Capítulo 4: No centro da cidade

  • Ó linda Princesa! Finalmente te encontrei.

  • Ó, meu doce e honorável cavaleiro. Estou muito feliz que você tenha vindo me resgatar.

  • Ó linda Princesa. Você tem um lindo par de olhos caramelos.

  • Ó, meu doce e gentil cavaleiro. Chegue mais perto de meus lábios para receber o encantado beijo de uma donzela.

  • Ó linda Princesa. Parece que estou sentindo seus úmidos lábios por toda a minha face. E cada vez mais, e cada vez mais, e cada vez mais…

  • Champignon! Pare de lamber Álisson agora! Você quer pegar alguma doença infecciosa?

Novamente aquele despertador soava irritantemente às seis da manhã. Apesar de ter tido um belo sonho, fui despertado por um pequeno cachorro amarelo que lambia todo o meu rosto, naquela manhã. Mas, eu não queria sair de lá por nada.

  • Larissa, eu acordei?

Ao ouvir isso, Larissa me jogou um pesado travesseiro em meu rosto.

  • Tenho certeza de que agora sim!

Era um sinal de que Larissa já havia melhorado um pouco desde ontem. Ou, apenas buscou um pouco de energia para me jogar aquela almofada. No mesmo instante, Vívian aparecia no quarto, apenas enrolada na toalha:

  • Oi, meu bem. Você melhorou?

  • Ah, agora estou um pouco melhor. A almofada que Larissa me jogou é bem pesada.

  • Estou falando com Larissa, dá licença? Eu quero mais é que você se lasque! – resmungou Vívian.

  • Tenho um pouco de dor no corpo, a febre não abaixou completamente. – respondia Larissa, colocando a mão em sua testa.

Vívian adentrou aquele cômodo cor-de-rosa, mesmo sem qualquer veste por baixo daquela roupa de banho, colocou a mão na testa de Larissa, parou por um instante e lhe perguntou:

  • Vai para a aula?

  • Vou sim. Hoje tem prova e o nosso amiguinho sorridente João deve ter feito meu resumo. Não posso fazer uma desfeita dessas com ele.

  • E se ele não tiver feito o resumo? – perguntei.

  • Ele descobrirá qual a sensação de ser afogado numa privada. – Larissa respondeu, sem alterar o tom de sua voz.

  • Você está bem melhor, hein! – disse Vívian – Vou tomar um banho. A água do café já está no fogo. Por favor, fiquem de olho para mim.

Quando Vívian saiu do quarto para o banheiro, Larissa e eu fomos até a panela e a encaramos por bons minutos. Então, Vívian apareceu na cozinha, ainda de toalha:

  • O que vocês estão fazendo? – perguntou ela, incrédula à cena de dois bobocas quase queimando seus rostos na água fervente.

  • Foi você quem pediu – respondemos em uníssono.

Vívian, violentamente, nos tirou daquela panela e começou a mexer a água da panela com uma colher de chá.

  • Mexe que mexe, remexe mexe, que mexe, remexe mexe – eu cantava, batendo palmas, enquanto Vívian rebolava com uma das mãos na cintura e um sorriso no rosto.

Ding dong! A campainha tocava. Como uma boa visita, fui atender. Ao passar pela sala, Brunna saía de seu quarto, já uniformizada e com uns cadernos nas mãos.

  • Bom dia! – ela me cumprimentava com seu sotaque ligeiramente baiano.

  • Ai, para de me chamar de baiana. Que saco! – disse Brunna, ao narrador da história que, por acaso, sou eu.

  • Bom dia, Brunna! Vai só de calcinha pra faculdade hoje?

Brunna se assustou com o comentário feito e olhou para as pernas:

  • Engraçadinho!

Ela estava de calça sim, mas uma brincadeira pela manhã não faria mal a ninguém. E se ela tivesse trajada daquele jeito, eu não me importaria.

  • E Tchely? Onde está? Aaaah! – estava eu conversando com Brunna enquanto abria a porta, quando vi o rosto de Hiago e gritei assustado.

  • Bom dia, Assombração! – disse ele – Larissa está aí?

  • Não! Ela morreu! – Disse-lhe, fechando a porta em sua cara.

  • Ai, que menino grosso! – disse ele, enfurecido, abrindo a porta novamente e me empurrando contra a parede. – Qualquer dia desses, vou dar um murro bem nessa sua cara desproporcional para ver se ela fica melhor.

  • Vai dormir, Hiago! Ninguém te chamou aqui não! – disse-lhe, impaciente.

  • Os incomodados que se mudem. – Ele respondeu.

  • Eu não moro aqui, quer que eu me mude pra onde? – continuei.

Ainda impaciente, ele me empurrou novamente e dirigiu-se à cozinha. Fui logo atrás.

  • Bom dia Larissa, Vívian, Brunna! – Cumprimentou Hiago as três, que já estavam tomando café com bolachas amanhecidas que eram de Letícia.

  • Larissa, eu juro! Eu tentei segurar a manada, mas um elefante me jogou contra a parede e escapou de mim. – Comecei a falar antes mesmo de entrar na cozinha.

  • Vocês dois ainda estão brigando? – Vívian me perguntou, secamente.

  • É impossível não brigar com esse acéfalo. – Falei irritado.

  • Antes acéfalo que desnutrido. – Hiago retrucava.

  • Pelo menos eu não fico torrando a paciência dos outros. – Continuei.

  • Está torrando a minha! – Ele continuou.

  • Porque você torrou a minha primeiro! – Continuei.

  • Eles são sempre tão carinhosos assim com o outro? – Perguntou Brunna, sussurrando à Larissa, enquanto tomava mais um gole de seu café.

  • Não, nem sempre! Só quando se encontram. – disse Larissa, apreciando a cena.

  • Porque você não volta pra onde veio? – falou Hiago.

  • Impossível você voltar, já que Minas não tem mar! – continuei.

  • Eu vou pro bar! – cantarolou Vívian.

  • Cansei! Vamos parar vocês dois e vamos embora pra faculdade. Se quiserem continuar brigando, faça como toda pessoa normal e briguem no ônibus. E depois na sala de aula. Mas, temos que ir! – gritou Larissa.

Aquela gritaria havia cessado, mas as faíscas que saíam de nossos olhos, em direção ao outro, era perfeitamente nítida.

Saindo de casa, fomos até o ponto de ônibus. No ponto seguinte, apenas Letícia subiu. Todos estavam estranhando a ausência de João.

  • Pelo amor de Deus, me responda! Onde está nosso amigo de sorriso eterno? – perguntou Larissa, chacoalhando Letícia.

  • Ai, filha! Você está me machucando. Você está falando de João?

  • Não, estou falando de Antônio. Claro que é de João! Quem mais sorri o dia inteiro?

  • As duas olharam para o resto do ônibus e viram que todos estavam olhando para elas irritados.

  • Deu uma louca no João hoje e ele resolveu ir mais cedo. Disse que precisava entregar uma encomenda. Eu não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso. – disse Letícia.

  • Eu espero que ele esteja com a minha, ou pagará muito caro! – disse Larissa.

Quando chegamos à faculdade, um garoto desconhecido gritava para todos que ali passavam:

  • Quem quer pó, quem quer pó? Bem baratinho! Na minha mão, um real o quilo. Moça bonita não paga, mas também não leva. Quem quer pó? Pó, madame?

  • Não, obrigada! – disse uma grã-fina que passava por ali com seu poodle, apenas para fazer essa fala na história.

  • Cola pra prova, cola pra prova, apenas cem reais! – gritava João do outro lado.

  • Eu quero, eu quero! – dizia o pessoal, enquanto pegava a cola das mãos de João e entregavam uma nota azul com uma imagem de garoupa estampa em um dos lados.

Após a dispersão, Larissa, Vívian, Brunna, Hiago, Letícia e eu o ladeamos e continuávamos a caminhar em direção à sala.

  • Um para cada um. Não reparem que é uma xérox – disse João, enquanto entregava uma folha para cada um.

  • A professora vai aceitar isso? – perguntou Vívian.

  • Ai, filho! Você deveria ter feito à caneta para todo mundo. Cris não vai aceitar essa coisa! – Resmungou Letícia, enquanto eu tentava virar a folha por todos os lados para tentar entender o que ali estava escrito.

  • Gente, gente! João teve muito trabalho ontem a noite, fazendo um para nós todos, inclusive para o burro do Álisson que não está sabendo nem de que lado é a folha. Dá aqui, energúmeno!

E Larissa virou a folha de cabeça certa para mim.

  • Então, temos que parar de criticar João e agradecê-lo pelo enorme esforço que ele nos fez! – continuou Larissa.

  • Obrigado! – respondeu João com um sorriso, esperando um abraço coletivo.

  • Se a professora não aceitar, matamos João. Simples assim. – terminou Larissa, sendo aplaudida por todos, exceto por João e, por mim, que ainda me concentrava naquela folha cheia de informações malucas.

  • Quero isso não, João. Tudo que eu preciso para a prova já tenho guardado na cabeça. – disse-lhe, entregando a folha. Esnobe, não?

  • Eu que tanto trabalho tive para xerocar essa mer… – disse João, rasgando a folha em mil pedacinhos. E, dessa vez, ele não estava sorrindo.

