Parte de mim sombra

Depois de tanto caminhar, finalmente o encontrei. Ele se sentia só naquela rua sem movimento, numa noite fria e chuvosa. Estava usando uma jaqueta de couro branca, com uma camiseta branca, calça branca e o tênis branco. Seus cabelos tão bem alinhados, mas seu olhar se colocava assustado ao me ver. Eliminei toda voz e todo ruído para poder ser escutado. Decidido, me aproximei.

Não me lembro de quando nasci, apenas de ter sentido grande áurea negativa próximo a mim, oriunda de tanto ódio, tristeza e dor brotadas de repente. Pessoas tão amadas já não tinham o mesmo carinho, pequenas coisas ruins deixadas de lado já ocupavam um maior espaço de raiva.

Mais consciente, percebi que éramos duas pessoas dentro de um único ser. Enquanto ele era a esperança, o amor, a felicidade, eu era o a impaciência, o rancor e a tristeza. Com tanta coisa negativa acontecendo, dificilmente entrávamos em comum acordo. Aquilo nos irracionaliza e não nos permitia sair do lugar. Por isso, nos isolamos, tentando buscar um novo caminho, em comum acordo.

Mas eu era a impaciência. Não queria ceder nada. Então, cada um foi para um lado. Andei por trevas, infelicidade, por caminhos sombrios, difíceis de serem descritos. Passei um bom tempo alimentando ódio por aqueles que me fizeram sofrer, que me fizeram mudar quem eu era. Escrevi o nome de cada um para nunca me esquecer do terror que me causaram. Cada plano, cada passo, muito bem detalhado.

Mas a vingança não é o melhor caminho e eu sabia que aquele nunca foi e nunca será eu. Estava confuso, entrava em desespero, precisava reencontrar minha luz, recomeçar. Corri de volta ao início, demorei, me avistei. Meu eu-luz estava sentado no chão, sozinho, sem direção. Aproximei-me devagar. Mesmo tão opostos, ainda tínhamos uma conexão e, quando estávamos próximos, nos abraçamos, apertados.

Era uma sensação estranha. Sentia repulsa em nosso abraço. Era desconfortável, mas necessário. Ele sentia medo, eu sentia o mesmo.

“Por favor, ajude-me a fugir da escuridão que me tornei. Não vai ser fácil, mas talvez juntos possamos descobrir um meio de nos tornarmos um novamente, com todas emoções de forma equilibrada, racionalizados de que nenhuma delas vá nos derrubar daqui para frente. Eu preciso de você, não me abandone agora. Por favor, me salve. Há um grito forte de desespero entalado minha garganta”.

Parte 2 de 2 do conto

Parte de mim luz

Ele vem em minha direção, naquela noite chuvosa, onde poucos postes iluminam minha visão. Veste uma jaqueta de couro preta, uma camiseta preta, uma calça preta e tênis preto. Seu cabelo está levemente bagunçado, mas seu olhar é fixo ao meu corpo escorado em uma parede. Na rua, não há passageiros ou carros, não há vozes, não há barulhos, não há músicas.

Lembro-me de um tempo em que tentava ser feliz de todas as formas, mas tudo me frustrava. Meu primeiro relacionamento foi um desastre. Fui enganado de tantas formas que já nem me lembro como era o amor. Meus amigos apenas fingiam estar do meu lado, quando tampouco pensavam em mim. Minha família sempre desunida onde cada um só agia em benefício próprio. No trabalho, então, só decepção.

Entrei em minha fase de isolamento, fechando-me para o mundo em busca de autoconhecimento. Estava tão cansado que meus próprios pensamentos me sabotavam. Tornei-me o escuro de mim mesmo, com frases negativas e desespero. Era só tristeza e lamento.

Então, algo nasceu de mim. Correu para longe. Despareceu. Por fim, estava livre. Retomei o que havia perdido, com novos rostos, novos lugares. Tentei me adaptar à minha nova vida, respirando fundo, com novos sabores, com novas atividades. Tentei expulsar o pouco da tristeza que me restava, com poesia, com arte, com risada. Encontrei em novos amigos o que nos velhos me faltava. Parecia renascer em mim a velha felicidade.

