Capítulo 3: Conhecendo o instituto

Era uma vez, uma gata xadrez que andava pela rua seis. Essa gata estava à procura de alguma comida para seus filhotes. Quando um motoqueiro passou, ela pulou em sua garupa, mesmo sem saber o destino. E lá foi o pobre felino tentando se segurar naquele vento.

Era sábado. O motoqueiro estacionou no Instituto Federal do Triângulo Mineiro, campus Ituiutaba, onde estudava. A gata, ao perceber que estava no meio do mato, deu um tapa em sua testa, perguntando-se onde teria se metido. O jovem motoqueiro caminhava para sua sala, onde fazia sua pós-graduação.

E lá também estava eu. Duas semanas depois de ter perdido aula, sentado ao lado de uma antiga amiga de faculdade, Carolina. Eu contava a ela sobre as coincidências da vida:

  • Larissa me ligou esses dias. Disse que conseguiu passar numa federal também.

Larissa também estava empolgada. Assim como eu, ela passara em uma federal, o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, campus Salinas, e também perdera duas semanas de aulas.

Coincidências ou não, nossas histórias, mesmo estando tão distantes, se assemelhavam. Com a faculdade não era diferente. E, como eu já havia recebido um convite da garota, era mais que justo que um dia eu fosse conhecer o outro IF.

  • E você vai ver, Carolina. Um dia eu irei conhecer sua faculdade.

E lá estava eu, cinco meses depois de ter dito essa frase. Antes, eu e Larissa disputávamos pra ver qual era a pior:

  • Ah, você tinha que ver nossa biblioteca! – dizia ela – Uma vergonha para uma federal!

  • Pelo menos a sua tem livros! – dizia eu.

  • Ah, mas a nossa é uma fazenda! – ela continuava.

  • Sim, mas a nossa é puro mato. E só tem dois pavilhões. – eu insistia.

Aquela discussão parecia não ter fim. Mas, naquele instante, nada disso importava. Era indescritível a sensação de estar pisando ali. Poderia não ser o melhor lugar do mundo, mas para mim pouco importava. Era um sonho que, finalmente se realizava.

  • Conhecer o IFNMG, feito! – disse para mim mesmo, riscando essa informação de um pedaço de folha de caderno, antes de voltá-la para o bolso.

Sim! Eu estava tão empolgado de estar ali, que resolvi mandar uma mensagem para Carolina naquele instante. Os dizeres “Estou no IFNMG” mal saíram de minha caixa de saída e eu já sacava minha câmera do bolso para tirar fotos, com intuito de lhe mostrar quando voltasse. No mesmo instante, Carolina pegou seu celular do bolso, leu a mensagem e anunciou para todos que estavam ali perto:

  • Ele conseguiu! – era o que ela dizia, enquanto todos da rua, estranhos a ela, olhavam-na com cara de “que retardada!”.

Mas, antes de falarmos do lugar, vamos voltar ao início do dia.

Seis horas da manhã, o telefone de Larissa começava a tocar. E eu pensando que, naquelas férias, não teria que ser obrigado a levantar tão cedo! Como estava em seu quarto, ela já foi logo me perguntando enquanto eu abria os olhos:

  • Você vai pro instituto?

  • Sim! – dizia eu, meio a murmúrios.

  • Então, levante-se para não chegarmos atrasados. – e ela atirou uma almofada em mim, pouco antes de Champignon subir na cama.

Levantei-me, troquei de roupa, penteei o cabelo, tomei café, escovei os dentes, peguei a câmera, o DS, a carteira e tudo mais que eu tinha direito. Quando estavam quase todos prontos, Hiago tocou a campainha e entra. Vívian bate no quarto de Tchely, perguntando se ela iria conosco:

  • Pode ir na frente, eu pego um táxi depois! – E voltou a dormir, rolando e derrubando Paulinha no chão.

Então, fomos Larissa, Vívian, Hiago, Brunna e eu para o ponto de ônibus. Quando ele parou, subimos. Recebi logo uma “facada” quando soube que precisava pagar 75 centavos pela passagem. Tive vontade de dizer à cobrada que dinheiro não nascia em árvore, mas deixei para lá, já que eu estava em Salinas.

E lá fomos. No ponto seguinte, João e Letícia subiram. O coletivo já estava bem lotado. Alguns iam em pé e outros sentavam em colos alheios. Larissa aproveitava a ocasião para me apresentar alguns colegas:

  • Tá vendo aquele cara ali sentando ao fundo? É João Pedro! – dizia ela, enquanto apontava.

  • Larissa, não aponte para aquele garoto! – apontei também – Já pensou se ele diz alguma coisa? – João Pedro viaja profundo em seus pensamentos, enquanto olhava para fora do ônibus.

  • E aquela ali… – continuava ela, enquanto apontava.

Ao fim da cidade, o instituto se encontrava. Era um lugar interessante de se ver, principalmente para quem ia apenas a passeio. Era notável, pelos prédios, que o instituto já possuía alguns anos de vida, ao contrário do que eu imaginava, já que o IFTM não completara nem cinco anos de funcionamento.

Ao descermos da condução, encontramos mais alguns centos de jovens desesperados, por estarem em época de provas. Entre elas, Catarina, que eu havia conversado noite passada, via internet.

  • Ah! Você é o Álisson? Muito prazer! – dizia ela, enquanto me cumprimentava com um beijo no rosto.

E lá fomos nós, subindo para a sala de aula, ladeados por um enorme grupo de estudantes desesperados em época de provas.

  • Vocês estudaram? Estou com muito medo dessa prova! Uma das mais difíceis que já fizemos até agora!

  • O capítulo 14! Eu não estudei o capítulo 14!

  • Alguém viu minha aranha? Ela estava aqui agora há pouco!

  • Aranha? Aaah! Socorro! Tem uma aranha dentro da minha calça!

  • E você não é a única, bobona! – dizia um enorme travesti que passava por ali.

Era engraçado ver tamanho desespero. Lembrava-me dos meus tempos de faculdade em que, segundos antes da prova, eram tempos preciosos para tentar absorver o máximo de informação possível.

Enquanto subíamos a pé, o professor Leonardo passava de carro sem olhar para os lados. A prova, nesse dia, era dele. Talvez tenha sido por isso que ele preferiu não dar moral para ninguém.

Quando chegamos à sala, o pessoal se despediu de mim e entrou. Alguns pediram que eu entrasse e fizesse a prova por eles. O que seria melhor para qualquer um ali da veterinária, já que sou formado em Sistemas de Informação.

E lá estava eu, sozinho, sem ninguém. Não pude deixar de reparar que aquele lugar parecia uma fazenda mesmo, com prédios antigos, barro e mato por todos os lados, além de vacas, porcos e bezerros misturados a tantos outros animais, que me fazia sentir como um também. Então, para conhecer melhor o lugar, fui dar uma volta.

Larissa já estava avisada: Quando terminasse a prova, era para me dar um toque e eu retornava à sala de aula. Isso se eu não me perdesse no caminho. Pensei até em comprar um pãozinho para ir jogando pelo chão para fazer uma trilha, mas achei isso muito “João e Maria”. Então, resolvi deixar para lá.