Continuamos a andar pela sala. Dessa vez, todos fariam provas na sala da agronomia. Como era um costume estranho daquele instituto, ao passarem por um caminho de terra e chegarem ao saguão de acesso às salas, uma turma de professores entregou-lhes uma bota de couro para que eles pudessem calçar. Enquanto calçavam, ficando na mesmo posição em que Napoleão perdeu a guerra, alguns funcionários do instituto passavam e metiam-lhes fortes tapas em suas bundas. Larissa e João chegaram a cair no chão, Hiago deu dois socos na cara de um zelador e Vívian deu um de seus gritos, seguidos de gemido:

  • Ai, delícia, volta aqui, volta! – dizia ela, enquanto o secretário geral saía correndo pelo mato, arrependido do que fizera.

Na porta, duas alunas, de 25 anos e que ainda estavam no colegial, tentavam atrapalhar a entrada de todos:

  • Primeiro ano? Naquela sala onde está aquela professora super gata! – dizia a primeira.

  • Consegue ver aquele professor ali só de sunga? – dizia a segunda, que olhava o professor mordendo os lábios.

  • Garota, o professor está completamente vestido! – dizia o aluno que tentava passar pelas meninas.

  • É porque ele ainda não me viu. – continuava a garota a admirá-lo.

Enquanto meus estimados amigos tentavam colocar a segunda bota, e recebiam mais tapas, eu analisava a relação de alunos matriculados e suas respectivas salas de prova. Estava me lembrando daqueles tempos de ensino médio, em que todos eram sorteados em uma sala em épocas de semestrais. Para dar uma melhor imagem, passei o dedo por toda aquela folha, como se tentasse encontrar meu nome escrito ali:

  • Ei, garoto. Pare com isso. Você está tirando toda a tinta do papel. – uma professora me chamara a atenção.

Realmente, por onde eu passei o dedo, a folha estava em branco. No meu dedo, as letras que eu havia tirado do papel.

  • Álisson, já vamos fazer a prova! – disse-me Larissa.

Então, todos nos dirigimos para a sala de aula, em fila indiana. Letícia comandava o grupo, seguido de Vívian, Hiago, João, Brunna, Tchely (que, novamente, não sabemos como foi parar ali), Catarina, Larissa e eu. Todos foram entrando um a um para onde Cris os aguardava. Quando eu ia entrando, Cris bateu a porta em minha cara, deixando-me de fora.

  • Muito bem, crianças! Espero que tenham feito todos os trabalhos que eu pedi. Também devo dizer que hoje, somente hoje, vocês poderão utilizar o text box. Agora, vamos às regras da prova. Por favor, olhem para o quadro.

Todos olhavam atentamente as três regras básicas que estavam no quadro.

  • Regra número um: Não pode falar, gritar, bocejar, dançar, pintar um quadro ou desenhar uma caveira na prova e indicar que sou eu.

  • Uma vaca pode, não pode? – sussurrava uma das garotas para a outra que concordava.

  • Regra número dois: Não pode desrespeitar a regra número um.

Todos presentes bateram suas mãos na testa.

  • E regra número três: quem for pego colando, terá o cabelo colado.

  • Ohh! – todos gritavam em uníssono.

  • Muito bem, quando eu contar até três, vocês podem começar. Quem tiver alguma dúvida, levante a mão que eu irei até a carteira de vocês. Vamos lá: um, dois…

  • Professora! – disse Arthur, levantando a mão.

Então, Cris foi do início da sala até o fundo, onde Arthur estava.

  • Pois não, meu jovem? – disse ela arregalando os olhos e tirando de seu rosto seus óculos invisíveis.

  • Então, podemos começar a fazer a prova? – perguntou Arthur, encarando-a.

  • É claro que sim, meu jovem. – continuou a professora.

  • Runf! – Resmungou Arthur.

  • Algum problema? – perguntou a professora.

  • Eu adoraria começar a fazer a prova, mas uma coisa me impede. – continuou Arthur, ainda mais desanimado.

  • Não quero desculpas! Pode fazer sua prova – disse a professora irritada.

  • Mas, professora… – tentou argumentar Arthur.

  • O que foi? – perguntou a professora o encarando mais de perto.

  • Você não nos entregou a prova. – respondeu Arthur.

Por uns instantes, a sala fizera silêncio. Ela o olhou por alguns segundos, levantou seu corpo, recolocou seus óculos invisíveis e por alguns instantes ficou ali parado, observando o garoto do cristalino. Então, Cris virou-se e foi até a mesa, pegou as provas e…

  • Quem quer fazer provas? – disse ela animada, enquanto jogava as provas para o alto.

Todos se levantaram alvoroçados e foram pegar as provas que caíam no chão, gritando. Tchely, Letícia e Catarina chegaram a disputar no tapa uma das folhas, mesmo sabendo que na mesa da professora ainda havia várias, intactas.

Já sentados, organizados, e com suas folhas amassadas de prova na mesa, os alunos começavam a pensar e rabiscar o que sabiam.

Cris andava por toda a sala para ver o que cada um de seus pupilos faziam e para evitar quaisquer tentativas de cola. Alguns não conseguiam evitar, como Davi, que estava com a cola na mão. E depois, a cola estava na boca.

  • Menino, para com isso! Vai grudar sua língua! – dizia a professora, tirando a cola da boca do garoto.

A professora continuou andando, rumo a sua mesa. João aproveitou o momento e sussurrou para Vívian, que se sentava à sua frente:

  • Vívian, a resposta da dois, qual é?

Vívian ainda não havia chegado nessa questão. Estava empacada na primeira questão que era de V ou F. Mas, para ajudar seu grande pequeno amigo, ela resolveu pular de questão. A questão era: “Se você comer muito açúcar, corre o risco de ter…”.

Ninguém na sala tinha certeza da resposta correta. Muitos pensavam que era algo como “dor de barriga”. Apenas Vívian sabia a resposta correta. Por isso, ela resolveu ajudar.

  • João, João. Psst!

Então Vívian começou a se apontar. João não estava conseguindo entender. Desconfiada de ter ouvido algum barulho, Cris olhou por toda a sala vistoriando. Vívian aquietou-se rapidamente.

  • Vívian! Qual é a resposta da dois? – Insistiu João ao ver que Cris se virava.

Vívian continuou se apontando. João não conseguia entender. Mas, todo aquele movimento começava a despertar o interesse na sala, pouco a pouco. Algumas pessoas perguntavam a João, apenas mexendo os lábios:

  • O que ela está fazendo?

  • Ela está me dando a resposta da número dois! – Respondia João, sem emitir som.

A professora continuava de costas. Vívian levantou-se da cadeira e começava a se apontar, olhando para João. Neste momento, a sala inteira já estava prestando atenção na nossa amiga. Vívian percebendo que estava sendo atração, indicou o número dois nos dedos e começava a se apontar. Todo mundo entendia que ela estava passando cola, mas não entendia o que ela estava querendo dizer se apontando daquele jeito.

Vívian, impaciente, arrastou todas as cadeiras do meio da sala para algum lugar e começou a dançar ali mesmo. Batia palmas e rebolava, remexia o corpo, arriscava uma dança do ventre e até pôs uma espada na cabeça. Depois, começou a dançar funk dançando até o chão.

  • AH! – Gritava João Pedro.

  • O que foi? – perguntou Camila, que se sentava em sua frente.

  • Pense bem. Os movimentos, Vívian… A resposta é sexo! – sussurrou o garoto.

Camila ficou muito feliz com a resposta e escreveu na prova. Alguns ainda não haviam entendido. Então, Vívian pendurou-se num candelabro que tinha no meio da sala (a escola toda ainda possuía uma decoração de tempos antigos) e começou a dançar sobre ele. Então, todos iluminaram suas cabeças e escreveram sexo como resposta, com exceção de Letícia, que escrevera loucura, João, que ainda não havia entendido nada e Larissa, que aproveitava o momento para vomitar.

Vívian pulou do candelabro. O barulho que seus pés fizeram ao tocar o chão chamou a atenção de Cris que se virou repentinamente. Ela via apenas uma sala comportada, fazendo sua prova. Vendo que não era nada de mais, Cris resolveu ignorar o barulho. Vívian conseguiu se sentar bem a tempo em sua carteira, assim como todos os alunos arrastados pela garota conseguiram colocar a tempo suas cadeiras de volta ao lugar. Questão de milésimos de segundos. Foi aí, que…

  • Atchim!

  • Quem foi? – disse a professora virando-se.

Quando Cris se virou, o candelabro se despencou na cabeça Ítallo, que tentava se concentrar em sua prova, quieto.

  • Você está bem? – perguntou Cris, preocupada, após retirar o candelabro de mais de 30 quilos da cabeça do garoto desacordado.

  • Diabetes, João! – sussurrou Vívian, aproveitando o momento de distração.

João ainda ficou um tempo tentando entender o que Vívian dissera. Enquanto aquilo matutava sua cabeça, ele tentava fazer outras questões.

Por outro lado, Larissa continuava não muito bem. Tentava responder primeiro as perguntas de alternativas para se livrar de um grande peso.

Nesse momento, Cris ligava de seu celular para a diretoria da escola:

  • Por favor, peçam para o pessoal da enfermaria dar um pulinho na ala da agronomia, setor B, sala 3, número 418, rua do matagal. Venha depressa que o garoto está morrendo!

  • Estamos a caminho. – respondeu a voz do outro lado.

Cris desligara. Enquanto esperava, ela passava pelas mesas para verificar os textboxes dos alunos, certificando-se de que não havia problema com nenhum deles.

  • O que a senhora está fazendo, professora? – perguntava João Marcos.