Tentei, de diversas formas. Mas algo vazio ainda me habitava. De alguma forma, aquilo não era eu, mas nada me dava respostas. Tentei me reencontrar, mas não deu.

Foi então, naquela noite escura que vi aquele ser todo vestido de preto se aproximando de mim. Aos poucos, fui reconhecendo. Eu estava olhando para mim mesmo, com um semblante triste. Aquele meu eu-obscuro se aproximava e eu não conseguia fugir. Nem parecia ter vontade, na verdade. Ele me abraçou forte e meu peito se pôs em desespero. Ofegava forte, com o coração em ritmo acelerado. Meus olhos espantados, minha boca amarga. Tentei empurrá-lo para forte, mas ele era resistente. Então, percebi que não havia me livrado do passado.

Quando as lembranças me vieram, tudo ficou claro. No auge do meu desespero, não tentei me livrar do mal que havia me assolado. Passei por cima da tristeza, sem resolvê-la por completo. Ela se foi por um bom tempo, até acreditei estar curado.

Então, quando minha pior noite voltou, ele retornou. Quieto, calmo e forte com um abraço apertado.

Parte 1 de 2 deste conto

Ideias que moldam como você

Sinceramente não. Você me vem com um papo de tentar me convencer de suas ideias e fala que devo escutar pois é a sua a visão mais certa. Você diz, sem pestanejar, que tenho muito o que escutar, por tantos anos de experiência e sabedoria, mas há algo novo que você não consegue ou não quer enxergar. Tento humilde dizer umas palavras simples, mas você me corta rápido com duas espadas, pois minha pouca idade não é o bastante.

No início, me sentava para lhe escutar. Eram palavras fortes e imponentes que eu acreditava que me levaria a algum lugar. Aos poucos, algo foi me chamando a atenção. Seu discurso muitas vezes se repetia, mas algumas ações falhavam. Ok, tudo estava certo, afinal somos humanos e o erro já é esperado.

Então, fui crescendo e me tornei um bom observador e um bom ouvinte. Extraía certas notas em sua voz que antes não percebia. Notas em tom de um convencimento que não me agradava. Aquilo se misturou com atitudes suas que para mim não combinava. Aos poucos, aquele herói se desmanchava.

Para piorar sua situação, fui percebendo que eu só era útil quando lhe agradava. Recebi inúmeros nãos sempre que almejei crescer com sua permissão. Foi duro de princípio saber que você só fingia estar ao meu lado, saber que toda luta era em vão, pois todas as minhas vitórias, por você, eram abortadas.

E em mim, criei resistências à falsa índole que você me projetou. Tornei-me difícil, mas você seguia tentando me comprar de alguma forma. Até para meus amigos destilava suas ideias venenosas, pois sabia que seria um caminho fácil a me ganhar, mas eu não sou tolo, aprendi a seguir minhas próprias ideias. Meus princípios são fortes, meu caminho é virtude, não vai ser fácil, eu sei, mas hei de lograr meus méritos.

Agora uma coisa lhe peço, por favor. Pare de atacar meu íntimo com sorrisos disfarçados de terror, não fica bem para alguém em seu nível de poder. Você pode ter visto um monte de castelos destruídos que jamais imaginei. Mas, eu sigo construindo os meus, pois sei o que é melhor pra mim ou, pelo menos, vou aprendendo, devagar, em meu tempo, pretendendo ser muito melhor do que você.

A Herança Mais Rica

Sou filho de um fazendeiro rico, renomado, cheio de terras e cabeças de gado. A mim, nunca faltou nada, sempre pude ter de tudo em minha vida, desde os tempos em que ainda dirigia um belo e luxuoso carro – de brinquedo. Sempre gostei de andar a cavalos, mas nunca tive paciência para alimentar ou cuidar de meus próprios animais, afinal, somos ricos, temos empregados para isso.