Agora, contarei a vocês um pouco do que vi. Um barracão ainda não terminado cercado por tantos pneus velhos, que dava até medo de olhar e encontrar alguns ovos de certo mosquito periculoso, envolto por mato queimado. Depois, tirei fotos de algumas árvores que embelezavam o local. Lá também poderiam ser visto algumas hortas, alguns bezerros e até um campo de futebol. Também se viam tratores, um pequeno lago e uma bela paisagem dos morros de Salinas.

Era de se encantar aquela vista. Em minha terra, uma vista como aquela não era comum. Então, aproveitei cada momento.

E eu sujei o meu tênis. Aquele tênis branco já não seria mais o mesmo. Como eu já havia dito, apesar de uma paisagem tão bonita como aquela, encontrávamos mato, terra e buraco em todos os lados. Até carroceiro passava às vezes por ali.

Nem percebi quanto tempo passara. Quando vi, o relógio já sinalizava oito horas. Para me ajudar a voltar ao meu destino, um rastro de cavalo me apontava a direção. Já chegando à sala, Larissa me dava um toque no celular indicando que terminara a prova. Não precisei atendê-la, pois já estávamos à vista do outro.

  • Como foi de prova? – perguntei-lhe.

  • Fechei! Uhul! – ela comemorava.

  • Conseguiu fazer todas as questões? – sentei-me ao lado dela.

  • Sim! Era pra eu ter ficado mais um pouco lá dentro, mas parece que ninguém consegue me entender! Eu posso gritar que ninguém vai saber colar a resposta.

  • É porque você tem que mandar um SMS com a palavra cola, para que eles possam receber dicas de como colar. Eu já te ensinei isso.

  • Ah! Eu não me lembrava. – dizia Larissa, antes de atirar sua cara na lama, de vergonha.

Aos poucos, a galera foi aparecendo. João, nesse instante, apareceu com um largo sorriso para meu lado.

  • Pela cara, você foi muito bem!

  • Que nada! Me ferrei! – dizia, sem apagar o sorriso.

Letícia também apareceu. Aproveitei para tirar uma foto dela. Ela me correspondeu de forma muito bela: levantou seu maior dedo e o apontou para mim. Tive vontade de respondê-la, mas deixei para lá.

Tchely também saíra. Ao vê-la, quase caí para trás. Ela não estava no ônibus e eu não a vi entrar na sala. Então, como ela foi parar ali?

  • Você nunca saberá! – dizia ela, demonstrando um sorriso maléfico, demonstrando que acabara de ler meus pensamentos (ou, talvez, apenas o script do presente filme).

  • Foi bem de prova? – perguntei, voltando ao normal.

  • Não! Você não quis fazer a prova para mim! Por que você não quis fazer essa prova? Por quê? – ela dizia cada vez mais alto, enquanto me chacoalhava, fazendo minha cabeça bater no cercado de madeira.

  • Minha querida Tchely. Venho por meio desta, informar-lhe que a prova realizada até há pouco não se encontrava de nível de dificuldade inferior como a prova subsequente que, acredito eu, será. Portanto…

Neste momento, levantei-me, olhei fundo nos olhos dela, aproximei-me bem devagar e fui alterando o volume de minha voz cada vez mais:

  • PARA DE ME DEGOLAR!

Sempre aprendi que termos como “Venho por meio desta” não é correto de se dizer. Mas, dizendo em voz alta, aquilo soava tão formal, que decidi deixar assim mesmo.

Depois, saíram João Pedro e Camila, um dos casais da turma. Como todo bom namorado, João Pedro sentou-se em um toco e Camila sentou-se em seu colo. E foram discutir as questões. Como eu não era participante, fiquei apenas de expectador.

Neste instante, foi a vez de Arthur sair. Ele veio correndo e logo foi perguntando à Larissa:

  • O que você respondeu na segunda questão?

  • Lente ou cristalina.

  • Cristalina? Eu só pus lente! Eu me esqueci da cristalina! Eu não acredito que me esqueci da cristalina!

  • Vamos deixar esse maluco aí? – Larissa sussurrava para João, Letícia e Vívian, que também já estava lá.

E lá fomos nós, enquanto Arthur não parava quieto.

Enquanto caminhávamos em direção ao pátio, João e eu trocávamos algumas ideias:

  • O que você ficou fazendo esse tempo todo?

  • Estava andando pelo instituto para conhecer!

Tirei minha câmera do bolso e a entreguei para que ele pudesse ver as fotos que havia tirado.

  • Gostou do que viu?

  • Sim! Aqui é muito legal! Apesar de parecer uma fazenda mesmo. Vocês devem se sentir muito em casa.

  • E como! Aqui é maravilhoso, com tantos bichos, tantas árvores, tanto… argh!

João parou de falar, ao pisar num monte de esterco de cavalo. O mesmo rastro que me guiara para a sala de aula.

  • Mas, por que aqui tem tanto prédio antigo? – disse eu, ignorando o fato acontecido e o puxando pelo braço direito.

  • Aqui era uma escola agrotécnica, com alguns cursos técnicos e ensino médio. Também temos muitos cursos superiores, mas a nossa é a primeira turma da medicina veterinária.

E então, João começou a nos apresentar alguns lugares.

  • Como você pode ver, ali estão as quadras. Ali, encontramos a biblioteca. Em frente, a direção, depois a secretaria e ali fica o pátio. Ah! E ali, encontramos uma coisa que, com certeza, é de seu interesse: o laboratório de informática!

  • Uau!

  • E, acredite! Tem computadores lá dentro!

  • Uau! Êpa! Peraí, Joãozinho. Aquele laboratório está em reforma! – falei, indignado.

  • Ele só estava querendo te impressionar, bobo. Não temos laboratório de informática não! – dizia Letícia, estragando o momento feliz de João, mesmo sem desfazer seu sorriso eterno.

  • Temos um sim, ok? – falava João, com voz alterada para Letícia! – apesar de serem computadores bem antigos e não ligarem, existem computadores naquele laboratório!

  • Ah! Entendi! Laboratório de manutenção de computadores! Na minha antiga faculdade tinha um! – eu disse a ele.

  • Não. O laboratório é para consultas do aluno mesmo. – completava João.

Preferi ignorar. Então, ele continuou a representar o papel de meu guia turístico.

  • Essa escola já tem mais de 50 anos. Mas, há pouco tempo, tornou-se o Instituto Federal de Ciências e Tecnologia do Norte de Minas Gerais. Coisa de gente fina.

Olhei para João de cima a baixo e confirmei o quão fino ele era. Sim, ele era magrelo.

  • É! Você tem razão!

E lá foi nosso grupo se deslocar para a praça de alimentação. Pensei que fosse algo grandioso, mas era apenas uma pequena janela com uma moça dentro, oferecendo alguns salgados de frango e presunto para os alunos, em troca de um real e vinte e cinco centavos. Enquanto isso, duas alunas da veterinária conversavam ali perto:

  • Meu pai tem um granjeiro. Esses dias, uma das nossas galinhas ficou doente. Tentamos de tudo para salvá-la. Eu a amava tanto! Mas, não conseguimos. Chorei muito quando papai me deu a notícia.