  • Primeiro, que senhora é sua mãe. Segundo, vendo se tem alguma pessoa que tirou xerox do textbox, não é, senhorita Larissa?

Larissa apresentou um sorriso amarelo.

  • Posso saber o motivo disso, dona Larissa?

  • Primeiro que dona Larissa é sua mãe… – começou Larissa.

  • Como é que é, mocinha? – perguntou Cris, com um tom de raiva.

  • Err.. quer dizer… é que eu estava doente, então João me ajudou.

  • Então, você estava doente? – perguntou a professora, enquanto continuava a analisar a folha de resumos.

  • Sim! – respondeu Larissa.

  • Que bom! – disse a professora na maior naturalidade.

  • Que bom? – perguntou Larissa, enquanto o resto da turma caía na risada.

  • Ops! Quer dizer. Que bom que você está aqui na sala, melhor, fazendo a prova. – disse a professora, sem graça, enquanto a turma continuava a rir.

  • Meu pai do céu! – exclamou João alto pela sala.

Cris devolveu a folha à garota, que lhe perguntou:

  • Professora. Sei que não vou me dar bem nessa prova, pois estou muito mal. Não estou conseguindo raciocinar direito. Quero saber se posso fazer a prova de recuperação semana que vem, já que amanhã viajaremos para Montes Claros.

  • Ah! Você não quer fazer provas porque vai viajar. Bonito, não?

  • Não tanto quanto as pernas de Paula Fernandes, professora. – gritava uma voz no fundo da sala.

Então, Cris parou para olhar suas pernas descobertas.

  • Tudo bem. Ouçam todos! Quem for fazer a prova de recuperação, pode vir semana que vem. Amanhã estarei por aí, em qualquer matinho, para entregar a nota de vocês.

  • Hmm.. Matinho! – zoavam alguns alunos.

  • Quero dizer, em algum lugar no instituto. – A professora tentava consertar, envergonhadíssima.

  • Você entendeu o motivo de ela ter falado matinho de primeira? – sussurrou Hiago para Letícia.

  • Olha, acredito que ela esteja querendo fazer um sexo bem selvagem com o primeiro aluno que ela encontrar. – disse Vívian, intrometendo-se na conversa.

  • Era minha vez de responder, sua tapada! Eu quase não apareço nessa maldita história e você ainda rouba minhas participações? – esbravejava Letícia para a garota.

Subitamente, o chão da sala se abriu, bem no rumo de Letícia, que caía num lugar profundo, sem destino, desconhecido. Enquanto ela caía, dava um grito bem alto, ouvido por todos, mas ignorado. Não me perguntem o porquê de isso ter acontecido. Também não me perguntem quem teve essa brilhante ideia de fazer isso. Eu só sei que foi assim (assovia).

Quando o chão se lacrou, todos voltaram a fazer suas provas. Todos, exceto Larissa, que, como não se sentia nada bem, resolveu entregar a prova com algumas questões em branco. Quando analisou novamente, percebeu que apenas quatro questões estavam em branco. De seis! Que progresso!

  • Aqui, professora. Não estou me sentindo muito bem.

  • Ah, mas você respondeu quase todas, muito bem! – elogiava a professora.

  • Não, professora, eu deixei… – tentou dizer Larissa.

  • Não, menina, não seja boba! – dizia a professora, enquanto começava a completar as respostas que estavam em branco. – Você respondeu todas e muito bem! Aposto que você nem vai tirar uma nota tão ruim assim. – Ela continuava a falar, enquanto apagava uma das respostas de Larissa, que havia marcado A, sendo a resposta correta a letra E, marcada pela professora.

Enquanto Larissa tentava sair da sala honestamente, eu estava dando outras voltas pelo instituto. Passei por caminhos que, no dia anterior, ainda não havia passado. Tudo porque aquelas garotas não paravam de encher o saco. Não o meu, mas de todos que passavam.

  • Nossa, você viu aquela bota horrorosa daquela menina que estava ali?

  • Menino! O que aconteceu com o seu cabelo? Parece que foi eletrocutado!

  • Olha aquela vaca! Com aquele sorrisinho, sei muito bem dizer o que ela estava fazendo ontem a noite.

Em minha trajetória, encontrei um celular preto, antigo, no chão. Até hoje, o pessoal briga comigo por eu não ter pego e devolvido, mas vou contar a verdadeira história do que aconteceu naquele dia. Nada de mentiras. Agora vocês entenderão o que realmente aconteceu. Confiram.

Estava eu caminhando pelo instituto com uma metralhadora na mão. Como havia feito alguns amigos, enquanto caminhava, resolvemos brincar de Counter Strike de verdade naquela escola. Espalhamos algumas armas pelo caminho e montamos dois times de três pessoas. Então, a disputa foi sangrenta. Tiro para todos os lados. Quando restava apenas eu do meu time e outro do time adversário, resolvi procurá-lo nos terrenos mais baixos da faculdade. Foi aí que eu encontrei aquele celular.

  • Oh! Como brilha! – eu dizia, fascinado.

Aquele celular mudaria minha vida. Finalmente poderia conversar com qualquer pessoa do mundo que a conta jamais seria paga por mim. Era muita felicidade!

De repente, o celular tocou. Era um número desconhecido para o dono daquele aparelho. Meu coração tremia. Tudo em volta ficava escuro. Eu estava gelado. Então, o adversário apontou sua arma pra mim e gritou:

  • Chegou seu fim!

  • Agora não, imbecil! Estou tentando fazer uma cena dramática!

Arranquei-lhe a arma de suas mãos e a enfiei em seu…

  • Crianças, depressa! – gritava uma professora logo ali – Ou vocês perderão a revisão para a prova de amanhã.

Enquanto as crianças ao meu lado corriam, o celular não parava de tocar. Abri-o e coloquei em meu ouvido. Foi quando, uma voz assustadora disse:

  • Sete dias! – era uma voz feminina, mas assombrosa.

  • Não está. Quer deixar recado?

  • Recado? Estou dizendo que você só tem sete dias!

  • Sete dias pra quê, moça?

  • Pra morrer! – dizia ela, rindo maleficamente.

  • Sei, mas eu ou o dono do celular, porque ele não está neste momento.

  • Não quero saber! São sete dias e ponto final.

  • Você já disse isso, não sabe dizer outra coisa não?

  • Você irá morrer! E eu voltarei para buscar sua alma.

  • Olha só, eu não sei quem é você e outra… Ah! Só um minuto, meu celular está tocando. Alô, Larissa? Oi, você já terminou sua prova?

  • Sim, onde você está?

  • Estou perto. Já chego. Beijos!

Voltei ao outro telefone.

  • Eu preciso desligar minha amiga está me esperando. Beijos gatinha, se cuida!

  • Espere…

Ao perceber o que eu havia feito, coloquei o celular de voltar ao lugar e saí correndo. Como se isso fosse adiantar alguma coisa. Agora vocês conseguem entender perfeitamente minha situação, não é mesmo? Hein? Respondam!

Voltei até a ala da agronomia, e lá estava Larissa. Contei-lhe tudo o que havia feito e ela me contou o que havia acontecido em sala.

Continuamos andando em direção ao pátio. Alguns colegas continuavam a caminhar conosco após fazerem as provas. Flaviana, quando viu Larissa e após cumprimentá-la, foi logo informando:

  • Agora é oficial. Amanhã sairá um ônibus daqui do instituto que nos levará para Montes Claros. Voltaremos sábado à noite. Três professores nossos irão.

  • Quando ele sairá?

  • Onze horas da manhã. Não se atrase, ou você irá se perder!

  • Obrigada! – agradeceu Larissa, enquanto Flaviana corria.

Então, paramos. De longe, Vívian aparecia com seu cigarro na mão, ao lado de João, sorridente.

  • Pelo sorriso, foi muito bem na prova. – Perguntei.

  • Não, com certeza peguei recuperação na prova de hoje também. – E continuou ele lá sorrindo.

  • Vívian, qual a graça que você vê em fumar? – perguntei.

  • Eu não fumo pra rir! – disse ela, enquanto me baforava na cara.

  • Eu sim!

Tentei tirar o cigarro de suas mãos para fazer uma demonstração, mas logo fui recebido com um tapa na mão, deixando-o cair.

  • Galera, o ônibus sairá amanhã. – Larissa anunciou.

  • Eu não vou poder ir nesse ônibus. Como vamos fazer para nos encontrarmos? Ficarei perdido naquela cidade! – resmunguei.

  • Larissa, precisamos ver isso. Talvez se falarmos com o professor Gabriel, conseguimos uma brecha no ônibus para ele. – disse Vívian.

  • Ou, ele também pode amarrar uma corda na rabeira do ônibus e ir de skate. – sugeriu João.

  • Vou pegar o lugar de João. Com nosso tamanho ninguém vai notar a diferença. Basta pegar apenas um pouco de sol. – disse, ironicamente.

  • E eu vou de quê? – perguntou João, confuso.

  • De bicicleta! – peguei uma torta de espuma que estava ali no chão, misteriosamente, e acertei em sua cara, derrubando-o na lama logo em seguida.

  • Seu monstro! – disse Letícia, de longe, ao ver a cena, derrubando-me logo em seguida. – Joãozinho, você está bem? – Letícia estava chorosa.

João tentava recuperar seu ar, ainda sorrindo:

  • Sim! Estou muito bem. Obrigado.

  • Então, trate de ficar mal pra cena ficar mais dramática! – disse Letícia raivosa, voltando a jogar João na lama.

