Capítulo 1: E esse ônibus que não chega nunca

O relógio já marcava 21h quando cruzava os limites de Uberlândia. Ao meu lado, uma mulher, de sotaque baiano, já anunciava enquanto tiravas suas enormes botas pretas do pé:

  • Não se preocupe, não tem chulé!

Eu precisava disfarçar meu desconforto ao perceber que aquele cheiro subia rapidamente ao meu nariz e virei o rosto. “Que alívio!”, pensei por estar do lado do corredor, até ver que outra mulher, uma senhora de, mais ou menos 60 anos, também tirava seus sapatos. Neste momento, ouvi um celular tocando ao meu lado. Era o da mulher de sotaque baiano.

  • Oi, meu bem, como você está?

  • Ah, oi amor! Estou muito bem e você? – Respondi, fazendo biquinho.

Nisso, a mulher me olhou com cara de desprezo e apontou para o celular Motorola, modelo PT-550.

  • Ah, não é nada! É só um idiota aqui do meu lado, falando com a namorada ao celular que, por sinal, deve ser uma baranga por namorar um cara feio desses! – Novamente ela me deu uma olhada com sua cara de desprezo.

Tudo bem em me chamar de feio ou dizer que minha namorada poderia ser uma baranga, mas dizer que eu estava ao celular quando neste momento ele estava dormindo em meu bolso? É muita covardia pra uma pessoa só! Aquilo precisava de medidas drásticas! Então, fechei meus olhos e vi uma linda cena em que eu puxava os cabelos da moça e fazia sua testa “beijar” a janela de sua poltrona. Reabri os olhos e lá estava eu com um sorriso sacana no rosto.

  • Devo chegar aí por volta de três horas da manhã. Então…

Neste momento, todos os passageiros se viraram para nós, ao ouvirem a mulher gritando com seu marido:

  • TRATE DE LEVANTAR CEDO E ME BUSCAR NA RODOVIÁRIA, PORQUE, A ÚLTIMA VEZ, VOCÊ ME DEIXOU PLANTADA ESPERANDO POR 1 HORA! 1 HORA! QUE DROGA DE MARIDO É VOCÊ?

Todos ali presentes, inclusive o cobrador (o motorista não escutara) estavam assustados. Quem era aquela mulher? O que ela estava fazendo ali? Quais eram seus planos malignos? E por que o lagarto se transforma em borboleta, depois de virar um casulo? Essas eram questões que eu precisava responder. Então, levantei-me e procurei minha lupa de detetive. Aí, lembrei-me de que não me dispunha de uma e voltei a me sentar.

  • Tá bem, amor. Estou ansiosa para revê-lo. Eu também te amo. Beijos!

A mulher desligava o celular e o guardava em sua bolsa. Ela também demonstrava um belo sorriso. Pelo visto, e como todos também perceberam, ela era muito apaixonada pelo homem que deixara em sua cidade. Resolvi arriscar um assunto, enquanto ela, cuidadosamente, colocava seus pés descalços nas costas da poltrona em frente:

  • Então, você é da caravana de onde?

  • Eu sou de Pirapora!

  • Cadê a torcida de Pirapora? – levantei-me e falei alto para a turma inteira do ônibus ouvir.

  • Cala a boca, eu quero dormir! – gritava um irritadinho, ao fundo.

Então, sentei-me, muito sem graça, a espera de alguém vir ao meu encontro para me consolar. Como ninguém veio, continuei a conversa com aquela simpática mulher:

  • E, então…

  • Então… – disse ela sorrindo.

  • Está quente, não? – Perguntei meio sem assunto, sabendo que a temperatura interna era de 16ºC.

  • Muito! – disse ela, fechando sua blusa de frio.

  • Pois, é!

Eu estava me sentindo muito ridículo quanto àquela situação. Não conseguia puxar um assunto sequer. Pelo visto, como todas as minhas outras viagens, não iria conseguir fazer uma nova amizade. Mentira! Pois, da última vez, consegui fazer amizade com o cobrador.

Aconcheguei-me na poltrona. Puxei a alavanca que estava do meu lado direito para deitá-la, mas, para minha infelicidade, a poltrona estava quebrada. Descobri isso segundos depois, quando já estava em uma posição de 180º e eu estava com olhos mirando bem dentro do vestido da garota que se sentava atrás de mim.