Meu pai, apesar de toda sua grana, sempre foi um homem bem humilde, de muitos amigos verdadeiros, tratava todos bem, independente de quanto tivessem dinheiro. Para ele, todos eram como seu igual, com todos possuía boa prosa e quando algum caboclo se fazia de humilde para conseguir alguma grana do velho, logo era embevecido das sábias palavras de meu pai.

Quando este meu pai saía de manhãzinha para tirar leite da vaca e cuidar de seu plantio – sim, apesar de inúmeros empregados, ele botava a mão na massa – chegava eu todo suado da balada regrada de bebidas e pessoas que eu sabia que não me amava. Pois o importante para mim era o status que aquela High Society me proporcionava, por conta dos louros que me eram herdados.

Como era filho único, não tinha com quem competir. Meu pai vivia por suas terras, por isso, restava a mim a parte mais chata da labuta – a de gastar o verde fruto que papai me dava. Ele olhava a toda aquela cena insatisfeito, mas preferia não me proferir uma só palavra, pois ele sabia que delas se faziam ventos e sumiam para o alto das montanhas nevadas.

Mas, um dia ele reuniu forças e me pediu alguns minutos, antes que pudesse sair para outra noitada. Apesar de sempre saber quais pontos tocar com suas palavras, ele sabia que seu filho era um bicho indomado, então aquele momento sempre foi evitado. Entretanto, meu pai já estava velho e cansado e já não sentia tão bem suas pernas, mas reconhecia que era hora de me olhar no fundo dos meus olhos e me dizer tudo que ali dentro estava guardado. Então, ele começou a dizer:

— Filho, ouve bem minhas palavras. Já não tenho mais tanto tempo nesta terra e só tenho a ti para tomares conta de tudo o que tenho. Conhecendo-te bem, sei que não farás jus à herança que te deixo, sei que seguirás com tua vida de bebedeiras, farras e pessoas vazias. Seguirás por esse caminho, enquanto deixarás nossas terras nas mãos de nossos empregados. Aos poucos, tudo se findará e não terás mais ninguém a quem possa te acompanhar. Por conta disso, quero te pedir um favor.

— Tudo o que você quiser, meu bom pai.

Mesmo tão sábio, acreditava que o fim da vida estivesse começando a afetar a mente de meu pai. Ele dizia aquilo como se eu fosse gastar tudo em tão pouco tempo. Sei bem o que estou fazendo, pois já sou um homem vivido e sei me cuidar. Ele foi rumo ao celeiro, onde já não havia galinhas. Entrou, mostrou-me uma forca presa naquele teto de madeira, posto há pouco pelos próprios empregados.

— Vês esta forca? Quero que a use quando te arrependeres de tudo o que perdeste, de não ter escutado teu pai, tão pouco de não teres aprendido as coisas que tentei te ensinar. Quero que me prometas como um último desejo que te faço.

Ria por dentro. Tinha certeza de que papai já estava se entregando a seus últimos momentos, mas prometi, pois sabia que nada aconteceria à fortuna que ele me deixara. Mas, apesar de tudo, eu o respeitava e lhe homenageei da melhor forma que pude dando-lhe um funeral digno, com todos que ele amava, com a melhor banda da cidade e com flores e adornos que ele colecionava. E quando o caixão se fechou, sabia que havia sido enterrada junto a minha melhor parte.

O tempo passou. Aos poucos, o que meu finado pai me disse, foi acontecendo. A grana já era escassa, os empregados já haviam partido, os amigos já não estavam comigo, as terras não eram tão férteis. Eu, antes um belo homem, fui me desleixando da aparência, tomado por uma preocupação gigante. Dormia inseguro, com medo de o amanhã me devorar. Já não via mais sentido no que antes eu acreditava.

“Poxa, pai, foi como o senhor me disse. Todos se foram e aqui vivo solitário, sem qualquer rumo pra tomar. Se tivesse te escutado em vida, talvez tivesse sido um grande homem como você foi. Talvez eu tivesse algo pra compartilhar”.