Levantei-me da lama, neste momento.

  • Letícia, o que você está fazendo? Não sabe que essa é uma camiseta de grife?

Todos olharam para mim céticos.

  • Quanto custou essa camisa, filho? – perguntou-me Letícia.

  • R$ 9,99! – Respondi com um sorriso amarelo.

  • Vamos embora daqui. – Sugeriu Letícia.

Esse era o grupo: as meninas (Letícia, Larissa e Vívian) conversando lá na frente, enquanto eu e João, lamacentos, tentávamos tirar o excesso que nos cobria. Repito o que disse: Tentávamos.

Mas, quando passamos pelo pátio, algo triste aos olhos de Larissa chamou-lhe a atenção. Na parede, vários cartazes estavam fixados sobre o tema “homossexualidade”. Muitos deles, contra.

  • Veja só isso: “A homossexualidade vai contra as leis de Deus!”. E essa outra: “A religião jamais permitiria a união entre duas pessoas do mesmo sexo. Isso quer dizer que um bom fiel cristão jamais deveria se permitir a tamanha heresia.”. Que absurdo! – Era o que Larissa exclamava.

  • E o que você pretende fazer? – perguntou João.

  • Eu poderia muito bem arrancar esses cartazes daqui. Não é uma coisa legal um instituto federal, como esse, pregar a homofobia!

  • Na verdade, o que eles pregaram foram cartazes. – disse Camila, que havia acabado de entrar na conversa.

  • Não, eu não falei isso! – disse Larissa que, ao ver que Camila estava rindo, fechou a cara.

Ignorando aqueles cartazes, lá foi a turma dirigir-se para o mesmo lugar que todos os universitários (ou sei lá como eles atribuem esse nome para alunos de institutos federais) se reúnem nos intervalos: naquele lugar pequeno, que não tem nem cadeira para se sentarem, mas que tem um pequeno buraco que dá acesso à moça que vende salgados congelados.

Quando chegamos, Vívian pegou um de seus cigarros da carteira, colocou na boca e o acendeu. Catarina foi até mim, e apontou para uma das manchas de minha camiseta:

  • O que é isso?

Olhei para baixo, e ela fez um movimento de sobe e desce com a mão no meu rosto, como aquelas brincadeiras de criança.

  • Fui tapeado! – Falei alto para alguém sentir pena de mim.

A turma da veterinária começou a se reunir mais uma vez. Para não ter qualquer problema, Arthur não se esqueceu de seu cristalino, dessa vez.

Eles estavam empolgadíssimos mais uma vez sobre o evento de exposições que estava acontecendo em Montes Claros, denominado Expomontes. A turma atualizava-se com outras informações, como as palestras que teríamos no primeiro dia, como se reuniriam para o show de Paula Fernandes e quais os pontos de parada antes de irmos embora.

Cada vez mais, eu ficava aflito. O combinado era Larissa e eu irmos de ônibus, mas tudo ali já parecia mudar. Como eu não era nenhum aluno de veterinária, era mais que correto que eu não fosse com eles no mesmo ônibus. Entretanto, Vívian estava disposta a me ajudar, mas nada ainda estava certo.

Um pouco afastados do grupo, Larissa, João, Letícia e eu nos aproximamos do lanchinho, como no dia anterior. João, mais uma vez, pediu seu salgado de frango congelado. Larissa preferiu não pedir nada, mas, para seu azar, a vendedora reconheceu seu rosto logo de cara:

  • É você? – perguntou ela com uma entonação de assustada.

Larissa, que ainda estava de costas, tirou os óculos e virou-se, completamente vesga:

  • Perdão, o que disse?

  • Não adianta disfarçar! – e a vendedora enfiou um dedo gorduroso em seu olho, fazendo-os voltar ao normal. – eu queria te pegar ontem, mas, por culpa desse magricelo…

Ela olhou para mim e para João, tentando apontar para um culpado, mas não conseguia estabelecer nenhum.

  • Qual dos dois magricelos me empurrou ontem? – perguntou ela, confusa.

  • Foi ele! – apontávamos um para o outro, simultaneamente.

  • Bem, não me importa. Pois, vou é acabar com a raça dessa branquela nanica.

  • Não me chame de nanica! – Larissa, furiosa, tirou seu salto alto de bico fino e o atirou contra a mulher. Novamente, saímos correndo. A mulher, furiosa, tentou escapar novamente pelo mesmo buraco, mas foi impedido por Vívian, que a empurrou de volta, repetindo o trágico episódio do dia anterior. Vívian também foi correndo.

  • Esperem! – Larissa gritou, fazendo João e eu pararmos. Vívian nos alcançou. Sentamos em frente à biblioteca do instituto, quando Larissa continou: – Alguém viu Letícia?

Alguns minutos depois, lá estava ela, gritando euforicamente:

  • Larissa, olha só o que eu fiz!

Letícia aparecia sorridente, com um pedaço de cartolina amassado na mão e mostrou à garota.

  • Ah! Não acredito! – gritou Larissa, exaltando de felicidade. – Você tirou esses cartazes homofóbicos da parede. Obrigada!

Larissa levantou-se e a abraçou fortemente, logo sendo correspondida. Os olhos de ambas brilhavam.

  • Para comemorar isso, teremos uma cena homossexual em nosso livro? – perguntei aos outros que viam a cena das duas garotas abraçadas.

Pulando para a cena seguinte e deixando o leitor curioso sobre o que acontecera, encontramos Hiago vindo ao nosso encontro. Como Larissa ainda não estava recuperada completamente, resolvemos ir embora para ir à Policlínica.

  • Você não está doente, Larissa. Fica aí fazendo charminho para termos pena de você. – Vívian disse, soltando a última remessa que o cigarro lhe proporcionara no rosto de Larissa.

Subimos no ônibus. A professora do dia anterior, novamente, saía correndo de sua sala para tentar alcançar o ônibus. Como a cena foi a mesma do dia anterior, vamos ignorá-la para não termos que pagar um cachê maior (já que o salário dos atores aqui mencionados já geram alta despesa para mim, o escritor).

No ônibus, Vívian e Hiago sentavam-se na primeira fileira, Larissa e eu na fila imediatamente posterior. Hiago e eu ainda não havíamos acertado todas as contas, portanto o clima continuava carregado.

  • Não sei o porquê de você estar aqui. Deveria ter ficado no instituto para ver se não toma nenhuma bomba. – Impliquei.

  • Eu sei que você sentiu minha falta! – provocou Hiago.

  • Claro que senti. Eu sempre me inspiro em você! – continuei.

  • Sério? – ele perguntou.

  • Claro! Eu sempre penso: “Se não me cuidar, ficarei como ele”.

  • Imbecil! Idiota! Insuportável! – ele me xingou.

  • Engoliu o dicionário, hein? – disse.

Eu sabia que, depois daquilo, o diálogo morreria. Aproveitei o momento de hiato para tirar algumas fotos no ônibus com Larissa, mesmo doente. Vívian virou-se para trás e colocou a mão em sua testa.

  • Você não está tão mal assim.

  • Coloca a mão na minha testa também, Vívian? – pedi-lhe.

  • Eu quero mais é que você se lasque! – ela me olhou com cara de desprezo e voltou ao seu lugar. Ouvi uma risada por parte de Hiago.

Já estávamos entrando na cidade. Para quebrar aquele gelo, comecei a cutucar o braço de Hiago.

  • Hiago! – continuei cutucando, ao perceber que ele me ignorava.

  • Ai, o que é que é? – perguntou-me irritado.

  • O que você vai fazer agora? – perguntei-lhe.

  • Nada, por quê? – ele continuou.

  • Quero conhecer muito a cidade, mas Larissa está doente. Poderíamos dar uma volta por aí, o que você acha? – perguntei-lhe.

Hiago pensou bastante. Ele não queria atender àquele pedido de forma alguma, não tinha motivos para isso. Mas, como ele gostava muito de Larissa, estando esta doente, ele resolveu aceitar esse encosto.

  • Tudo bem! Só vou para casa tomar banho, trocar de roupa, passar protetor, alimentar Lanna e já passo na casa de Larissa.

  • É! Já vi que hoje eu não saio de casa. – exclamei.

O ônibus parara. Apeamos e rumamos para a Policlínica Salinense. Após passarmos por um imenso jardim e descermos uma rampa, entramos em um lugar que parecia ser a primeira sala de espera, minúscula por sinal. Na fila, quatro pessoas. Uma delas, uma idosa a ponto de morrer.

  • Número 214. – gritava a balconista.

  • Vou pegar um número, me esperem! – disse Vívian.

Sentamos os três naquele banco desconfortável com o encosto gelado da parede. Enquanto Vívian esperava uma das atendentes verificar qual era o último número que ela havia escrito, Larissa dirigia-se ao banheiro, unitário.

Eu já vira hospitais pequenos, mas não como aquele. Sentia-me quinze anos mais jovem, quando ainda morava numa pequena cidade com pouco mais de 10 mil habitantes.

Já desistindo de procurar, a atendente resolveu escrever o número 246 para Vívian, que foi se sentar ao lado da velha em estado terminal. E lá foi ela, tirar mais um de seus cigarros da carteira para fumar. Larissa (que já havia voltado), olhou irritada para Vívian, apontando para a idosa. Vívian olhou para o lado, quando viu a velhinha:

  • Oi, dona Carmélia! Como você está? Que saudades da senhora! Vejo que a história está muito bem. Parece estar bem mais jovem.