  • Que coisa triste, amiga!

  • Muito triste! Tivemos que sacrificar o pobre bichinho.

  • Pobre galinha! – dizia a garota, enquanto ambas davam uma bela mordida numa empada de frango.

Ao lado, também estava uma pequena roda do grupo de veterinária. Aproximamos. Notei que havia um pátio ali do lado. Alunos de outras turmas encontravam-se ali, mas o papo da turma de cá estava mais animado.

  • Galera, alguém sabe quando vamos pra Montes Claros? – perguntava Tâmara.

  • Ouvi dizer que na quinta-feira. O ônibus vai sair bem cedo. – dizia Peu.

  • Mas, vamos antes ou depois da prova? – perguntava Tâmara.

  • Antes. Aí vamos para Montes Claros e voltamos para fazer a prova. – respondia Peu.

  • Ai, Peu! Larga de ser grosso! – respondia Rhangnys.

Sim! Esse é o nome da garota. Até hoje, não se descobriu a origem disso.

  • Como as turmas vão ser divididas? Larissa? – Virou Izabela para Larissa, no mesmo instante – Você vai ceder sua casa, não vai?

  • Sim! Mas, ate agora não deu nem cinco pessoas.

  • Quem já confirmou?

  • Até agora Hiago, João, Letícia e Álisson.

Por um momento, Izabela passou na cabeça todas as pessoas da sala para ver se se lembrava de algum Álisson. Aí, ela me viu e continuou:

  • OK! Pode confirmar meu nome também!

  • Tudo bem, então! – E Larissa tirou um pergaminho e uma pena de seu bolso. Virou-se para a balconista e lhe pediu um pouco de nanquim.

  • Toma, sua velha! – E a mulher educada entregou-lhe uma caneta, que Larissa teve que sair riscando pelo papel inteiro, para ver se saía alguma tinta.

E a animada conversa já continuava:

  • O pessoal vai mais é para a casa de Camila. Acho que vão ser dois ônibus.

  • Cês tão doidos? Mãe minha não vai gostar disso não! – dizia Camila, aumentando seu sotaque baiano.

‘Mãe minha’, ‘mãe minha’, ‘mãe minha’, pensava eu. Que cacofonia! Era só falar rápido que se entendia outra coisa. ‘Mãe minha’.

  • Casa de Camila, de Larissa, de quem quer que seja! Eu quero é ver o show de Paulinha Fernandes. – dizia Ítalo, eufórico.

  • Ah! O show daquela mulher deve ser tudo de bom! – dizia Brunna.

  • Sem contar que ela tem belas pernas! – dizia João Pedro, recebendo um leve tapa de Camila no braço, após o comentário.

E ele a beijou em seu rosto, como símbolo de pedido de desculpas quando Arthur aparece, entra na roda e fala para todos escutarem:

  • Eu esqueci a droga do cristalino! Como eu pude esquecê-lo?- dizia ele, indignado.

  • Toma! Te empresto o meu.

Davi foi muito legal, ao pegar a colher, tirar seu próprio olho e entregá-lo, por completo, ao jovem Arthur, que ficara muito agradecido.

  • Nós aqui, falando de Expomontes, e Arthur preocupado com o maldito cristalino.

  • Mas, eu até agora não acredito de ter me esquecido de colocar o cristalino na questão número dois da prova. E, Davi, por favor! Seu olho é muito pequeno para mim!

Enquanto Arthur devolvia o olho de Davi, a galera voltava ao interessante assunto em que estavam. Do outro lado, meio isolados, Larissa e eu apenas prestávamos atenção na conversa. João, que estava do nosso lado, sentindo seu estômago reclamar, pediu uma empada de frango à balconista. Após esperar que ela fosse ao freezer, tirar uma empada congelada, colocá-la no forno micro-ondas por breves 30 segundos e retornar o troco para uma nota de cinco, lá estava João, olhando demoradamente para a empada antes de lhe dar uma mordida.

  • Que foi, João? – perguntou Larissa.

  • Quando eu olho para essa empada, dá uma saudade da comida da mamãe!

  • João! Você mora com sua mãe! – dizia Larissa, indignada.

  • O dia que você comer essa empada, me entenderá! – dizia João triste, mesmo com um sorriso no rosto.

  • O que essa empada tem de mais? – perguntei-lhe, curioso.

  • É cara e gelada. A vendedora tem preguiça de esquentá-la. Faz e deixa no freezer por uma noite. Na manhã seguinte, ela só tira para esquentar quando alguém pede. Se você morde, vai encontrar uma enorme pedra de gelo. Mas, se você der alguma sorte, a pedra terá se descongelado e sua empada estará ensopada. Qualquer dia desses, você experimenta uma e me diz o que acha.

  • Eu ouvi isso! – disse a balconista, irritada.

  • Sua mãe nunca te disse que é feio escutar conversa alheia? – perguntou Larissa.

  • Quem é você, sua grossa? – perguntou a balconista, irritada.

  • Não te interessa! E para de escutar a conversa dos outros!

Ouvindo isso, a balconista apontou língua para a garota.

  • E toma a sua caneta! – Larissa atirava-lhe a caneta de volta, acertando-a na testa.

Para evitar qualquer briga, saímos dali. A mulher tentava pular pela janela, mas João fez o favor de empurrá-la de volta, fazendo-a cair. Quando ela estava se recuperando do tombo, outros alunos apareceram, pedindo mais lanches. Então, a balconista preferiu desistir, mas não antes de jurar vingança para o dia seguinte.

  • Quantas horas são? – Larissa me perguntava

  • 9h18.

  • Vívian! Que horas os ônibus saem? – perguntou Larissa, ao ver Vívian e Letícia se aproximarem.

  • Já estão quase saindo!

  • Vocês vão agora? Não vou ficar aqui mais não, nada pra fazer mesmo! Onde está Hiago? – continuou Larissa.

  • Deve estar beirando aquela Girafa Desmiolada.

Vívian estava xingando uma de suas colegas que tanto detestava. Para piorar, ainda brigou com Larissa na noite passada por ter passado cola a ela. Como aqui pretendemos preservar cada personagem, não diremos que ela se referia à Catarina.

  • Você não passou cola para ela de novo não, né?

  • Não! Ela é muito lerda! Não sabe nem pegar uma cola.

  • Você é muito malvada! Passa cola para ela e não para os amigos.

  • Vívian, você tem que entender que, no futuro, ela não vai ser uma boa profissional se continuar colando! Imagina só, você sendo uma grande veterinária e ela dona de um pet shop.

  • Não quero nem saber! Você tem que me passar cola.

E nós continuávamos nosso passeio. Próximo aos ônibus, lá estava Hiago abraçado à Catarina pelas costas, enquanto cheirava seu pescoço. De longe, parecia uma tentativa de beijo.

  • Hiago! – gritava Larissa – Você vai agora?

  • Vou!