Então, lembrei-me da forca, posta no celeiro há alguns anos pelos nossos antigos empregados. Um pouco trêmulo, fui caminhando lento por aquele pasto. Olhei ao redor e parei por um tempo. Na fazenda, não havia horta ou flores ou bichos ou qualquer sinal de vida. Suspirei de lamento pelo que o único culpado ali presente havia feito. Então, de cabeça baixa, segui para o celeiro. Abri a porta e ali estava.

O coração batia forte e a forca me encarava. Peguei um banquinho e o posicionei logo abaixo. Então, fiz o que deveria ser feito e dali pulei. Senti um aperto, o corpo entrando em desespero. De repente, um estalo. A corda estava bamba e eu estava no chão. De repente, um monte de pérolas, diamantes, rubis, esmeraldas e outras pedras preciosas caíam sobre mim. Então, vejo um bilhete no meio de todas aquelas pedras, abro e o leio:

— Aqui está tua segunda chance. Faça valer. Te amo, meu filho. Seu já finado pai.

Abri um sorriso gigante enquanto uma lágrima caía. Esse era meu pai! Mesmo depois de ter partido, era mesmo um velho sábio.

 

Texto: “Pai nunca desiste” numa nova versão, numa nova visão

Figurante de seus pensamentos

Sem reação. Corpo paralisado, sem voz, sem visão. O vento canta em meus ouvidos e me recorda o filme que vivemos. Então acordo e entro em desespero. Você era a peça que se encaixava em meu peito, mas seus passos se distanciando me mostravam que, pra você, eu não era o mesmo.

Os amigos estão mais distantes, minha família já não se lembra de mim. Passei tanto tempo viajando em nosso plano, que outros mapas foram deixados de lado. Tracei as melhores rotas para juntos explorarmos, marquei os melhores pontos de um romance tão bem imaginado.

Aos poucos, fui me perdendo, encantado pelos seus braços. Parecia tão verdadeiro, será que havia eu sonhado? Você na carência de uma companhia, com palavras iludidas. Calor do momento ou receio de perder para sempre o desejado?

Você tão indecisa em suas respostas, mas em seu roteiro já vinha em letras garrafais a palavra NÃO. Você já estava com outro alguém, mas surgiu pra mim no intervalo longo de seu romance. Eu era o estepe, o figurante, o cara pra quando não se tinha mais opção. E quando foi embora, me deixou aqui confuso, sem saber pra qual direção.

Preciso de você, mas você prefere não se importar. Tento estender meu braço para segurar o seu, mas ele não se move. Eu quem deveria te prender em minhas asas, mas você prefere seguir com quem não aprendeu a voar. Você deixou meu peito marcado, assim como o seu também está. Você tenta se disfarçar, mas o tolo que você conheceu conhece bem o que você viveu.

“Sinto muito”, é o que você sempre dizia, não pelos seus erros, como eu acreditava, mas por sua incapacidade de me amar. Agora que tudo se esclareceu entre vocês dois, não importo mais. Seu rosto segue seco, diferente do meu e as palavras, um dia ditas, permanecem apenas em mim.

Grito forte de dentro, mas as palavras não saem. O silêncio abafa forte, pois estou paralisado. Meu coração está em chamas e esta não é a primeira vez, mas eu não aprendo, não entendo, mergulho de cabeça mesmo. Esse é o meu jeito de ser.

Corri atrás, implorando pra que você pudesse reconsiderar o tempo em que vivemos juntos ou apenas para ter uma explicação dos equívocos que com você cometi, mas eu não havia percebido de que seu coração nunca me quis e, como resposta, apenas recebi um frio “vá embora”. Foi então que compreendi, sozinho, que você só esteve comigo por não ter aprendido a caminhar sozinha. Algo nunca dito entre seus beijos, seus carinhos ou na paz que você me trazia.

Estou sem reação, paralisado, sem voz e sem visão. Estou no centro de um labirinto, sem destino. “Vá embora”, me repito. Aprenda! Não é assim que se trata um bom coração.

Preciso Respirar

O dia corre aos meus olhos e eu não consigo acompanhar
Mal pisco os olhos e já sobe o luar.
Suspiro assustado, tudo tão depressa,
Todos os dias a péssima sensação
Que não faço nada enquanto a vida está a passar.

