criançada.
E agora, podemos relembrar o velho Super Mario Bros. 3, que nos acompanha em vida desde 1996, época em que foram lançados os consoles Nintendo 64 (Nintendo) e Play Station (Sony), e detonar a trilogia Donkey Kong Country que, caso não tenham reparado, é composto por três jogos =).



E para que não fuja da sequência, eu (representado pelo Donkey Kong, o gorilão) e ele (representado pelo Diddy Kong, o gorilinha) resolvemos começar com o 1 e terminarmos no 3 (até porque se não for assim, não zeraremos na sequência =).
Agora estou eu aqui na sala jogando-o no modo 2 players, tendo que revesar os controles, exatamente porque meu irmão está no quarto invocado no computador. Com certeza algo muito divertido que todos deverão experimentar =).
É mais fácil pisar em alguém…
Para quê se importar com os outros?
Posso ter quem eu quiser aos meus pés
Posso dizer o quanto eles devem gostar de mim
Posso brincar com os sentimentos de cada um.
É tão mau e tão bom sentir esse gostinho de poder
Tomar o poder das pessoas em nossas mãos
Fingir que se gosta delas
Dar a elas, apenas às vezes, o que elas querem
Para que elas possam nos dar tudo o que queremos.
E não é preciso ser bonzinho
Quem é bonzinho não consegue o que quer
É sempre passado pra trás
É sempre o idiota da história.
Então, pra quê ser o bonzinho
Se é mais fácil pisar nos outros?
Era apenas uma leve brisa que tocava minha pele
Algo que poderia me fazer desligar de um mundo tão movimentado
Viajar para um lugar mais calmo, onde flutuar fosse lei
Onde eu pudesse viver mais tranquilo, em paz.
Como é o pensamento de quando se troca o surreal pelo real
E o real pelo surreal?
Quando tudo que você viveu poderia ter sido apenas fantasia
E sua fantasia pudesse brotar, não apenas em você.
Sentar-se sobre campos altos, sentir aquele vento gelado
Fechar os olhos e não poder pensar em mais nada
Não se descaracterizar para viver em grupo
Apenas sentir-se flutuar.
Flutuar e viajar por um mundo distante
Abrir as asas e não querer voltar
Encontrar-se livre da vida
E viver a liberdade a seu favor.
Fica difícil tentar assim,
Às vezes tento fazer diferente, mostrar como me sinto,
Mas você apenas ignora.
Parece que não correspondo a nada do que você queira
Parece que só os maus corações são capazes de conquistar o seu
E eu sempre tentando te mostrar que tudo pode ser diferente
Pra, ao fim, não ter nenhum reconhecimento.
Agora eu cansei.
Se você acha que eu não sei viver sem você,
Nem pense que você está certo.
Eu aprendi a viver com minha própria solidão
E aprendi que ninguém pode me tirar dela.
Você sempre me diz que não posso ser assim
Sempre me diz que estou exagerando,
Mas, você já parou para perceber que você também me trata assim
Que você é mais um que contribui para essa situação?
Desisto.
Melhor continuar assim.
Pelo menos eu sou mais feliz.
E você, é só mais um pra contar história.
Um homem chegou em casa tarde do trabalho, cansado e irritado encontrou o seu filho de 5 anos esperando por ele na porta .
– “Pai, posso fazer-lhe uma pergunta?”
– “O que é?” – respondeu o homem.
– “Pai, quanto você ganha em uma hora?”
– “Isso não é da sua conta. Porque você esta perguntando uma coisa dessas?”, o homem disse agressivo.
– “Eu só quero saber . Por favor me diga, quanto você ganha em uma hora?”
– “Se você quer saber, eu ganho R$ 50 por hora.”
– “Ahh…” o menino respondeu, com sua cabeça para baixo.
– “Pai, pode me emprestar R$ 25,00?”
O pai estava furioso,
“- Essa é a única razão pela qual você me perguntou isso? Pensa que é assim que você pode conseguir algum dinheiro para comprar um brinquedo ou algum outro disparate? Vá direto para o seu quarto e vá para a cama. Pense sobre o quanto você está sendo egoísta .Eu não trabalho duramente todos os dias para tais infantilidades.”
O menino foi calado para o seu quarto e fechou a porta.
O homem sentou e começou a ficar ainda mais nervoso sobre as questões do menino.
Como ele ousa fazer essas perguntas só para ganhar algum dinheiro?
Após cerca de uma hora, o homem tinha se acalmado e começou a pensar.
Talvez houvesse algo que ele realmente precisava comprar com esses R$ 25,00 porque ele realmente não pedia dinheiro com muita frequência. O homem foi para a porta do quarto do menino e abriu a porta.
-”Você está dormindo, meu filho?”, Ele perguntou.
– “Não pai, estou acordado”, respondeu o menino.
– “Eu estive pensando, talvez eu tenha sido muito duro com você a pouco…”, afirmou o homem. “Tive um longo dia e acabei descarregando em você. Aqui estão os R$ 25 que você me pediu.”
O menino se levantou sorrindo. “Oh, obrigado pai!” gritou. Então, chegando em seu travesseiro ele puxou alguns trocados amassados.