Alguns minutos depois de eu ter arrumado a poltrona e ter ganhado um belo roxo de cinco dedos em meu rosto, lá estava eu tentando pegar num sono novamente. Como não consegui, resolvi novamente puxar assunto com a mulher ao meu lado que, neste momento, olhava com solidão para a paisagem noturna pintada pelas mãos divinas:

  • E, então, você tem parentes aqui em Uberlândia?

Assustada, ela virou seu rosto para mim, deu um sorriso e começou a responder:

  • Sim, sim! Mainha mora aqui. Passei um fim de semana inteiro com ela. Muito bom! Não tinha conhecido uma cidade tão bonita quanto essa. Espero que volte logo.

Ela me contou que passeou pelo Parque do Sabiá, um zoológico que havia na cidade. Também passeou no shopping, viu alguns filmes, comeu no Habib’s e ainda dançou ao som de Lady Gaga em alguma boate GLS por aí.

  • Essa última é mentira! – disse a mulher para o narrador da história.

Com isso, acabei me lembrando do que fiz com meu amigo André nesse domingo. Aproveitamos para andar pelas lojas de brinquedos, lojas de cds e dvds, olhamos os livros mais interessantes (a livraria, inclusive, possuía o nome de tantos escritores, que fiquei imaginando se algum dia poderia ver o meu ali), ainda vimos alguns jogos e fomos brincar com um tal de iPad.

Mais tarde, ainda fomos ao cinema para ver em 3D o filme Transformers. Reclamei com ele ainda, já que eu detestava o filme, mas não nego que tive arrancadas boas gargalhadas de mim.

Ao final do dia, ainda fomos à igreja e jantamos em uma pizzaria. O garoto estava encantado, pois era a primeira vez que ele ia a um rodízio de pizza, além de comer uma deliciosa fatia de pizza de chocolate (lá, conhecida como ‘sensação’). Depois, pegamos um táxi e ali, na rodoviária, nos despedimos. Ele voltando para casa e eu rumando para a longínqua cidade da cachaça.

Adormeci. Neste momento, o ônibus já estava saindo de Pirapora. A mulher ao meu lado já desembarcara. Será que seu marido a buscara? Caso contrário, ele apanharia.

Amanhecera. Já eram 6h quando entrávamos em outra cidade. Percebi que havia adormecido devido à baba fresca no canto da boca. Limpei-a. Olhei para o lado do corredor e perguntei a uma mulher do meu lado onde estávamos. Entramos em Montes Claros.

“Montes Claros?”, pensei. Como chegamos tão rápido se pelos meus cálculos chegaríamos depois das sete? Ainda havia mandado algumas mensagens à Larissa sobre tal fato para que ela pudesse arrumar um táxi para mim e isso só seria possível se eu chegasse na hora que eu realmente estava chegando. Mas, agora era tarde. Eu já não podia mais pedir que a garota nascida em Belo Horizonte, que já morou em Montes Claros e agora estudava em Salinas, remarcasse para mim.

Olhei para o relógio. 6 horas e 7 minutos. Comecei a me desesperar. Em uma das mensagens dela estava escrito que o ônibus com destino a Salinas desembarcaria em oito minutos. O próximo seria apenas às dez. E nem sinal da rodoviária. Ficar sozinho numa cidade daquelas por tanto tempo me dava um frio na espinha. O que eu faria até lá? E que mal seria chegar depois das 13! Mas, um pouco de esperança ainda havia em mim.

6h10. O ônibus finalmente estacionara em seu destino. Tentei sair o mais depressa possível para conseguir pegar minhas malas e embarcar. Salinas começava a ficar mais perto do que eu imaginava. O coração batia forte, mais acelerado. A emoção tomava conta de mim.

Fui o primeiro a chegar ao bagageiro, depois do cobrador, claro! Ele já abria uma das portas e começava a tirar as malas.

  • Moço, por favor, o senhor poderia pegar minhas malas? Eu preciso viajar e o ônibus está a ponto de sair.

  • Muito bem! – dizia o cobrador – qual é a sua mala?

  • Ela não está nesse compartimento, está no outro.

  • Sinto muito! Eu não estou autorizado a abrir o outro bagageiro enquanto não esvaziar este.

  • Mas, eu preciso delas agora, senão vou perder o ônibus.

  • Lamento, não há nada que eu possa fazer.

“Não há nada que eu possa fazer?” Como não? Era só abrir a droga do outro bagageiro e entregar o que eu precisava! Isso é o que eu chamo de má vontade! Deveria era ter fechado a porta de onde ele estava e deixá-lo trancado até que alguém sentisse falta. Assim, ele aprenderia! E apodreceria!