Dormir parece tão inútil,
Mas o corpo já não tem energia para tudo realizar
A mente e alma almejam, almejam e almejam
Tanta tarefa procrastinada que me ponho em dúvidas
De onde começar.

Toda segunda já penso: vou começar a me exercitar
Chega a terça, uma matéria nova para estudar
Na quarta, um evento do serviço para participar
Quinta, então, minha dieta já era! Sem forças para continuar
Sexta, dia de sair, mas ficou tanta coisa acumulada da semana
Que fico entre curtir e por as coisas em seu devido lugar.

Aí chega o fim de semana. Muito pra fazer,
Mas nada que vou executar
E aí uma semana a menos,
Eu não sei onde isso vai parar…

E o tempo vai passando
E não me deixa em paz
Vou vendo os dias passando, e eu, confuso,
Não sei qual direção devo tomar.

É tanta coisa, tanta tarefa, 24 horas num dia, sério?
É muito pouco!
E o que fica é que não faço nada
E que não tenho tempo de apreciar mais nada
Sejam coisas grandes
Ou pequenas coisas da vida
Mundo, por favor, pare de girar.

E fica, fica…
O tempo passa
Minha alma fica
Um segundo, por favor
Preciso respirar

Castelo de recordações

Era perigoso andar por esses lados afastados da cidade, numa madrugada sombria, com um céu ameaçando chover enquanto clarões de raios iluminavam o céu, mas algo me levava até lá sob alguma proposta. Não precisei vir de carro, mas a caminhada foi longa. Não possuía qualquer mapa, mas algo me dizia ser aquele o caminho. Não tinha medo.  

No fim da estrada, havia uma casa gigante, que mais se parecia um castelo. Por ali, os raios eram mais agressivos e as trovoadas me ensurdeciam. Uma parte de mim me dizia para afastar, mas outra me encorajava pra ver o que mais tinha. Um terceiro sussurro, distante, tentava me contar que aquela não era a primeira vez que estava ali. Então, me aproximei de uma porta gigante de madeira, toquei o interfone e entrei assim que a porta se abriu sozinha, rangendo. 

A sala era pouco iluminada e os outros cômodos aparentavam ser da mesma forma. No cômodo seguinte havia janelas grandes, pareciam portas flutuantes, que deixavam a luz natural dos raios entrar, revelando alguns quadros presos na parede. Com uma visão um pouco turva e com um clarão que durava menos de dois segundos, via-os rapidamente. Pareciam monstros atacando suas vítimas, visão nada agradável. 

Entrei no terceiro cômodo. Uma cadeira de madeira num pequeno cubículo, a porta pesada de ferro e nenhuma outra saída. Próximo à cadeira, uma corda e algo que lembrava uma corrente. Vi algo pequeno e estranho se mexendo no chão. Talvez, minha imaginação. 

Saí de lá, havia outro cômodo. Correntes novamente, mas presas no teto. Peguei algo no chão que parecia ter sido confeccionado em couro. Era pesado, grosso e parecia ter um metro de comprimento. E em uma última sala, água em um reservatório gigante. 

Mais alguns passos e entro na cozinha. Lá já era melhor iluminado. Vejo uma mesa grande, sozinha, cheia de comida. Como adivinharam, eu estava com fome! Sento na ponta da mesa, arranco a coxa de um frango assado e começo a comer. Bebo um pouco de vinho, engulo uma uva, como um pouco de milho. A fome era tanta que quase não percebo algo gelado tocar meu ombro. Não dá tempo de virar, estou no chão, tossindo forte, sentindo a traqueia se fechar. Aos poucos vou perdendo o ar. Sou levantado bruscamente e levado contra a parede. Minhas costas sentem a dureza dos blocos de pedra e são empurradas contra ela, cada vez mais forte. Mal consigo ver o rosto do indivíduo. Minha condição física quase não permite, mas sou capaz de jurar que vi uma máscara escondendo sua identidade. 