Hiago e Catarina se despediram e ele veio ao nosso encontro. Estava muito feliz, até aquele momento, exatamente por ter ficado tanto tempo distante dele. Como evitá-lo era inevitável, o jeito foi me acostumar.

Mais 75 centavos. Mas, dessa vez, o ônibus estava vazio. O que me deixava mais feliz era saber que eu estava roubando o lugar de Hiago, sentando-me ao lado de Larissa. Ele teve que ficar lá, ao lado de Vívian.

Ao contrário de nossas saídas em Belo Horizonte, Larissa, em Salinas preferia sentar-se nas primeiras cadeiras, geralmente mais baixas. Na capital mineira, sempre sentávamos ao fundo, na cadeira mais alta. Talvez porque ela gostava de se sentir mais alta, ou de ver os outros de cima, nunca entendi muito bem.

Então, começamos a andar. Como acontece em todo seriado sem-graça, uma professora gordinha saiu da secretaria, correndo, tentando alcançar o ônibus, que não parava. E ela gritava para o motorista ouvir. Todos os alunos perceberam e começaram a gritar para que o motorista pudesse parar, mas em vão, já que ele usava fones de ouvido. Entretanto, para a sorte da professora gorda, o motorista percebeu pelo retrovisor algum alvoroço em seu ônibus e olhou para trás. Percebeu a professora nesse exato momento e freou. Mas, isso não impediu que a pobre senhora entortasse seu pé e caísse de cara na lama.

Pobre professora. Atrasada, desajeitada e gorda. Isso já está tão clichê nas histórias de comédia que era preciso colocá-la aqui. Os alunos a olhavam assustados, enquanto ela não conseguia se levantar. O motorista levantou-se de sua poltrona e ficou parado por um bom tempo para ver se algo acontecia. Mas, nada acontecia.

O motorista olhou para todos os alunos. Eles retribuíram. Um esperava a reação do outro, mas ninguém se mexia. Lá fora, alguns professores saíam de suas salas e via aquela cena. A professora caída nem se mexia. Os outros professores estavam boquiabertos, mas também não se mexiam. Será que a pobre professora morrera ali mesmo? E por que ninguém se mexia para ajudar a pobre senhora?

O motorista deu uma última olhada para os alunos. Foi até a janela e perguntou aos outros professores:

  • Essa mulher está bem?

Não se ouvia qualquer som. Em vez disso, os professores apenas faziam sinal indicando que não sabiam. Então, percebendo que não adiantaria, o motorista voltou-se à sua poltrona, colocou novamente os fones em seu ouvido, ligou a máquina e lá fomos nós pela estrada.

Estávamos tão empolgados de, finalmente, estarmos em curso, que até pensamos em cantar “um elefante incomoda muita gente”, mas resolvemos parar ao ver a cena se repetindo: a professora estava em pé novamente e voltava a correr atrás do ônibus. O motorista logo percebeu aquilo, por isso, pisou fundo no acelerador para deixar logo os portões do instituto. E foi assim que a professora perdera sua carona para casa.

  • Tudo bem! Vou entrar naquele que ainda está parado ali! – dizia a professora, enquanto tirava o excesso de lama da cara.

Não foi uma longa viagem e o caminho sempre era o mesmo. Por isso, aquele foi mais que tempo suficiente para eu ter tido uma boa lembrança da cidade. Salinas era sim uma cidade pequena, mas que trouxe tantas lembranças que eu seria capaz de escrever um livro sobre o que eu passei lá. Quem sabe algum dia.

Descemos no ponto. Chegamos e não eram nem 10h ainda. Quando entramos em casa, além dos cachorros que nos recebiam latindo, lá estava Paulinha varrendo a casa.

  • Que menina prendada! Está solteira? – arrisquei.

  • Pra você, não! – e ela continuou a varrer como se nada tivesse acontecido.

E aqueles cachorros pulavam. E como pulavam! Cachorros eram as únicas coisas que eu estava vendo naquele momento, depois de um fora desses.

Então, as garotas trocaram suas roupas e lá foram fazer a faxina de casa. Larissa ficou por conta de arrumar seu quarto e, para meu azar, eu precisava ajudá-la, já que era ali que se encontravam minhas malas.

Vívian foi lavar as louças. Ela me contava como gostava de ajudar as pessoas, mesmo quando não fosse necessário:

  • Sabe, Álisson. Aqui, as meninas me tratam como se fosse uma mãe! Porque quando elas estão doentes, eu que fico louca atrás de remédio, de levá-las para o hospital, eu que…

  • Você que sai entupindo as meninas de remédios, mesmo que elas só deem uma tossezinha… – interrompi.

Vívian me olhou com uma cara não muito boa.

  • Que foi? – tentei consertar – É assim que mamãe faz comigo!

Passado alguns minutos, Brunna entrou em casa. Naquele dia, o almoço foi por conta dela. Sim! O almoço foi por conta dela. Então, ela entrou, trocou de roupa, foi para a cozinha, tirou as panelas da dispensa e começou sua obra de arte.

  • Da próxima vez, você é quem fará o almoço! – dizia Paulinha, sorrindo para mim.

  • Minha cara Paulinha! – disse-lhe, colocando uma de minhas mãos em seu ombro – Você tem certeza do que está dizendo?

  • Claro que sim! Aí veremos se você está pronto para se casar!

E ela virou as costas para mim e saiu da cozinha. Eu ainda estava tentando entender o que foi aquilo depois do fora, quando ela gritou lá da sala:

  • Mas, não comigo!

‘Ah!’ – exclamei em pensamento.

Quando Brunna desligou o fogo da última panela, ela perguntou:

  • O almoço está servido. Quem será o primeiro?

Aquela mesma reação do dia anterior repetiu-se. Todos se entreolhavam, com medo. Era a primeira vez que a garota de Francisco Sá cozinhava para eles.

  • Não seja tímido, Álisson. Sirva-se! – e Brunna me entregara um prato duvidosamente limpo.

E lá estava eu me servindo. Como ninguém tinha opção, formaram uma fila atrás de mim. Mas, diferente de tantas outras filas, naquela encontrávamos apenas pessoas muito bem educadas:

  • Ah! Você pode ir na minha frente! – dizia Larissa à Tchely.

  • Que isso, amiga! Fique à vontade! – dizia Tchely, sorrindo.

Sim! Tchely novamente aparecera misteriosamente diante de nós. Talvez transportada por forças do além.

Após nos servirmos, sentamos cada um em um canto da cozinha. Eu e Larissa ladeávamos a mesa branca de plástico, Tchely sentava-se no chão, tentando empurrar os cachorros para longe dela, Vívian trouxera a cadeira que ficava em seu computador e Brunna sentava-se em um banquinho. Paulinha era a única que ficava em pé, na porta para a varanda.

Atrás de mim, uma mesa de passar roupas. Em cima da mesa, uma vasilha fechada de feijão inteiro. A vasilha estava tampada e a cor de sua tampar era cor-de-rosa. Nenhum animal foi morto para que aquele feijão pudesse ser feito. Bem, talvez algumas pragas que atacavam a colheita…

  • Gostou da minha comida? – Brunna me perguntava, após eu ter dado a primeira garfada de comida.

