Estou sentado à mesa de uma lanchonete, bem na hora do jantar. Tenho fome e pouca vontade de cozinhar. Aqui não é tão longe de casa, por isso, vim a pé para tentar botar a cabeça no lugar, mas há tantas coisas martelando, que eu precisaria andar por horas, pra que tudo fosse embora e em paz me deixar.

Sozinho com meu celular, tentando me distrair por alguns instantes. Há famílias rindo, crianças brincando e garçons por todo lado. Tento procurar algum amigo em meus contatos, mas todos já têm seus compromissos, acompanhados de seus compromissados. Ou será que sou sem coragem para abordá-los? E como se faz isso? Não me ensinaram no colégio!

Já é uma luta sair sozinho de casa e pensar em comer algo com tanta gente reunida com sua família e seus amigos. Parece que todos me olham e, por alguma razão, me devem imaginar em uma vida cheia de solidão. Talvez, mas só talvez, eles estejam certos. Fico meio acanhado, um pouco sem jeito, olho pra baixo, procurando sossego.

O garçom chega, me mostra o cardápio, tantas opções e eu me enrolo, indeciso, pra escolher um único prato. Me atrapalho. E se eu escolher algo que alguém possa me olhar torto? Eu não sei, parece tolo pensar assim, mas não estou raciocinando direito. Ver tanta gente reunida assim, feliz, conversando, enquanto tenho apenas a tela preta do celular para fingir admirar, me transtorna a ponto de não entender que não tenho motivos pra me preocupar.

Elas não ligam pra mim, não há porque ligar, mas, em meio a pouco mais de dezenas de mentes distraídas, há aquela a cada uma observar. Não há rostos encarando o que não lhe importa, nem tampouco o que se segue ao seu redor. Eles ignoram, eles não se importam, eles não dão ligam a mínima.

Talvez seja eu, ali sentado próximo à parede, aguardando meu pedido, que esteja gritando por um mísero olhar, nem que seja de reprovação. Meu ego, talvez, ao contrário de mim, cansado da solidão, implora por alguém que venha falar com ele, mesmo com deboche, mas ele teria alguém pra quem falar, pra quem poder se explicar.

Sobraria pra mim, o cara sozinho e desiludido que não sabe se relacionar com ninguém. Seria eu, apenas eu, um tímido, calado, um objeto abstrato, despercebido, agradecendo por não ter que explicar nada a ninguém, mas lamentando por nunca ser escolhido. Seria eu, assim sem jeito, que tentaria, contra meu ego, falar com alguém, mesmo não querendo.

Seria eu, que difícil, meu pior inimigo. Prazer, esse sou eu.

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