Ele me solta e vai em direção oposta. Parece que vai em busca de algum objeto, disposto a arrancar minha própria vida. Tento me mover engatinhando, mas é difícil se arrastar naquele estado. A respiração cada vez mais difícil. Vomito, era o único jeito. Aos poucos, vou recuperando meu ar e saio atropelando meus próprios passos. Ele percebe e vem correndo em minha direção, segurando seu facão que ainda não estava totalmente afiado. Consigo energia de onde nem sei e vou correndo, até chegar ao salão principal do que se parecia um castelo. A porta estava fechada. Ele adentra o cômodo por outro lado e me olha pacientemente. Estou assustado, suando frio, imaginando o que poderá acontecer e por que tudo aquilo comigo. Ele continuava parado, observando meu arrepio. 

Mas, talvez, a cena mais assustadora que vi naquele dia, foi a que surgiu diante de mim quando uma festa de raios iluminou o céu naquela noite. Deixando totalmente clara aquela sala, finalmente pude observar melhor os quadros decorados naquele lugar. Aquelas salas que antes visitei, eram todas de tortura. Uma pessoa estava amarrada na cadeira com aquela corda, pernas presas pelas correntes e ratos próximos. Era uma pessoa de corpo esquelético e uma cara sempre assustada. Na outra, ela era açoitada por um chicote, de pé, mãos amarradas por correntes. Na última, afogada naquele tanque de água da outra sala. 

Era perceptível que aquela era uma casa de torturas, era perceptível que havia anos que aquela pessoa era torturada. Era provável que aquela tivesse sido a última vítima do monstro que me perseguia, e que seria eu o próximo. Olhei as fotos mais uma vez e vi o torturador e logo olhei para meu perseguidor, procurando certas semelhanças. Então, reparei seus braços marcados por correntes, reparei seus pés marcados por correntes. Reparei sua fisionomia esquelética. Quando dei por mim, estava olhando as fotos na parede mais uma vez. O monstro não se parecia nem um pouco com o meu perseguidor. O monstro, na verdade, era totalmente fiel à minha semelhança. 

Pequeno Foguete

Ninguém quer sair do conforto do edredom naqueles dias frios, não é mesmo? Ainda mais em seus dias de férias. Sair daquele colchão macio e quentinho, daquele escurinho e daquele silêncio, numa segunda-feira… Que dia eu teria outro vidão desses novamente?

Mas, eu me levantei. O chão gelado, meus pés descalços, corpo todo encolhido e o vento frio batendo em minhas pernas nuas. Ainda não entendo porque insisto em dormir apenas de cueca em tão baixa temperatura. Procuro pelo meu chinelo, está debaixo da cama. Ah não! Meus joelhos agora irão tocar aquele solo frio.

Corro para o chuveiro. Na temperatura inverno, espero a água esquentar. Preciso ser rápido entre desnudar-me e deixar aquela água fervente me aquecer. Ali é tranquilo, mas não posso ficar ali pra sempre. Dentro do box é tão quentinho, mas a toalha ficou do outro lado do banheiro. Putz, deixei minhas roupas limpas em cima da cama, que vacilo!

É hora de sair. O hotel está praticamente vazio. Na copa, quase ninguém. Pães, bolos, roscas, biscoitos… pães de queijo, hmm, meus favoritos. Tentei provar de tudo, mas era muita coisa. Um cafezinho e um chá quentinho com um pingo de limão, suficientes para finalmente me despertar. Bocejo. Bora, caminhar.

Ainda estava friozinho e era 9 da manhã. No saguão, um singelo bom-dia aos funcionários trocados com educação. Na TV compartilhada, frente ao sofá vazio, Modric é estrela contra uma seleção qualquer por aí. Me sento por alguns instantes naquele sofá gelado, mas não dá não. De bermuda e chinelo, que louco, naquela temperatura? Vou para fora, há um belo sol pra curtir.