Entre algumas tossidas e escarros, a senhora dizia, lentamente, mostrando um olhar seco e triste:

  • Eu… estou… me… sentindo… muito… cof, cof!

  • Ah, parece que algo não está lhe fazendo bem. A senhora parou de fumar? Eu disse a você que aquilo era um veneno.

  • Número 213! – gritava a balconista. Parecia que a única função dela era essa.

  • Uai, retrocedeu? – perguntei.

A jovenzinha parecia irritada quando se dirigiu ao caixa.

  • Desculpe, moça! – disse a balconista, tentando consertar o erro – eu acho que pulei um número.

E lá foi a moça, desaparecer pelo corredor.

  • Ah! Olha Larissa, que gracinha! Ela dormiu.

Larissa, ao ver o estado da velha senhora, que aparentemente dormia, arregalou os olhos e foi logo conversar com a atendente:

  • Por favor, senhora. Deixe-me passar na frente.

  • Não! – disse ela secamente.

  • Por fav… Ah! O que aconteceu com você, menina? Parece mais magra desde a última vez que te vi.

  • Ah! Que isso! É que agora estou tomando um novo produto que minha médica passou. É uma formosura! Se quiser eu passo pra você. Cá entre nós… – agora ela sussurrava – Você realmente está precisando!

  • Ah, obrigada! Você é muito gentil! Então? Para onde eu vou mesmo?

  • Naquela sala! Tenha um bom dia!

Conseguindo passar a perna, lá fomos os quatro para o fim daquele corredor. Entramos numa porta. E… Adivinhem: entramos na segunda sala de espera. Dessa vez, com mais de vinte pacientes.

  • Tudo bem. Os homens eu dou um jeito – disse Vívian sussurrando para o nosso lado e, depois, alterando o tom de voz, chamando a atenção de todos que estavam presentes – Quem quer fazer sexo comigo? – dizia ela, abrindo os braços.

Foi um tiro no pé. Ao invés de homens correrem atrás dela, um monte de mulheres fez o papel. Não para o que vocês imaginaram, mas para bater nela mesmo, já que todas elas eram as esposas dos homens que se encontravam por lá. Vívian fugiu.

Alguns minutos depois, Larissa foi chamada. Ficando na sala, além dos pacientes figurantes da história, é claro, apenas Hiago e eu. Entretanto, apesar de esperarem que mais uma briga ocorresse, um longo silêncio entre nós prevaleceu. Para acabar com o tédio, Hiago puxou seu celular do bolso e começou a jogar. Como sou vidrado nesses joguinhos, independente de plataforma, resolvi sentar-me ao seu lado e colocar o cabeção bem no meio da tela do celular, impedindo-o de jogar.

  • O que você está jogando? – perguntei-lhe.

  • Acerte o cabeção. – disse ele, empurrando minha cabeça para o lado. Uma senhora, próxima a nós, observava a cena rindo.

  • Não é assim que joga não, seu burro! – tomei-lhe o celular das mãos e comecei a jogar.

  • Grosso! – disse ele tomando o celular de minhas mãos. A mulher continuava rindo.

Prensei-o na parede. Nesse momento esqueci que estávamos em um hospital.

  • Vocês dois são irmãos? – A mulher que ria nos perguntava.

  • Infelizmente sim! – disse-lhe.

  • O médico enganou-se com ele e, ao invés da placenta, jogou o bebê fora! – continuou Hiago.

  • Eu sempre pedi para papai adotá-lo para outra família, mas ele nunca quis. – continuei com aquilo.

  • Dona Noely? A senhora é a próxima! – chamou a atendente.

  • Tchau, meninos! Adorei conversar com vocês! – E lá foi ela, sorridente.

Quando ela se foi, Hiago e eu nos olhamos por alguns instantes e caímos na risada. Nem nós havíamos entendido o que acontecera ali. Será, por fim, uma trégua?

Já até pensava em fazer as pazes, até que o idiota ligou a câmera de seu celular e tirou uma foto minha. Aquilo me deixou possesso. Novamente, estava eu tirando o celular de suas mãos tentando apagá-la.

Enquanto Hiago tentava me impedir de tal ato, Vívian aparecia naquela sala, ofegante.

  • Caramba! O sexo foi violento, hein! – exclamei.

  • Que nada! Aquelas velhas correm muito! Álisson, eu preciso muito da sua câmera. Não sabe o que eu vi! – disse ela, exaltada.

  • Não! Você ainda não me disse! – comentei.

  • Na sala em que Larissa se situa, há muitos cartazes e banners com palavras grafadas incorretamente. Preciso registrar em imagem estática para publicar em rede social. – explicou Vívian.

  • Você comeu jiló? Por isso que está aí falando tão difícil? – perguntou Hiago.

  • Aqui está! – disse eu, tirando a câmera do bolso. – Mas, antes de você sair, preciso te falar algo a respeito da minha câmera.

  • Pode dizer! – Vívian prestava bem atenção.

  • Esse botão liga e esse tira foto. – Fui apontando.

  • Palhaço! – e recebi um tapa na cabeça – Logo volto. Esperem aí!

“Esperem aí”. Para onde ela estava achando que iríamos?

Voltando para sala, lá estava a médica, jovem, 32 anos, solteira, lindos olhos azuis e de busto volumoso, a perguntar sobre o estado de Larissa.

  • Então, você me disse que estava chupando uma laranja de Hiago e vomitou, certo? – perguntou a médica peituda.

  • Sim! – confirmou Larissa.

  • Muito bem! Quem é Hiago? – perguntou a médica.

  • Larissa, Larissa! – chegou Vívian, eufórica.

  • Ela é Hiago? – perguntou a médica, apontando.

  • Sim! Ela é Hiago! – confirmou Larissa, séria.

  • Hiago, você poderia me dizer que espécie de laranja era essa que você deu para a nossa amiga João? – perguntou à Vívian, fazendo um belo papel de médica.

  • Não, não! Você não entendeu. João é o magrelo que me vendeu uma cola para a prova de Cris. Eu sou Larissa. – consertou.

  • Muito bem, Srta. Hiago. Você não tem vergonha de permitir sua filha João de colar na prova não? – continuou a médica com seu questionário.

  • Que filha o quê? Veja se eu sou mãe de um estrupício como esse! – Vívian sentia-se mal com tal comentário. E Larissa do comentário de Vívian.

  • Eu entendo. Nesse caso…

A médica levantou-se de sua cadeira e abriu a janela às suas costas.

  • Adeus mundo cruel.

Víamos apenas uma mulher atirando-se da janela, enquanto gritava. Entretanto, antes que ela pudesse se jogar, passou alguns minutos tentando passar pela janela, já que um de seus peitos havia se prensado em alguma parte daquela janela. Depois de se jogar, outro médico apareceu em seu lugar. Esse não era peitudo.

  • Oh! O que aconteceu com a mulher? – perguntaram Larissa e Vívian preocupadas.

  • Ah, não se preocupem. Quando a coisa aperta, ela sempre faz isso. Veem? Da janela para o chão não há nem 50 cm!

  • Fofoqueiro! – gritava a médica pela janela, indo embora logo após.

  • Então, Larissa. Vamos aos remédios. Você me disse que estava sentindo febre, dor, ânsia de vomito e diarreia, não é isso?

  • Diarreia não! – consertou Larissa.

  • Muito bem. Você sabe que isso é virose, não é mesmo?

Larissa deu um sorriso amarelo.

  • Olha, doutor. Cuidado com os remédios que você passar a ela. Muitos elas não pode, pois ela não bate bem da cabeça. Fugiu do manicômio há pouco tempo, então, ainda está se recuperando.

Larissa começava a rir como uma retardada.

  • Entendo. – Analisava o médico.

  • Certa vez, encontraram um amigo dela boiando na privada. Tudo isso porque ele disse a ela que seu dente havia caído lá.

Larissa continuava a rir da mesma forma. O médico apenas observava atentamente as expressões de Vívian.

Também não deve deixar de mencionar que até semana passada, ela estava tomando remédios de tarja preta.

Larissa ainda ria.

  • Muito bem! Vou receitar alguns remédios simples para você. Onde é que está?

Enquanto o médico procurava em sua gaveta alguma coisa, Vívian aproveitava para tirar fotos dos erros ortográficos que se encontravam naquela sala.

  • Aqui está! – o médico colocava uma receita já pronta em cima da sua mesa.

Larissa pegou a folha e começou a ler.

  • Não. – disse Larissa, calma.

  • Não o quê? – perguntou o médico, curioso.

  • Não entendo nada desses rabiscos que você escreveu aí. – continuou Larissa.

  • Não? Minha letra é tão perfeita! Como você não entende? – questionou o médico, perplexo.

  • Não ligue para ela! – disse Vívian. – Vamos embora, Larissa. Depois eu decifro essa coisa. Me liga! – disse ela, fazendo sinal de telefone para o médico.

Quando as duas voltaram à sala de espera, lá estava o pessoal amontoado, tentando apartar a briga que acontecia: Hiago e eu, como sempre.

  • Eu odeio você, seu gordo imundo! – gritei de um lado.

  • Vai chupar prego, seu magrelo desnutrido! – ele gritava de outro lado.

Larissa, ao ver a cena, foi ao nosso encontro, já gritando:

  • Vamos embora para casa agora!

Olhamos um para a cara do outro. O pessoal já nos soltara, mas ainda por perto, para evitar qualquer outra eventualidade.