  • Ainda não experimentei direito! – respondi-lhe, tentando ganhar tempo.

  • E agora? – eu dei a segunda.

  • Ainda não!

  • E agora? – terceira.

  • Não!

  • E agora? – quarta.

  • Está sem sal!

  • Você quer sal, é? Você quer sal?

E lá foi Brunna nervosa para a dispensa. Pegou um pote pensando ser sal, mas era açúcar. E ela foi correndo, em câmera lenta, no rumo das panelas, jogar todo o açúcar na panela de arroz. Todos perceberam o que ela iria fazer, por isso, em uníssono e em câmera lenta, gritaram:

  • Nãããããããããããããããão!

E o herói do dia saiu correndo até Brunna, esbarrou sua grande cabeça peluda nas pernas de Brunna, fazendo o pote de açúcar voar, ainda em câmera lenta, enquanto escorregava por aquele piso vermelho fazendo seu chinelo de dedo voar por aquela cozinha. Enquanto Brunna caía, o pote de açúcar caía em minha cabeça. Tudo culpa de tio Lu.

  • É isso que dá, dizer a verdade. – Falei para a câmera que, nesse momento, já estava em velocidade normal.

Brunna, sentindo-se culpada de tudo isso, foi buscar um pano. Larissa, virou-se para mim e me disse, sussurrando:

  • Realmente! A comida não tem sal! Não vou mais me casar com ela!

Então, Brunna, após retornar, ajudou-me com o pote de açúcar, pediu-me desculpas pelo ocorrido e prometeu não mais cozinhar, enquanto eu estivesse ali. Um grande alívio para os presentes.

Foi assim que, naquele dia, o almoço conseguiu se livrar das garras do açúcar. Incidente que não pode ser evitado um mês depois, quando Paulinha jogou açúcar na batata frita no lugar do sal. Mas, isso é uma história que contarei em outra ocasião.

O sol já não estava em seu ponto mais alto. Quase todos naquela casa descansavam tranquilamente. Novamente, peguei o último livro da série Harry Potter, deitei-me no chão e comecei a lê-lo. Deitar-me naquele chão vermelho e gelado, no único lugar em que o sol entrava naquela casa era uma sensação maravilhosa. Contudo, como estava sem almofadas ou travesseiros, encontrar uma posição confortável não era nada fácil.

Vívian estava no banho. E não estava sozinha. Antes que alguém pense qualquer besteira, ela não estava com um homem. Ela estava tomando banho e dando banho na cachorra da Larissa. Antes que alguém novamente pense mal, ratificarei: era a poodle Alice.

  • Fica quieta, Alice! Deixa eu te dar um banho! Oh! Cachorra custosa!

Eu ainda não sabia se prestava atenção no livro ou na briga.

  • Alice, fica quieta! Sua cachorra desmiolada!

Eu ria. Aquilo tirou minha atenção por completo. O sono também não ajudava muito, por isso, fiquei de frente à parede e tentei tirar meu cochilo, naquele chão mesmo.

Quando já estava quase pegando num sono, Vívian aparecia na sala, segurando a cachorra e um secador, apenas enrolada na toalha. Ao ver aquele pequeno corpo estirado naquele chão, frente ao sol, logo pensou:

‘Que garoto maluco! Depois fica doente e não sabe o motivo! Eu tenho medo de ficar assim um dia. Você não tem medo também, Alice?’

Alice continuou encarando-a, como se nada tivesse acontecido.

‘Ah, é! Eu me esqueci! Eu estou apenas pensando! Alice não vai me compreender. Que burra eu sou!’

  • Au! – concordou Alice.

  • Cachorra! – resmungou Vívian.

Alice estava toda molhada. Muito engraçada para quem a via naquele estado. Vívian a levou para seu quarto e se trancaram ali. Ligou o secador e começou a sessão ‘seca cão’.

Assim como o banho, a sessão incluía altos gritos e xingamentos. A cachorra não parava quieta. Sempre que Vívian dava uma brecha, lá estava a pobre animal tentando fugir do quarto. Mas, Vívian conseguiu vencer aquela guerra.

Com toda aquela barulheira, não consegui dormir. Então, retornei ao livro. Quando estava em uma parte bastante interessante e toda a casa já estava em absoluto silêncio, eis que a porta da entrada começa a fazer um barulho estranho, como se estivessem arrombando. Era Hiago, que entrava sem qualquer cerimônia. Quando me viu, teve a mesma reação de Vívian, mas já foi logo perguntando:

  • Onde está Larissa?

  • No quarto!

  • Dormindo?

  • Não! Fazendo uma festa! – respondi-lhe, secamente.

  • Ai, que garoto grosso! Estúpido! Você não tem o que fazer não?

  • Eu tinha. Aí você apareceu!

  • Idiota! Não vou perder meu tempo com você não! Mais tarde eu volto, quando Larissa tiver acordado. Gutixau!

  • Guti quem? – Repeti para mim mesmo, ao vê-lo saindo de casa.

Então, adormeci.

Três horas depois, levantei-me, fui à cozinha e lá estava Vívian:

  • Conseguiu dormir bem?

  • Ah, mais ou menos! Mas, não queria ter dormido não! Odeio dormir à tarde.

  • Quando Larissa acordar, quero te levar para tomar o sorvete que tanto gosto, nós íamos ontem, mas, como vocês me deixaram sozinha naquela praça…

  • Ninguém mandou você ficar lá fazendo strip no meio da rua.

  • É Pole Dance!

  • Dá no mesmo!

  • Não mesmo! Mas, isso não importa agora! Vamos tomar sorvete! Mas, olha. Eu gosto muito do sorvete, mas não posso tomar muito, pois sou diabética.

  • O QUÊ?

  • Eu sou diabética. Mas, é controlada, então não faz mal tomar um pouco de açúcar de vez em quando. Quer café? Está sem açúcar.

  • Ah, obrigado! – Aceitei uma xícara e despejei um pouco de açúcar em minha xícara.

  • Alguém falou em café?

Larissa aparecera neste momento. Ela estava de pijama, com a cara amassada e com a voz mais aguda que o normal.

  • Você dormiu por dois dias e meio. – brinquei.

  • Droga! Não bati meu record! – dizia ela, entrando na brincadeira.

Nossa amizade era algo muito lindo. Fomos criados meio a ironia e sarcasmos, mas nunca nos deixamos de amar. Além disso, estarmos vivendo tão longe um do outro contribuía para que nosso amor ficasse cada vez maior, pois era assim que gostávamos de ter o outro: distante.

Eu poderia continuar a admirar aquele momento maravilhoso, mas algo me interrompeu. Novamente, Hiago estava ali. Não sei o que tanto aquele garoto fazia naquela casa.

  • Oi Larissa, Oi Vívian. Larissa, eu vim aqui mais cedo, mas esse idiota – ele apontou para mim – disse que você estava dormindo. Aí eu fui pra casa.

  • E de lá você não deveria ter saído – intrometi.