Sim, eu estava revoltado. Mas, não tinha muito tempo para me preocupar com isso. Saí correndo até o outro ônibus e lá estava o motorista, recebendo as passagens de outras pessoas.

Respirei fundo. Não era algo tão grave, se olhasse por outro ângulo. Fiquei do lado do homem de uniforme e supliquei:

  • Com licença, moço. Eu preciso viajar neste instante pra Salinas, mas ainda preciso pegar minhas malas. Você pode esperar pelo menos uns cinco minutos só para eu pegá-las?

  • Olha, rapaz, é o seguinte. – começou o motorista, em um tom mais agressivo – Eu não posso me atrasar pra viajar, então não vai achando que eu vou poder esperar você voltar ao hotel pra buscar suas benditas malas. Vai lá correndo. Se der tempo, você embarca, senão você pega o próximo ônibus.

  • Minhas malas estão no outro ônibus! – já estava exasperado – eu só estou esperando o outro cobrador descarregar as outras malas para eu poder embarcar!

  • Já disse que não posso atrasar aqui. Se quando você voltar o ônibus tiver partido, pegue um táxi e peça para o taxista te deixar na Rua Pimentel que nós fazemos embarque por lá. Você tem quinze minutos. Boa sorte! – disse ele, sumindo nas sombras.

E, neste momento, eu via Salinas afundar. A vontade que eu tinha, depois de trancar um e enforcar o outro, era de desistir de tudo aquilo e voltar para a minha terrinha, mas eu já estava longe e não podia desistir. Ainda havia esperança, pois havia uma luz e era aquela luz que… como era mesmo o resto da música?

Aproveitei a adrenalina que pulsava forte em meu sangue e voltei para o primeiro ônibus. Finalmente o outro bagageiro estava aberto. Passei na frente de todos e já fui falando alto para o motorista:

  • Senhor, minhas malas! Eu preciso delas para viajar! O ônibus já está saindo!

  • Muito bem, quais são suas malas? – disse ele, atendendo prontamente, talvez para compensar o que fizera.

  • São aquelas duas ali no fundo. – eu apontava para as malas, próximas a ele.

  • Lamento senhor, mas não posso tirar as malas do fundo antes de retirar essas que se encontram à minha frente.

Era inacreditável. Sentia o chão abrir sob meus pés. Aquele dia, recém-nascido, acabara de morrer para mim. Salinas virava pó neste momento. Era triste pensar que naquele início de férias nada mais daria certo. Eu já nem sabia o que fazer. Todos os meus sentimentos brigavam entre si para ver quem comandaria minhas próximas reações.

Tudo sumira. As pessoas, as rodoviárias, os montes. Eu teria que ficar mais quatro horas naquela cidade, esperando e esperando. E sabe-se lá o que…

  • Para de drama, Álisson! – dizia uma voz antes de dar um tapa na minha cabeça, fazendo-me acordar de meu transe.

Finalmente, as malas estavam acabando. Depois de tanto sofrimento, recebi-as. Fui correndo para o outro ônibus e, num salto, capotei. O ônibus já saíra da plataforma e já estava virando para sair da rodoviária.

Eu poderia ter me ajoelhado naquele instante e começado a chorar, mas nem todas as minhas esperanças se esgotaram. Parti para o último recurso que me restara: Dirigir-me à Rua Pimentel por meio de um táxi. E, se isso tudo isso falhasse, aí sim, ajoelhar-me e chorar como uma criança que perde seus doces no meio da rua.

Corri para a ala dos táxis e já parei o primeiro que vi:

  • O senhor pode me levar até a Rua Pimentel? Preciso pegar o ônibus que vai para Salinas e ele para lá para embarcar as pessoas.

  • Claro, entra aí!

Apressadamente, joguei as malas no banco de trás, fui para o banco da frente, sentei-me, fechei a porta e esperei o taxista acelerar. E ele acelerou. Apontei para o ônibus que estava na nossa frente e disse:

  • Siga aquele ônibus!

Rá! Eu sempre quis dizer isso. Mas, para minha infelicidade, ele disse:

  • Tenho outro plano. Consigo chegar ao ponto antes que você possa imaginar.

E lá fomos nós rumar para outra estrada. Aquela velocidade, somada à emoção de chegar antes do horário, sem saber quanto tempo levaríamos, dava uma sensação de estarmos em um daqueles filmes de ‘Velozes e Furiosos’. Até pegaria minha máquina fotográfica para registrar esse momento único, mas estava tão preso àquela emoção que deixei para lá.