  • Tudo bem, então.

E fomos embora, como se nada tivesse acontecido. Lá fora, fomos logo perguntando:

  • O que o médico disse?

  • Que ela é louca! – respondeu Vívian.

Enquanto rumávamos para casa, Vívian nos mostrava os erros nos cartazes. Palavras como “sombrancelha” e “rejuvenecer” eram claramente visíveis. Questionávamos o nível de graduação da pessoa responsável por isso e se era realmente confiável que Larissa fosse se tratar naquele lugar.

  • Confiável não é não. Mas, como é o único lugar que temos aqui… – respondeu Larissa.

Foi assim até chegarmos ao nosso destino. Lá, encontrava-se Paulinha, varrendo a casa novamente.

  • Paulinha! – disse eu, indo ao seu encontro, já abrindo os braços.

  • Ah, muito gentil! – e ela me entregou sua vassoura, tirou seu avental e foi para a cozinha.

  • Ah, sim! Uma vassoura – disse eu, nada animado.

Hiago já não nos acompanhava. Foi para sua casa tomar um banho. Larissa foi para seu quarto descansar um pouco. Vívian para a cozinha fazer um mingau ralo para nossa amiga.

Fui até a área onde Paulinha estava. Ela alimentava Champignon e Alice e tentava fugir do assustador Tio Lu.

  • Ai, tio Lu, larga de ser porco! – dizia ela com seus gritinhos histéricos, enquanto Tio Lu soltava seus gases com cheiro de esgoto mal tratado.

Quando finalmente todos encontraram algo para fazer, com exceção de Larissa que estava dormindo, fui para o computador e fiquei esperando por Hiago. Esperei, esperei e esperei. Lembrei-me de que estava coberto de lama e fui correndo para o banheiro, tomar um banho. Quando saio, deparo-me com aquele homem, todo suado.

  • Uau! Nem passeamos ainda e você já está nesse suor todo.

  • Gordo sua fácil! Eu não posso nem sair por um tempo que já começo a suar.

  • Também, esse sol norte-mineiro não é nada fácil! Vívian, estamos indo! – falei alto a última frase.

  • Tudo bem, meu amor. Mas, volte cedo para termos mais uma maratona de sexo! – ela disse, enquanto dirigia-se ao banheiro, dando uma piscadinha para mim no meio do caminho.

Fomos para a rua. Não deixei de notar que ele estava com uma roupa completamente diferente à roupa que ele usava de manhã. Para piorar, ele usava uma camisa branca, como a minha.

  • Tomou banho? – perguntei-lhe.

  • Sim! – respondeu-me.

  • Você nem estava sujo. E vamos sujar mais agora. Pra quê isso?

  • Eu não gosto de sair sujo assim. Eu vou para algum lugar, tenho que estar limpo. Não sou esses porcos por aí que saem de qualquer jeito.

  • Ah! Muito obrigado mesmo. Fico feliz com tal consideração.

  • Você passou protetor?

  • Não, nem me lembrei.

  • Branquinho desse jeito? Por isso que sua pele está toda acabada. Vai ficar velho logo, já até tem sinais.

Dei-lhe um tapa na cabeça.

  • Você sempre muito amável, Hiago!

  • Estou falando sério, mongol. Você não pode sair brincando com o sol desse jeito. Vai acabar desenvolvendo algum câncer!

  • Desculpe. Eu não tenho mesmo o hábito de passar. Então não vai ser de uma hora pra outra que vou acabar me acostumando.

  • Aprenda e seja feliz! – ele finalizou.

Eu ainda não conhecia bem aquela cidade, apesar de ser pequena, eu já ter andado por ela e já estar no meu terceiro dia por lá. Então, já fui fazendo algumas perguntas a Hiago, mesmo algumas sendo óbvias demais, para quebrar aquele gelo.

  • Aqui tem loja de cds e dvds?

  • Não!

  • Ah, droga! Eu adoro passear por essas lojas. Também não tem cinema?

  • Sim, claro que tem! Está passando um ótimo filme em 3D, você quer ir lá ver?

Sabia que era ironia dele. Então resolvi dar-lhe um tapa na nuca.

  • Hiago, o que vocês costumam fazer de bom aqui em Salinas?

  • Nada! Aqui nunca tem nada.

  • Epa! Um momento. Aquilo é uma livraria?

Era estranho o que eu havia encontrado de tão longe: uma livraria em Salinas. Eu precisava entrar lá para conferir. Livrarias me chamavam a atenção.

Entrei lá e foi aquela decepção: não era bem uma livraria, mas uma papelaria, com direito a materiais escolares, de escritório, decorações para casa e várias canecas do Atlético Mineiro e do Cruzeiro. Um fato interessante sobre o norte de Minas é esse: lá eles dão mais valor aos times mineiros que o pessoal do Triângulo.

Quando entramos, fomos logo olhando tudo que estava lá. Era pegar, analisar, comentar, criticar e colocar de volta no lugar. Era assim com todos os objetos por quais passávamos. Até que um rapaz, novo funcionário, chegou até nós e perguntou, educadamente:

  • Posso ajudá-los em alguma coisa?

  • Não, estamos só olhando! – dissemos aquela célebre frase.

Mesmo assim, o vendedor não parou de nos seguir, então, resolvemos incluí-lo nesse passeio.

  • Veja só, Hiago! O Banco Imobiliário! Eu costuma jogar isso quando era criança.

  • Ah, deixa eu ver. Caramba! Muito bom esse jogo!

  • E esse bichinho aqui, o que faz?

Olhamos para uns bichos de pelúcia. Alguns mexiam a cabeça, outros mexiam os braços e outros falavam: “Me larga, idiota”.

O vendedor sempre nos seguia. Sempre que perguntávamos algo, ele respondia:

  • Ah, eu não sei o que isso faz não. Ah, eu não sei, mexe aí pra ver se faz alguma coisa. Esse enfeite aí? Bom, eu também não sei para quê serve.

Era até engraçado. Ele não sabia de nada.

Também fomos à seção de times. Lá, vários bonecos de Cruzeiro e Atlético Mineiro. Como sabíamos que Larissa torcia para o Galo, fomos procurar algo para ela:

  • Ah, Hiago, mas esses bichos de pelúcia são muito feios. Ela não vai gostar de nenhum.

  • É, você tem razão.

  • A propósito, qual seu time?

  • Sou cruzeirense e você?

  • Não, eu não gosto de futebol. Cruzeiro, é? Deve ter uma briga boa com Larissa.

  • Ah, não. Não somos muito fissurados em time. Às vezes rola uma zoação, mas nada de mais.

Naquela papelaria, ou livraria, como eles gostavam de denominar, vendiam sim alguns livros. Mas, era uma pequena estante com poucos exemplares. Até meu acervo pessoal era mais rico, digamos assim.

Despedimos do vendedor e saímos. De fora, comentei com Hiago:

  • Aquele vendedor não sabe nada, não nos informou nada, mas, sei lá, eu fui com a cara dele.

  • Eu também. Ele é bem simpático. Não é sempre que encontramos algum vendedor com bom senso como ele.

  • Nem me diga! Muitos da minha cidade, quando você entra na loja, já te olham de cima a baixo.

  • Não é tão diferente de Montes Claros.

Continuamos nosso passeio. No meio da cidade, havia um mercado municipal, ou uma espécie de camelódromo. Para resumir, era onde o pessoal se reunia para vender muamba. Hiago relutou em entrar naquele lugar, mas eu precisava conhecer, mesmo que também não gostasse muito. Para se ter uma ideia, até hoje tenho receio de entrar no camelódromo, denominado Shopping Popular, da minha cidade.

  • Vamos, Hiago! Eu quero conhecer.

E lá fomos. O cheiro era terrível. Incrível imaginar como ainda havia aqueles que conseguiam comer lá dentro. Eu teria feito vômito.

Depois da área de alimentação, porque dizer praça é um equívoco, víamos perfumes, pulseiras de relógio, bijuterias, utensílios domésticos e até alguns eletrônicos do Paraguai. Ladeando aquele mercado, algumas lojas de roupas com vendedoras nas portas que nos chamavam para entrar:

  • Venham, venham! Tudo muito barato, roupas bonitas, calçados confortáveis. O preço ó! Lá embaixo.

Ela precisava mesmo ter enfatizado que aquilo estava uma pechincha.

Depois do mercado, entramos em várias outras lojas. Lojas de enfeites para a casa eram as preferidas de Hiago. Entrávamos, analisávamos e esperávamos os vendedores falarem sobre o produto. Para finalizar, sempre ouvíamos:

  • Se vocês levarem agora, divido em três vezes no cartão, tudo sem juros. Produto de qualidade. Muito baratinho!

E sempre respondíamos com a mesma frase:

  • Não! Não temos dinheiro. Nem trouxemos a carteira. Estamos só olhando. Mas, viremos da próxima vez e levaremos alguns.

Voltar da próxima vez. Para mim, o vendedor teria de esperar eu voltar mesmo para Salinas. Sabe-se lá quando isso aconteceria novamente.

Também entramos naquelas lojas de presentes, que vendem jogos de tabuleiro.

Ao chegarmos à praça dos bancos, a mesma em que Vívian dançara sensualmente, Hiago perguntava se eu não gostaria de tomar um sorvete. Pedi um pouco de tempo. Subimos num coreto e lá conversamos um pouco sobre a vida. Naquele instante, nada de briga, nem discussões. Tudo entre nós estava em paz.