  • Cala a boca, seu imbecil! – disse ele, mais agressivo.

  • Que relação amorosa vocês dois! – comentou Vívian.

  • Ainda não entendi o porquê de vocês darem total acesso a ele. – continuei.

  • Porque você não volta para Uberrrlândia? – disse ele, imitando meu sotaque.

Admito. Meu sotaque é ligeiramente paulista. Minha tendência é forçar o R. Como o pessoal do norte de Minas tem o sotaque ligeiramente baiano, a diferença torna-se bem nítida.

  • Hiago. Tem alguém em sua casa agora? – apareceu Tchely, repentinamente, abraçando seu travesseiro.

  • Não! Você quer dormir lá? – perguntou Hiago.

  • A casa de Hiago é uma pensão? – perguntei, sem grosserias.

  • Sim! Quando aqui em casa está barulhenta demais, vamos para a casa dele, para dormir. É um silêncio tão bom! – respondeu Vívian.

  • Eu estava dormindo em meu quarto, mas acordei por causa da conversa de vocês. – disse Tchely.

  • Estamos falando tão alto assim? – perguntou Vívian.

  • Um pouquinho! – respondeu Tchely.

  • Pode ir lá! Toma minha chave! – E Hiago entregou a chave à mulher.

  • Larissa, disse ao Álisson que o levaria para tomar aquele sorvete que tanto gostamos. Você quer ir?

  • Sim! Vou só arrumar meu quarto e vamos até lá.

  • Você também vai, Hiago? – perguntou Vívian.

  • Com esse aí? – ele me olhou de cima a baixo – Não, obrigado!

Larissa foi para seu quarto. Acompanhei-a e Hiago também. Deitamos na cama dela e os dois começaram a conversar tranquilamente, quando eu voltei a intrometer.

  • Não sei como você o aguenta! – disse Hiago à Larissa.

  • Ela já se acostumou. Não vê que ela virou sua amiga? – respondi à altura.

  • Eu não estou em seu nível! – ele retrucou.

  • Precisa abaixar muito a idiotice para isso acontecer! – continuei.

Sem hesitar, ele pegou meu braço direito, virou-me contra o colchão e me prensou com seu joelho em minhas costas.

  • Repete se você for homem. – ele esbravejou.

  • A ignorância te deixou surdo? – provoquei, enquanto ele me apertava com mais força.

  • Prensar-me é muito fácil! – continuei – Eu não tenho força, sou bem magrelo. Quero ver você pegar alguém do seu tamanho.

  • Hiago, solte-o. Você está machucando. – Larissa disse, séria.

  • Então manda esse idiota parar de me implicar. – ele falou, nervoso.

  • Acostume-se comigo. Sou assim mesmo. – Dei-lhe um leve tapa nas costas e saí do quarto.

  • Depois conversamos, Larissa.

Hiagou despediu-se e foi para a casa. Ri de mim mesmo. Nem eu sabia o que estava fazendo.

Vívian apareceu na sala. Perguntou-nos se estávamos prontos. Partimos. Passeamos rápido pela cidade e já estávamos na sorveteria.

  • Hoje é por minha conta! – E Vívian nos pagou uma rodada de sorvete.

Já estava anoitecendo quando chegamos. Larissa sentia uma leve ardência em seu corpo. Hiago aparecera novamente.

  • Larissa, tenho umas laranjas lá em casa. Você quer ir para lá?

  • Sim, claro! Não estou me sentindo tão bem. Talvez um pouco de ar me deixe um pouco melhor.

  • O que você tem?

  • Acho que estou com um pouco de febre, mas vamos! Quer ir também, Álisson?

  • Ah! Tudo bem!

Dirigimo-nos para a casa de Hiago. Fomos até a varanda e nos sentamos no sobrado. O sobrado não tinha qualquer cerca, portanto era fácil alguém cair de lá e se esborrachar no chão a mais de cinco metros. Sentei-me no meio dos dois.

Hiago nos trouxera um pequeno balde cheio de laranja e duas facas. Cheguei a pensar que aquelas facas seriam úteis para que ele pudesse me assassinar, mas, ao olhar para baixo, percebi que aquela não seria a única forma.

Larissa não sabia descascar uma laranja, por isso fazíamos torcida para ver se ela conseguia tal ato. Entre uma ferida e outra na pobre fruta, ela nos contava:

  • Certa vez, falei para as meninas que não sabia descascar uma laranja. Brunna olhou para mim e disse bem assim: “Está na hora de você aprender”. Sempre tive vontade de responder coisas como: “É que não fico perdendo tempo com coisas inúteis como essa, fico tentando aprender coisas que eu vou precisar mesmo, como bioquímica”.

Rimos. Larissa não perdia o sensor de humor, mesmo no estado em que ela se encontrava. Sua febre estava cada vez mais alta e seu nariz já começava a escorrer.

  • Brunna é muito burra. Ela estava mal em bioquímica e eu me ofereci para ajudá-la, mesmo que não precisasse de nota. Então, Flaviana disse a ela que precisava muito estudar biofísica e ela preferiu ajudá-la. Aconteceu que Flaviana desistiu de estudar e Brunna não estudou nem uma e nem outra. Resultado: Se ferrou nas duas! Tenho vontade de dizer a ela: “Vai, trouxa! Quem mandou?”.

  • Um dia ela aprende! – comentou Hiago.

  • E mesmo assim você se compromete a ajudá-la? – perguntei-lhe.

  • É porque eu sou trouxa! – respondeu Larissa.

Eu estava terminando de descascar minha laranja. Como aquela era uma faca bem melhor que a outra, era a mais desejada. Por isso, Hiago me pediu de volta.

  • Pra quê? – perguntei-lhe.

  • Vou matar você! – ele respondeu, sem mudar seu semblante.

  • Você é muito burro, Hiago! É mais fácil você me jogar daqui de cima. Vou morrer e você ainda pode fazer parecer um acidente.

  • Olha! Sabe que é uma boa ideia? Você é bem inteligente! Quer que eu te empurre agora? – perguntou-me.

  • Não! Agora não! Deu muito trabalho descascar essa laranja, então me deixe terminá-la primeiro!

  • Tudo bem, mas não demore.

Parecia uma trégua entre nós dois. Talvez fosse o efeito da Laranja.

  • Você parece ser legal! – disse-me Hiago.

  • É! Só pareço! Não se engane muito com isso. – Respondi-lhe.

  • Larissa, você quer dormir aqui em casa hoje? – Hiago perguntou.

  • Pode ser. Só vou para casa tomar banho, vestir uma roupa, pegar minhas cobertas e travesseiros e subo para cá.

  • Combinado então!

  • Você vai dormir aqui também, Álisson? – Larissa me perguntou.

  • Ah… – resmunguei.

  • Se não quiser, não precisa. Você dorme lá com os cachorros. – continuou Larissa.

  • Pensando bem… Como você está se sentindo, Larissa?

  • Nada bem.

  • Quer que eu te ligue para ver se você melhora? – perguntou Hiago.

‘Ligar?’ – pensei.