Ali no jardim, duas pequenas piscinas – vazias, por opção, quem seria o louco? Aproveito para tomar um pouco de sol e tentar me esquentar meu corpo. O vento bate, mas agora não parece tão ruim. Olho em volta, uma bela paisagem verde, com uma bela vista para a cidade. Do bolso, pego meu celular, ajusto no melhor ângulo para bater uma selfie. Me sento no gramado, coloco meu celular pra cima e, de repente, sou derrubado. Sem entender, olho pros lados. Há um cachorro preto, com olhos manchados de marrom e a barriga branca, orelhas caídas, com a língua pra fora, abanando seu rabinho e olhando pra mim.

Dou um passo pra trás. Ele dá um passo pra frente. Dou outros dois passos e ele continua a vir em minha direção. Então, corro para um lado e ele vem junto. Jogo uma vareta e ele vai atrás, mas a perde. Fica confuso e me olha. Ergo os ombros como se dissesse “eu não sei”, depois me agacho e… lá vem o pequeno foguete de novo para meus braços. Então mais uma vez corro. Ele não quer me deixar pra lá.

Ah, pequeno Foguete. Pena estar eu longe de casa, e não poder te levar pra lá, você seria meu novo companheiro. Bom, ainda tenho alguns dias ‘de recreio’, por isso, vou aproveitar estes dias com meu mais novo amigo. Venha, Foguete, vamos tirar uma selfie pra eu poder te guardar pra sempre.

E ficamos ali, brincando por um bom tempo. Eu até gostaria de terminar esse conto, mas vou fazer algo bem melhor: Vou ali, brincar com meu novo amigo Foguete.

Preso ao que não sou capaz de amar

Por uma peça do destino, preso em meus músculos se fez um sentimento, sempre a tencioná-los quando lembrado. Guardo em mim por anos como um tão bem-guardado segredo, mas que se desperta, se move e se força a sair nos momentos mais profundos de pensamentos passados. Ele vive em mim como um parasita, sugando minh’alma, latendo forte, alimentado pelo meu lado obscuro.

É um sentimento forte que me carrega por todos os lados, que me dá insônia nas noites mais importantes, e que me traz intranquilidade nas horas que mais preciso de paz. Por causa dele, tomo decisões precitadas, por conta dele, lembro de pessoas que não sou capaz de amar.

Penso no perdão. Ele é preciso, quase impossível de ser conquistado. Não digo ‘ser perdoado’, mas perdoar. O rancor bate mais forte. Ódio guardado no fundo do armário, com forte cheiro de mofo, incomoda, de longe, eu, que não quero ser perturbado. O armário sou eu e o mofo me corrói. Vem até mim, segura minhas pernas e não me deixa fugir.

Palavras não ditas, desejos não realizados. Em minha garganta, tudo pra ser dito. Se há vida ou não no alvo, em mim encontra-se muito bem vivo, pois é o rancor quem o alimenta, é meu lado obscuro quem alimenta o rancor. Esse sentimento, ruim, lembre-se disso, é quem te traz à tona aquele que te fez mal, sugando-o para si, que te desperta o que há mais de nocivo em você. E aqui vai um segredinho: por quem você guarda tal ódio, nem mesmo se lembra de você ter nascido.

Agora, uma coisa é bem certa e te digo: o rancor não afeta teu inimigo. É um vírus que te ataca e te consome por dentro. Destrói você e mais ninguém. Não deixe que ele te impeça de viver, vá em frente, enfrente, sem medo. O rancor é uma dessas coisas que não deve vencer. O perdão é difícil, difícil de ser conquistado, mas não desista, meu amigo, pois é só o perdão, o verdadeiro perdão, aquele de coração limpo, é que pode curar você.

A garota que você ama

Cada palavra bem pensada, cada acorde composto no violão, a melodia impecável e a letra bem composta, tantas noites desperdiçadas, jogadas foras…
Pela garota que você ama.

O medo da rejeição, o desejo de não seguir na solidão, a timidez que não te deixava prosseguir, os momentos em que não conseguia agir, o motivo que te fazia sorrir…
E a garota que você ama.