E o táxi não corria, mas voava. Cada lombada era uma sensação de frio no estômago e adrenalina pura. E quanto mais ele corria, menos eu tinha a sensação de que chegaria a tempo. Sim, estava numa sensação completamente reversa. Eu já nem sabia de mais nada, só sabia que queria chegar vivo ao meu destino.

O ponto já estava à vista. De longe, eu via aquele ônibus azul se aproximando. Não haveria tempo de embarcar. Era tenso poder imaginar que não acabaria bem. Mas, neste instante, o taxista saltou de sua poltrona e logo ficou de frente para o ônibus. Destino: Januária.

  • Fique tranquilo! Não é este.

E aí ele perguntou aos outros futuros passageiros sobre o ônibus que eu aguardava.

  • O ônibus para Salinas já foi?

  • Não, ainda estamos esperando! – Respondia uma mulher loira, já grávida de quatro meses.

Respirei mais aliviado. Era muito bom saber que nem tudo estava perdido. Agora era só esperar pelo ônibus. Estava quase pulando nos braços do taxista de tanta felicidade, quando ele anunciou em alto e bom som:

  • Quinze reais.

Ele anunciara o preço da corrida. Do voo, melhor dizendo. Olhei para o taxímetro e, novamente, olhei para ele, com cara de desconfiado. Estava marcando R$ 11,40.

Percebendo que não deveria ter dito isso, ele tentou consertar:

  • Mas, tudo bem! Vou cobrar só R$ 13,00.

Resolvi relevar. Motivos? Eu já estava impaciente com toda aquela história. Queria apenas repousar meu ‘assento’ e viajar em paz. Fora que ele também conseguiu me deixar ao destino antes que o ônibus pudesse aparecer. Por último, mas não menos importante, eu sou rico! Muito rico! Logo, aquele dinheiro não me faria falta alguma.

Tirei as malas do banco e me juntei ao povo. O taxista partira. Agora, era hora de esperar. E esperamos. Após dez minutos, lá estava o ônibus que tanta raiva me fizera passar. O ônibus parou. O cobrador desceu. As malas foram postas no bagageiro. Quando fui subir, o motorista me abordou:

  • Deu tempo, né?

Ele me disse isso com um singelo sorriso sacana. Como não queria briga nem nada, apenas disse:

  • Graças a Deus, né?

“Não graças a você, que fez questão de me fazer sofrer e gastar dinheiro” – pensei.

Mesmo tão revoltado, embarquei, procurei uma poltrona livre, deixei minha mochila no chão e me aconcheguei. Abri um dos zíperes da mochila e peguei meu videogame portátil, um DS. Ao meu lado, uma jovem mulher, muito bonitinha, de cabelo Chanel que tentava dormir.

Comecei a jogar para passar o tempo. Pelos meus cálculos, chegaria ao meu tão demorado destino às dez da manhã, agora mais tranquilo por não haver mais paradas.

De tantos jogos, escolhi Pokémon. Meu Piplup já estava quase evoluindo, quando sinto um leve movimento proveniente de meu bolso. Puxei meu celular, olhei o visor e fiquei feliz com o nome que li.

Era Larissa, que agora me ligava pra saber exatamente onde eu estava e combinarmos minha chegada.

9 comentários em “Mais ou menos Salinas (1)

  1. Oi primooo! Saudades de vc seu chatinhooo!

    Adoro o jeito que vc escreve(e viaja, nos dois sentidos hahaha =P)
    Li o capitulo 1 =) vc ja tinha me contado +ou- , mas com os detalhes fica beeeem mais legal XD e me ajuda passar o tempo no trabalho hehehe
    Depois volto pra ler o proximo capitulo heuheaueahuea

    Te adoro primooo
    Bjs

    obs: vc parece eu, escreve demais no post, mas eu gosto =]

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    1. Pois é, prima… tbm to com muitas saudades…
      Ah, que bom que vc gostou do primeiro capitulo, espero que goste do segundo e dos próximos.

      Pois é, e escrever me ajuda a esparecer um pouco a cabeça, é realmente muito bom..

      Em breve, terei um livro publicado

      Beijos e tudo de bom

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    1. Claro que não apareceu, bobo… vc só aparecerá no segundo capítulo… então, nao perca a continuação =)

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