  • Pode ser! – respondeu Larissa, rindo.

Então, Hiago pegou seu celular e começou a discar para o número. Uma música japonesa começou a tocar.

  • Alô? – disse Larissa atendendo.

  • Oi, Larissa! Aqui é o Hiago. Tudo bem?

  • Tudo bem e você? – Larissa continuou.

  • Tudo bem! Onde você está? – perguntou Hiago.

  • Ah, estou aqui numa sacada, de frente para a minha casa. E você?

  • Ah, estou aqui na sacada da minha casa, mas não estou vendo você. Acena.

  • Acenei. Você viu? – perguntou Larissa.

  • Não! Estou acenando de volta. Viu? – perguntou Hiago.

  • Também não!

  • Quer vir aqui?

  • Sim, claro! Vou desligar o telefone e já estarei aí em menos de cinco segundos. Até mais, beijos!

  • Beijos! Ah, oi Larissa! Demorou! – disse Hiago, após desligar seu telefone.

  • Esse trânsito está uma loucura, menino!

  • O que vocês estão fazendo aí?

Era Tchely. Surgira do portão de casa, olhou para nosso rumo e nos viu ali na sacada. Hiago aproximou-se mais da beirada da sacada e gritou:

  • Estamos chupando laranja!

Percebi que Hiago estava bem na ponta da sacada. Meu coração gelou. Tentei puxá-lo para trás, mas como o garoto estava muito pesado, não consegui.

  • Quer vir até aqui nos acompanhar? – perguntou Hiago.

  • Hiago! – continuei puxando – Você vai cair desse jeito!

  • Não, obrigada! – continuou Tchely.

  • Tchely, pegue minha câmera e tire uma foto nossa daqui de cima! – gritei.

Tchely entrou. Quando voltou, segurava uma câmera semiprofissional. Bateu três fotos nossas:

  • Cuidado aí em cima! – e voltou para casa.

  • Com o quê? – Hiago questionava, enquanto um homem caía do andar de cima.

  • Hiago, vou voltar. Não estou me sentindo muito bem. – disse Larissa, colocando a mão na testa.

Ajudamos Larissa a voltar para o apartamento e, de lá, fomos para casa. Hiago ainda demorou alguns minutos, pois tomaria um banho antes de descer. Em casa, Vívian cozinhou uma sopa para a garota.

  • Que mãezona você arrumou, hein? – comentei à Larissa.

Mas, isso não impediu que ela regurgitasse a laranja dentro do lixo.

  • Vomita mesmo, minha filha! Que isso vai te fazer bem!

Quando Hiago apareceu, foi direto ao quarto de Larissa e deitou em sua cama. Para implicar, deitei-me na mesma cama e o empurrei para o colchão, onde Larissa estava deitada. Ele logo foi tirando sarro:

  • Pelo menos agora estou do lado de Larissa, bobo.

Então, ele pegou o lixo e viu uma bela imagem.

  • Credo! O que é isso? – Perguntou incrédulo.

  • Ela vomitou! – respondi-lhe.

Para mostrar seu bom estado, Larissa colocou em seu mensageiro instantâneo a seguinte mensagem pessoal: ‘Nada melhor que ficar doente em véspera de Expomontes. Uhul!’. Hiago aproveitou a ocasião para responder a todos que perguntavam que ela estava grávida. E de mim. Tinha pena da pobre criança.

Distante, a campainha tocava. Uma, duas, três vezes. Vívian logo desconfiou:

  • Álisson, acho que alguém está tentando tocar nossa campainha. Vai lá ver para mim, por favor.

Fui lá pra fora. Um pouco distante, um garoto de boné sentava-se na calçada. Olhei fixo para ver se me lembrava dele. Assim que me viu, ele foi logo perguntando:

  • A casa de Larissa é aí?

Era Erick. Estivemos juntos noite passada, mas eu não me recordava de sua fisionomia. Para não parecer mal-educado, pedi-lhe que entrasse.

  • Larissa não está muito bem. Está deitada.

  • Larissa, o que você tem? – Erick foi logo perguntando ao vê-la deitada.

  • Febre, dor no corpo, vômito. Acho que é virose, “doença de médico”.

  • Deu algum remédio para ela tomar? – perguntou Erick.

  • Não temos nada aqui! Vou levá-la amanhã para a policlínica! – disse Vívian.

  • Ou a uma funerária. Tem tantas aqui! – disse-lhes.

  • É! Parece ser uma boa ideia! – disse Vívian, pensativa.

  • Vai para a aula amanhã? – Erick perguntou à Larissa. – Sabe que tem prova de Cris, né?

  • Acho que vou pedir a ela que me dê uma prova semana que vem, caso não melhore. Não estudei nada! – disse Larissa.

  • Larissa, João está online! Quer que eu peça a ele para fazer seu toolbox?

  • Quero.

“Claro que posso fazer pra ela, Vívian. Assim que terminar darei um pulinho aí e entrego!” – respondeu João, por mensageiro.

  • Enquanto isso, vocês não querem ir buscar uns pães para fazermos cachorro quente? O Álisson ainda não conhece meu cachorro quente democrático!

Topamos ir. Erick, Hiago e eu caminhávamos pela cidade, passávamos por passarelas e rotatórias. Mesmo que eu não tivesse andado muito por aquela cidade, o caminho percorrido era quase sempre o mesmo.

  • Na minha terrinha, dez horas da noite a cidade já está dormindo. Você não encontra ninguém na rua depois disso. E aqui?

  • Seis! – disse Erick, brincando.

  • Olha para essa passarela! Essa é a passarela de desfile de modas. O pessoal compra uma roupa, veste e passa por essa passarela a noite para ficar se exibindo. – disse Hiago.

  • E quando será nossa vez? – perguntei.

Após uma longa caminhada de quase cinco minutos, chegamos à padaria. Entramos e fomos todos educados:

  • Boa noite!

  • Boa noite!

  • Boa noite!

  • Boa noite! – respondeu a caixa.

  • Boa noite! – respondeu o dono da padaria.

  • Boa noite! O que vocês vão querer? – perguntou a padeira.

  • Cachorro quente a um real e cinquenta! – exclamei.

  • Quantos pães vamos pedir? – perguntou Hiago.

  • Vívian te deu quanto? Cinco reais? Compra tudo em pão! – brinquei.

  • Cinco reais de pão, por favor! – pediu Hiago.

  • Ele está de brincadeira, não está? – perguntei a Erick.

  • Homem! A mulher vai te fritar vivo se você gastar tudo em pão! – disse-lhe Erick.

  • Mata nada! Pode encher a sacola.

  • Ele é sempre assim? – perguntei a Erick, mas o garoto só riu. – Você é de onde?

  • Ouro Preto.

  • Sério? Tenho vontade de conhecer. Qualquer dia desses apareço na sua casa e você me mostra a cidade por completo.

  • Pode ir à vontade.

  • Caramba, aqui também tem maracujá nativo! – exclamei novamente.

  • Obrigado, senhora! Vamos embora, pessoal!

E lá fomos nós. Hiago carregava um saco lotado de pães.