E para comemorar, fomos até a padaria próxima para tomarmos um sorvete. Como eu preferia picolé, resolvi pedir. Hiago fez o mesmo. Naquela cidade, só existia uma marca de sorvete, a “Kigelado”. Algo bem criativo, como vocês podem notar.

  • Uau! Que gelado esse picolé! – dizia uma das crianças que passava.

Continuamos andando. Quando estávamos quase chegando ao fim da cidade (deveríamos ter andado menos de dois quilômetros). Encontramos algumas pracinhas. Eram pracinhas bonitas, mas não muito arborizadas, o que fazia falta. Aproveitamos para descansar um pouco, sob aquele sol escaldante.

  • Hiago, até que você não é uma pessoa ruim. Estou gostando desse nosso passeio.

  • É! Você também não. Você é um pouco menos chato do que eu imaginava.

Ri um pouco. Trocamos o número de nossos celulares e após mais alguns minutos de conversa, voltamos a andar. Alguns caminhos eu queria conhecer, mas Hiago sempre me dizia que nada tinha por lá, então resolvemos ir embora. Será que ele queria me esconder algo?

Ao nos depararmos com uma loja de roupas resolvemos entrar, mesmo ainda com aquele picolé na mão. Fui olhando as roupas, pegando-as com a mão suja mesmo. Então, se você, meu amigo, morador de Salinas comprou uma roupa dessa loja e viu uma mancha marrom no tecido, não se preocupem: é mero detalhe da roupa mesmo. Ops!

Vi algumas roupas bonitas. Pena que eram todas caras. Como eu não poderia gastar tanto naqueles dias, apenas demonstrei interesse. E Hiago me acompanhava, dizendo o que ele gostava e não gostava. Alguns de nossos gostos batiam e outros não.

No balcão, havia uma foto de um modelo com uma camiseta muito bonita. Apontei para ele e comentei com Hiago:

  • Olha como essa camiseta é bonita!

  • Qual camiseta? Uau! Linda mesmo! – exclamou Hiago, ao ver a foto do modelo.

De princípio não tinha entendido muito bem aquela exclamação, mas quando olhei novamente e reparei bem na foto, comecei a rir descontroladamente. A vendedora ainda perguntou se eu não estava sofrendo de alguma convulsão.

Quando o relógio já marcava 13 horas, fomos ao supermercado. Antes de sair, Vívian havia me entregue uma lista de compras e já havia me alertado:

  • Hiago é compulsivo por ketchup. Então, se vocês passarem por algum, empurre Hiago, amarre um saco de milho na cabeça dele o expulse do supermercado.

Dito e feito. Quando entramos no supermercado, a primeira coisa que ele fez ao passar por aqueles ketchups foi colocar um no carrinho.

  • Não! Isso não vamos levar! Apenas extrato de tomate!

Levamos arroz, extrato de tomate, refrigerante, algumas frutas e verduras e um pouco de ração barata para Tio Lú, o cachorro doente. Eu notava como naquele supermercado, como alguns produtos não haviam sido lavados e foram jogados na geladeira imediatamente após terem sido tirados de suas respectivas caixas. Algo bem nojento.

  • Se eu tivesse um pouco mais de coragem, eu reclamava com esse pessoal, Hiago. É sério!

Na seção de frios, Hiago chegou a me repreender. Como ele era vegetariano, pelo menos naquele momento, chegou a discutir comigo que eu também não poderia comer presunto. Mussarela sim! Presunto, não!

  • Não vai levar isso não!

  • Hiago, eu respeito você por ser vegetariano. Respeite-me por eu comer carne! Eu não como bauru sem presunto!

  • Bauru? O que é isso?

  • Aqui vocês devem chamar de misto quente. É o pão de forma com presunto, mussarela e tomate.

  • Aqui não colocamos tomate no misto quente.

  • Muito bom saber.

  • Não interessa! Você não vai levar presunto.

  • Vou sim! Cento e vinte e cinco gramas de presunto, por favor. – disse ao “fatiador” de presuntos, que nas horas vagas também fatiava mussarela.

  • Não sei como vocês conseguem comer carne morta.

  • A carne viva é que eu não vou comer!

Depois de realizada a compra, pedimos que a entregassem no endereço de Larissa e fomos procurar algo para comer.

  • Onde você me indica para ter uma boa refeição, Hiago?

  • Lembra-se daquela padaria que fomos daquela vez com Erich?

  • Sim! Tem algum lanchinho lá perto?

  • Não! Estava falando de lá mesmo.

Quando estávamos quase chegando, Hiago apontou para uma placa do outro lado da rua.

  • Olha aquela placa ali, Álisson! Escreveram confiar com M. Olha só!

  • Onde? – perguntei.

Quando eu avistei a placa, uma manada passou bem em nossa frente. Depois, um desfile de gorilas e, por fim, um trem de ferro. Depois de toda essa mentira deslavada, finalmente consegui ler o que estava escrito:

Loja de celulares “comfiamssa”. Em nós, você pode “comfiar”.

  • É porque essa palavra vem do verbo “Com fio”, entendeu, Hiago?

  • Ah… Não!

  • Pensando bem, eu também não.

Quando rumamos para o outro supermercado para procurar o que estava faltando, nos deparamos com uma amiga de Hiago. Eles se cumprimentaram e assim foi o diálogo:

  • E aí, gatinho? Pronto para virar essa noite?

E ela passou um dedo pelo corpo dele como se o seduzisse. Eu olhava aquilo, meio de vela, sem graça. Por isso, fiquei de costas e fui vendo os carros passarem na rua. Se bem que, naquele momento, não havia passado carro algum.

Quando ela se foi, sem notar minha presença, logo fui perguntando:

  • Que intimidade, hein? Não vai me dizer que estão tendo um caso. – perguntei, brincando com aquela situação.

  • Nem rola. Ela é lésbica. – disse ele, normalmente.

  • Ah, então vocês formam um lindo casal. – Sorri.

E depois de todos aqueles comentários, fomos ao supermercado, depois comemos alguma coisa na padaria e entramos em outras lojas. Numa das revendedoras de certa marca de celular (não citarei qual para não criar qualquer vínculo), chegamos a discutir sobre um eletrônico que ele insistia comigo que não era um tablete, devido ao pequeno tamanho. Ele fez questão de perguntar para a vendedora que confirmou. Eu lá tenho culpa se aquele garoto só gostava de coisas grandes?

No final, entramos em uma daquelas lojas de perfume que tem por todo canto (não aquela que todo mundo conhece, mas uma menos conhecida), onde uma simpática e bela vendedora sentava-se atrás de um balcão.

  • E aí, vamos? – perguntei-lhe.

Hiago ainda tentou relutar para não entramos naquela loja.

  • Vamos lá! Você vai ver como é fácil tomar um banho de perfume sem pagar nada.

Enquanto entrávamos na loja, algumas pessoas apareciam na República Conosco, como Letícia, João e Izabella para fazerem trabalho. Quando perceberam que eu não estava, João e Letícia logo perguntaram para Larissa:

  • E Álisson, onde está?

  • Foi dar uma volta por nossa enorme cidade com Hiago.

  • Hiago e Álisson estão juntos? – perguntaram ambos, assustados.

Quem via de fora certamente teria a mesma reação. Como dois garotos que, até há pouco brigavam por quaisquer motivos andavam sossegadamente pela cidade?

  • Vai ver, eles precisam de um palco maior para se matarem! – concluiu João, dando mais um de seus sorrisos.

Na loja, experimentávamos alguns perfumes. Era um espirra pra lá, espirra pra cá, espirrada no olho, olho ardendo, vendedora sendo enforcada…

A cada respirada em um perfume, uma cheirada no café. Perfume um, uma cheirada, perfume dois, segunda cheirada. Como eu gostava muito de café, cheguei a ficar bons minutos cheirando aquilo.

  • Você não tem um perfume com cheiro de café não? – perguntei-lhe.

  • Como você consegue gostar de um cheiro ruim disso? – Hiago me perguntou.

  • Filho, para você ter uma ideia, quando as meninas que fazem a limpeza no meu serviço fervem água para o café, eu fico bons minutos na cozinha só para sentir o cheiro. Sou viciado! Mas, caso me pergunte, odeio tomar café.

  • Você é estranho! – ele comentou.

  • Você ainda não viu nada.

Aquela discussão também se fazia nos perfumes. Cada um com um gosto diferente: o que eu gostava, ele detestava e vice-versa.

  • Temos alguns perfumes sim com notas de café… – a vendedora começou.

  • Espera um pouco. Notas de café? Elas tocam em alguma banda? – perguntei.

  • Não, senhor! O caso não é esse…

Ela foi me explicando que cada perfume possuía determinadas notas de certos aromas até comporem o odor final. Para mim, leigo, era tudo água perfumada. Ou melhor, era “Água de Cheiro”.

  • Esse parece ser muito bom! – Pedi a ela um dos perfumes que me chamara a atenção. Ela o pegou e o espirrou em mim.

  • Não gostei desse também não. Parece essência de gambá! – reclamou Hiago.

  • É francês. Chama-se Le gambé. – comentei.

  • Mas, vocês não concordam em nada mesmo! – a vendedora comentou.

  • Quanto está esse? – perguntei.

  • Ah, não! Você não vai levar esse fedido não, né? – Hiago continuou.

  • São 56 reais. – disse a vendedora, enquanto um tijolo caía em minha cabeça.