Cada centavo gasto, flores, chocolates, até o perfume, por horas pensado. As viagens que não davam certo e os convites de amigos diversas vezes ignorado, um tempinho livre, só para ter a chance de estar do lado…
Da garota que você ama.

Relacionamentos não se faz de mãos separadas (são dadas), nem quando apenas para um, dois é igual a um (sejam os dois, um só), não vale quando apenas um mergulha tão profundo (quem realmente está perdendo?), nem há que ter medo pelo passado (cabe uma chance?). Talvez pode não ser você o problema, mas é você que no meu ombro irá chorar. Não se culpe por carregar tanto amor, não é você quem deve mudar.

A canção entregue não é recebida com o mesmo valor, o violão não é o instrumento favorito e a noites mal dormidas pouco importam…
À garota que você ama.

Ponto de interrogação.

“As flores não me cheiram bem, o chocolate não é o que eu gosto”. Das lutas internas, nem consideração. Ilusão, ilusão, desilusão…
Pela garota que você ama,

Ou talvez não

Seu peito, de amor solitário, inflado, procura pelo escape. Deixe-o ir. Há tantos outros sentimentos e momentos, há tantas outras amizades e felicidades, há mais vida, há mais família, há mais você que merecem um espaço aí dentro, impedidos, de certa forma, de crescerem. Deixe-o ir. Deixe o que é ruim sair. Algumas paixões e até amores, imaginados em óleo, não valem o que custou ser, não custam você feliz.

Sozinho em silêncio, na multidão

Estou sentado à mesa de uma lanchonete, bem na hora do jantar. Tenho fome e pouca vontade de cozinhar. Aqui não é tão longe de casa, por isso, vim a pé para tentar botar a cabeça no lugar, mas há tantas coisas martelando, que eu precisaria andar por horas, pra que tudo fosse embora e em paz me deixar.

Sozinho com meu celular, tentando me distrair por alguns instantes. Há famílias rindo, crianças brincando e garçons por todo lado. Tento procurar algum amigo em meus contatos, mas todos já têm seus compromissos, acompanhados de seus compromissados. Ou será que sou sem coragem para abordá-los? E como se faz isso? Não me ensinaram no colégio!

Já é uma luta sair sozinho de casa e pensar em comer algo com tanta gente reunida com sua família e seus amigos. Parece que todos me olham e, por alguma razão, me devem imaginar em uma vida cheia de solidão. Talvez, mas só talvez, eles estejam certos. Fico meio acanhado, um pouco sem jeito, olho pra baixo, procurando sossego.

O garçom chega, me mostra o cardápio, tantas opções e eu me enrolo, indeciso, pra escolher um único prato. Me atrapalho. E se eu escolher algo que alguém possa me olhar torto? Eu não sei, parece tolo pensar assim, mas não estou raciocinando direito. Ver tanta gente reunida assim, feliz, conversando, enquanto tenho apenas a tela preta do celular para fingir admirar, me transtorna a ponto de não entender que não tenho motivos pra me preocupar.

Elas não ligam pra mim, não há porque ligar, mas, em meio a pouco mais de dezenas de mentes distraídas, há aquela a cada uma observar. Não há rostos encarando o que não lhe importa, nem tampouco o que se segue ao seu redor. Eles ignoram, eles não se importam, eles não dão ligam a mínima.

Talvez seja eu, ali sentado próximo à parede, aguardando meu pedido, que esteja gritando por um mísero olhar, nem que seja de reprovação. Meu ego, talvez, ao contrário de mim, cansado da solidão, implora por alguém que venha falar com ele, mesmo com deboche, mas ele teria alguém pra quem falar, pra quem poder se explicar.

Sobraria pra mim, o cara sozinho e desiludido que não sabe se relacionar com ninguém. Seria eu, apenas eu, um tímido, calado, um objeto abstrato, despercebido, agradecendo por não ter que explicar nada a ninguém, mas lamentando por nunca ser escolhido. Seria eu, assim sem jeito, que tentaria, contra meu ego, falar com alguém, mesmo não querendo.

Seria eu, que difícil, meu pior inimigo. Prazer, esse sou eu.