  • Estou te falando que a mulher vai matar você!

  • Vai nada!

Seguimos para casa. No caminho, percebia que, dificilmente os carros eram de Salinas.

  • Olha! Esse carro é de Belo Horizonte! – exclamei.

  • Esse não é o carro daquele nosso professor? – Erick perguntou a Hiago.

  • Esse mesmo. – Hiago respondeu.

  • Ah, isso explica! Olha só, esse também é de Belo Horizonte! – continuei.

  • Esse também é de um professor nosso.

  • Ah! Você está de brincadeira comigo!

Era difícil de acreditar que os dois carros da capital eram de dois professores deles. Tão difícil quanto acreditar que, nesse momento, um cara descia rolando a tal passarela da moda.

Em casa, como previsto, Vívian queria matar Hiago por seu exagero. Para compensar, Erick assumiu o gasto por completo.

  • Aqui, Vívian! Pode deixar que o gasto fica por minha conta.

  • Não, Erick! Você é nosso convidado.

  • Sem problemas, mulher! Pode deixar que eu pago.

Enquanto Vívian aceitava o dinheiro de Erick, eu provava o tal cachorro quente democrático.

  • Como aqui Larissa, Hiago e Letícia são vegetarianos, temos que fazer essas comidas diferentes para poder agradar todo mundo. – explicou Vívian.

Era uma mistura de salsicha e soja, para agradar carnívoros e vegetarianos. Um gosto um tanto exótico, mas que valia a pena experimentar.

Já estava bem tarde e João ainda não havia aparecido. Ele havia se enrolado com o resumo da prova que estava fazendo.

“Como Larissa está?” – perguntava João.

“Em estado terminal!” – respondeu Vívian.

“Se ela morrer, eu a mato. Esse toolbox está me dando muito trabalho!” – continuou João.

  • Larissa, João disse para você não morrer agora, pois ele está fazendo seu resumo. – gritou Vívian.

  • Ok, então! Vou deixar para amanhã! – gritou Larissa.

“Vívian, tem algum problema se eu entregar uma xérox ao invés do original?” – perguntou João.

“Acho que não tem problema não. Cris é de boa, se ela não aceitar, vamos amarrá-la e tudo fica resolvido!”. – disse Vívian, que repetiu a conversa para Larissa escutar.

  • Amarrem-me com ela, por favor! – gritou Larissa.

  • Vamos te amarrar e te jogar num rio! – gritou Vívian.

  • Querem ajuda? – perguntei.

“Vívian, diga à Larissa que está muito tarde. Levarei os resumos amanhã, se ela não se importar. Enquanto isso, vou tentar terminar aqui. Até amanhã!”

E eles se despediram. Vívian contou o caso de João à Larissa, para que ela pudesse se tranquilizar.

Como estava tarde, Erick e Hiago se despediram de nós. Larissa preferiu não dormir na casa de Hiago por razões óbvias. Deixariam para outro dia. Respirei mais aliviado por não ter que aturá-lo por mais algumas horas, mesmo que ambos estivessem dormindo. Com isso, encerramos a noite. Amanhã seria um dia mais agitado.

Mas, o que havia acontecido com a gata xadrez do começo do capítulo? Finalmente encontrara seu caminho de casa, pegando carona com o mesmo motoqueiro. Para seus filhotes, levou um pedaço de pão amanhecido e tiveram um delicioso jantar.

3 comentários em “Mais ou Menos Salinas (3)

  1. 1º – Champi nao dorme no quarto de Larissa, ela é MINHA cadela e nem entra no quarto de Larissa!

    2º – Neeeemmm dou tanto remédio assim…

    3º – Mais uma vez, faltaram as fotos! hauhauahuahauhau

    4º – É “cumer” democrático pq tem pra todos os gostos, dona Larissa! Vc tava delirando de febre e não notou, mas a soja tva separada da salsicha! – Mas, se bem q, direto faço umas coisas bizarras como carne de boi, porco, peixe, frango e SOJA (todos unidos, juntos e felizes, como uma linda e grande família, só pelo fato de achar a união uma coisa liiiindaaa e muito “bunita”!)

    5º – A comida de Brunna é ótima! Saudável e no ponto (de servir pros hipertensos..hauahuahua), gostei da comidinha dela!

    6º – Mãe minha é bem mais gostoso de dizer…

    7º – O jeito como vc fala do banho em Alice, a Soc. Prot. dos Animais me processará! Exageradoooo!!! Nem é assim, ela nem se importa, eu nem grito com ela. Nossa relação é tranquila, harmoniosa e equilibrada.

    8º – Sim, os donos de pet shop odiarão Larissa eternamente! hauhauahuauh

    Adorei… aguardo os próximos capítulos, Larissa no hospital e as placas bizarras, nosso passeio de jaleco, o Happy Hour…ixiii..tem bobagem d+ anda! auhauahuauha

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  2. Vamos aos comentários do dia…

    Comentário 1:
    “- Ah, mas a nossa é uma fazenda! – ela continuava.”

    Quando eu digo que o IFNMG é uma fazenda, é elogio xD

    Comentário 2:
    Donos de pet shop me odiarão…

    Comentário 3:
    E eu sento nos bancos mais altos nos ônibus em bh pq eles destacam! os outros são iguais, não tem pq eu ficar pensando em qual deles sentar, então eu vou direto pro diferente xD Pq ser diferente é normal xP

    Comentário 4:
    “- Realmente! A comida não tem sal! Não vou mais me casar com ela!”
    E aqui acabou todo o encanto… hauahuahua

    Comentário 5:
    ” ncidente que não pode ser evitado um mês depois, quando Paulinha jogou açúcar na batata frita no lugar do sal. Mas, isso é uma história que contarei em outra ocasião.”

    E novamente eu fui cobaia…

    Comentário 6:
    “Além disso, estarmos vivendo tão longe um do outro contribuía para que nosso amor ficasse cada vez maior, pois era assim que gostávamos de ter o outro: distante.”

    É por isso que nosso relacionamento dá certo x] hauhauhau

    Comentário 7:
    – Brunna é muito burra. Ela estava mal em bioquímica e eu me ofereci para ajudá-la, mesmo que não precisasse de nota. Então, Flaviana disse a ela que precisava muito estudar biofísica e ela preferiu ajudá-la. Aconteceu que Flaviana desistiu de estudar e Brunna não estudou nem uma e nem outra. Resultado: Se ferrou nas duas! Tenho vontade de dizer a ela: “Vai, trouxa! Quem mandou?”.

    Eu diria que você conta o caso sem dar nome aos bois, mas você conta o caso dando situação e nomes errados aos bois huahauhauu

    Comentário 8:
    “Era uma mistura de salsicha e soja, para agradar carnívoros e vegetarianos. Um gosto um tanto exótico, mas que valia a pena experimentar.”

    Esses são os pratos mais sem sentido do mundo. De que adianta colocar carne e soja num mesmo prato, quando a intenção do vegetariano é não comer carne? Não vejo nada de democrático nisso, mas, como você deve ter notado, a República Conosco não é muito normal, não…

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