  • É, não vou não, Hiago. Também achei muito fedido. – comentei, referindo-me ao valor do produto.

Fomos para a seção de perfumes femininos. Uns muito doces, outros com um aroma perfeito para a mulher, é claro.

  • O que você acha desse perfume? – A vendedora perguntou a Hiago.

  • Esse é muito bom! – ele comentou.

  • Então! Ideal para você dar à sua namorada! – a vendedora estava tentando Hiago.

  • Eu não tenho namorada. – disse Hiago, cabisbaixo.

  • Quando você tiver uma. – comentou a vendedora, tentando reanimá-lo.

  • Não tenho e nem vou ter. – continuou Hiago.

  • Por quê? – perguntou a vendedora meio preocupada.

  • É porque eu não gosto. – E Hiago encerrou o assunto por aí.

  • Ah, sim! – respondeu a vendedora, sorrindo sem-graça.

  • Esse eu não gostei. Eu não daria para uma namorada minha, mesmo que ela gostasse. Até porque quem vai cheirá-la sou eu! – Machista, eu? Nem um pouquinho.

  • Realmente, você tem que dar algo que agrade a você! – Disse a vendedora, tentando me passar a perna para vender o produto, enquanto quase o enfiava em minha cara.

  • Não, eu também não tenho namorada. – comentei com um sorriso meio amarelo.

Ela aproveitou para mostrar outros produtos.

  • Gostaram de algum? Vamos levar um, vamos! Baratinho!

E ela continuou a espirrar alguns perfumes, enquanto Hiago e eu discordávamos.

  • Esse é meio doce.

  • Assim é que é bom.

  • Meu Deus! Eles não concordam com nenhum! – disse a vendedora caindo na risada.

  • Queria levar esse aqui – mostrei a ela aquele mesmo perfume que Hiago tinha dito ter essência de gambá – mas, está muito caro. Não tem um mais barato não?

  • Eu tenho o desodorante. Custa apenas R$ 15,60.

  • Faz a quinze? – pechinchei.

  • Não posso. O patrão vai me matar! – ela fez carinha de ‘por favor, não faça isso comigo, eu imploro’.

“Oh!” – pensei. “Que rostinho mais bonitinho!”. Mesmo assim, não deixei me levar. Se ela quisesse me vender, teria que fazer o desconto que eu estava pedindo.

  • Já que não tem outro jeito. – e lá foi ela embrulhando o desodorante, para eu levar.

Quando saímos da loja, ainda comentei com Hiago.

  • Sabe de uma coisa? Eu nem queria comprar nada. Mas, aquele rostinho me encantou e só com a simpatia ela me ganhou. – dizia eu, nas nuvens.

  • Eu acho que ela pensou que éramos um casal – Hiago me fez despencar das nuvens em apenas um segundo.

  • Deixe isso poluir os sonhos eróticos que ela tiver. – brinquei.

Era esse o fim do passeio. Logo depois, fomos para a casa, onde os meninos continuavam a fazer o trabalho. Eu jogava Nintendo DS, no meu cantinho, enquanto os meninos proferiam palavras que, na minha opinião, eram palavrões.

  • Temos que fazer a GD, isso vale nota! – gritava João de um lado.

  • João? – puxei João para perto de mim, pela manga da camiseta – O que é um GD?

  • Grupo de discussão! – disse ele, sorrindo, mas quase caindo em mim.

  • O que você achou de nossa bela e maravilhosa cidade? – ele me perguntou.

  • Feia e horrorosa. – comentei – Mas gostei dela. Virei para cá mais vezes.

No fim do dia, tomamos um lanchinho. Larissa fez a pipoca (de micro-ondas), enquanto Brunna fazia o suco (com pó de gelatina). Para piorar a situação (vocês perceberam que nesse dia tava crítico, né?) e após Larissa queimar alguns pães de queijo, o pessoal pediu para eu preparar o café:

  • É, filho! Vai fazer o café que você não está fazendo nada! – disse Letícia, brigando comigo.

Eu poderia muito bem arrastar a cara dela no chão vermelho daquela sala, mas, não! Eu precisava mesmo atender aos pedidos dela! No final, meu café ficara doce e ralo. E o mais importante: Letícia tinha ido embora antes mesmo de provar o meu café! (Minha vingança não seria feita naquele dia).

  • Vívian, não tome o café! Ele está terrivelmente doce. Não vai te fazer bem. – Ainda alertei.

  • Tudo bem! Hmm… está uma delicia! – disse ela provando um pouco do café.

Minutos mais tarde, perguntei à Larissa se ela não tomaria um pouco, enquanto Vívian tremia como se sofresse de epilepsia, no chão, atrás de mim.

  • Não, obrigada! Estou bem desse jeito! – disse Larissa, evitando meu café, enquanto Vívian começava a ter convulsões sérias.

  • Vívian está passando mal! – gritava Paulinha.

  • Ah! – disse eu, olhando para trás e ignorando a cena completamente, voltando à Larissa.

  • Quando eu estiver passando mal, dê mais valor! – disse Vívian, levantando-se e me empurrando no chão, saindo de cena logo em seguida.

  • Alguém entendeu alguma coisa? – perguntávamo-nos.

À noite, o pessoal ainda fazia um pouco de trabalho. Hiago, em sua casa, chegou a perguntar à Larissa se eu poderia passar um pouco por lá. Relutei um pouco.

  • Estou morrendo de preguiça de subir aquelas enormes escadas – comentei.

Mas, ele insistiu, e resolvi ir para lá, mesmo depois de o relógio marcar meia-noite. Aproveitamos para ver os shows de Paula Fernandes que ele tinha gravado para treinarmos para o show que aconteceria dentro de dois dias. Como eu estava bem por fora, improvisava para cantar mesmo. Depois, aproveitamos para ouvir outras músicas e comparar nossos gostos musicais que, dessa vez, combinavam mais que os de perfume. Finalmente, nos tornávamos amigos.

Na rua, Sol continuava a vagar sem destino. Ela estava com fome e com frio, mas não com sede, após tomar um pouco da água empoçada que havia em um dos buracos. Sol já se arrependera de ter deixado aqueles cuidados que tanto lhe proporcionaram conforto, até que algo lhe fez mudar de ideia: um cachorro, alto, forte e num carrão importado. Ela entrou de carona e foi logo ordenando:

  • Pisa fundo, meu cachorrão!

  • Vamos para o baile funk, sua cachorra.

Do outro lado da cidade, a vendedora de perfumes discutia com seu patrão por ter descontado sessenta centavos do perfume que ela me vendera. Sim! Eles discutiam às três da manhã, e nem casados ou namorados eles eram. Nem sequer amigos.

Voltei para a casa muito tarde tentando fazer o menor ruído. Faltava apenas duas horas, mais ou menos, para o dia começar a clarear. Dormiria pouco para a viagem de amanhã e aquilo não seria bom. Tudo bem, essas coisas acontecem!

Quando entrei em casa, tirei os chinelos e fui andando sorrateiramente. Larissa havia me entregue as chaves, mas como as portas eram muito duras, ficava quase impossível não fazer qualquer ruído. E tudo acontecia como as Leis de Murphy: quanto mais eu tentava fazer silêncio, mais barulho eu conseguia fazer.

O escuro também não ajudava. Depois de ter feito um estrondo com a porta de entrada, bati meu dedinho no pé de uma das cadeiras de ferro que se encontravam frente ao quarto de Vívian. O barulho foi feio, mas não tanto quanto a ferida que havia aberto. Eu pulava tentando não gritar de dor, mas já era quase inevitável não terem percebido. Vívian levou um susto, mesmo não ter levantado da cama, os cachorros latiam e as três garotas, Tchely, Brunna e Paulinha que dormiam juntas, caíram da cama, uma em cima da outra, seguindo do grito de Paulinha, que chegou a ficar embaixo.

Ainda pensando que eu não havia acordado ninguém, continuei o meu caminho para o quarto de Larissa. Champignon chegou a sair do quarto para me dar uma boa cheirada. Com medo de não ouvir mais qualquer latido, decidi não fazer qualquer movimento brusco. Ao abrir a porta do quarto de Larissa, tentando parecer o mais silencioso possível, eis que a garota se mexe, aponta o celular em minha direção e acende a sua luz. Com aquela claridade, comecei a derreter.

Quando Alice começou a lamber meus restos mortais, lembrei-me de que não era um vampiro e voltei ao normal. Larissa ainda tentava identificar o ser estranho que continuava parado ali na porta, mas não se lembrava de que tinha uma visita em casa. Resolvi esclarecê-la:

  • Relaxa, sou eu!

  • Eu quem? – ela perguntou. Mas, antes que eu pudesse responder, ela já caía de sono.

Para a minha sorte, ela não chegou a pensar que era algum estuprador, sequestrador ou coisa do tipo. Talvez, se realmente fosse, ela estaria mais segura. Coitadinha!

Fui já deitando na cama, puxando lençóis, travesseiros, cobertas e empurrando os cachorros que se encontravam no meu caminho. Foram horas difíceis. Mesmo com tanto sono, só consegui dormir depois de um bom tempo. Mas aí…

  • Levanta, Álisson! Precisamos ir pra faculdade. – O novo dia começara.


4 comentários em “Mais ou Menos Salinas (4)

  1. “Voltar da próxima vez. Para mim, o vendedor teria de esperar eu voltar mesmo para Salinas. Sabe-se lá quando isso aconteceria novamente.”

    É… vai saber se isso um dia acontecerá

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