O homem viu que o menino já tinha algum dinheiro, e começou a se enfurecer novamente.
O menino lentamente contou o seu dinheiro , em seguida olhou para seu pai.
– “Por que você quer mais dinheiro se você já tinha?” – Gruniu o pai.
– “Porque eu não tinha o suficiente, mas agora eu tenho”, respondeu o menino.
– “Papai, eu tenho R$50,00 agora. Posso comprar uma hora do seu tempo… Por favor, chegue mais cedo amanhã em casa. Eu gostaria de jantar com você.”
O pai foi destroçado. Ele colocou seus braços em torno de seu filho, e pediu o seu perdão.
É apenas uma pequena lembrança a todos vocês que trabalham arduamente na vida. Não devemos deixar escorregar através dos nossos dedos o tempo sem ter passado algum desse tempo com aqueles que realmente importam para nós, os que estão perto de nossos corações. Não se esqueça de compartilhar esses R$50,00 no valor do seu tempo com alguém que você ama.
Se morrermos amanhã, a empresa para a qual estamos trabalhando, poderá facilmente substituir-nos em uma questão de horas. Mas a família e amigos que deixamos para trás irão sentir essa perda para o resto de suas vidas.
Sempre aquela velha frase: “Dê valor a quem te dá valor” ou “Dê valor a quem realmente importa”, mas morre por aí mesmo. E é sempre assim: é mais fácil criticar, falar mal, fazer críticas sobre a atitude de certas pessoas do que elogiá-las ou motivá-las com aquilo que realmente é certo. E aí, são inúmeros testes pra saber se vale mesmo a pena ter aquela amizade.
Aquele ditado “só se dá valor ao que se perde” não é apenas mais um que inventaram, mas o que cada um deveria refletir. Pensar que uma pessoa se preocupa bastante com você, que faz tudo, que te ajuda quando as coisas não estão fáceis e acreditar não ser necessário retribuir ou apenas em certas ocasiões, pode ser cômodo para você e desgastante para outra pessoa. Isso corrói o sentimento que vive dentro dela e o mata um pouco a cada dia. E, assim que percebido, aquele sentimento de amor ou amizade torna-se repúdio e os afasta aos poucos. Quando você percebe, perdeu alguém que antes te valorizava. Seu coração treme e a saudade o aperta. E, se você não liga, pode ter certeza de que contribuiu para o mal de alguém.
E por que agir assim? Por que é melhor valorizar quem não te valoriza e desvalorizar quem gosta de você? Não seria meio irônico? E, se aquilo que você diz ser brincadeira, sendo muitas de mal gosto, é mais fácil do que expressar sentimentos, também não é mais fácil que percam a fé em você? E por que é melhor agir assim com quem é mais vulnerável?
Por ser tímido e um pouco anti-social, minha forma de agir é mais ou menos assim: Tento dar uma chance à amizade. Uma, duas, três, dez vezes e até mais se for necessário. Prefiro dizer às pessoas o que realmente sinto, antes que possa ser tarde demais e, por causa disso, sei que muitas vezes não há retorno. E, sim! Isso desgasta um coração. Por isso, quando me afasto de alguém, faço aos poucos, até que aquilo possa morrer completamente em mim. E termina assim.
Adoro beijo na boca
Eu não sei assoviar
Nunca vi estrela cadente
Não cuido de plantas
Digito com um só dedo
E adoro beijo na boca
Continua…
Eu sei! Eu posso não ser perfeito, reclamar de tudo e não concordar com suas palavras, mas tenho que admitir o quão agradecido por ter comigo essa pessoa tão maravilhosa. Pode até parecer clichê ou palavras de filho que queira ganhar alguns pontos com o próprio pai, mas o que tenho notado ao longo dos anos, comparando àqueles que eu tenha conhecido por aí.
Eu posso ter vários grandes amigos e considerar os pais deles como meus, mas substituir esse grande homem, jamais! Meu pai pode não ser perfeito, mais não é isso que eu desejaria. Apenas que ele seja bom e me mostre o caminho certo e me permita fazer minhas próprias escolhas.
Ele pode não me dar dinheiro ou bens materiais sempre que eu peça, mas me dá carinho, amizade e presença paterna.
Ele pode não ser o aquele a sempre dizer coisas certas, mas mostra suas perspectivas e me permite decidir.
Ele não bebe para ficar violento, bêbado ou passar vergonha, mas para se animar e poder se divertir com amigos.
Ele pode até ter uma discussão com minha mãe, por exemplo, mas não chega a levantar a mão para ela.
E com ele sei que posso ter minhas ideias, tenho liberdade para discutir, falar o que penso, ter minha liberdade, sem qualquer punição, enquanto tantos outros pais batem no próprio filho, acreditando que são seus donos e que devem sempre fazer o que é de seu feitio, mesmo que já sejam maiores de idade.
Tudo tem seu limite. Pai deve agir como pai: ensinar, castigar de forma correga quando for necessário, ser presente, dar amor e carinho, não como forma de presentes materiais. Isso pode até agradar o filho, mas pode ter certeza de que isso, e quando for só isso, poderá afastá-los futuramente.
E, por isso, agradeço ao pai que tenho.
Todo nerd necesita una habitación para llamarla de suya