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Você está pensando demais

Você olha pra frente e não vê a esperança pintada com o verde que você idealizou. A rua da sua casa parece ter aberto uma fenda enorme, pronta pra te ver cair. Você desvia, se afasta e encolhe o corpo tentando se proteger, mas o muro ao seu lado, em ruínas, começa a se desmoronar. O medo despe você, enquanto pensamentos amarram seu corpo. Enquanto isso, o trânsito flui naturalmente. O que aconteceu aqui?

Pare e respire. Tem coisa demais acontecendo e nenhuma delas se passa do lado externo. Não há ruído, não há vento, não há chuva, tampouco inverno. Meu amigo, você está pensando demais.

Quando não estamos em nossa realidade, idealizamos com exagero. Tudo se vê perfeito na fantasia que a mente cria. Um mundo colorido cheio veredas de ares puros onde podemos conversar, acariciar e alimentar até os animais mais selvagens, caminhando pelas trilhas de tijolos de ouro em busca do nosso próprio mundo mágico.

Mas tudo isso se esvai, quando o vento se distrai. Não somos fortes o suficientes para destruir o mal que nós mesmos criamos. O pequeno problema do dia-a-dia vira uma tempestade em nossa fantasia, tornando-nos acorrentados. Tudo se torna cego aos nossos olhos. O dia fica nublado, a chuva engrossa, a lama nos afunda. O grito de socorro não sai e o corpo sua. O vizinho nem percebe, pois está muito tranquilo em sua corrida matinal.

O que está acontecendo? Nada de mais, meu amigo. Você só está pensando demais.

Talvez você não saiba, mas os extremamente fortes, os tais “inabaláveis”, não vivem apenas no modo easy. Na verdade, eles têm suas próprias preocupações também. Eles também criam suas fantasias e as destroem na mesma velocidade que você. Ou talvez não, pois lidar com os desafios que nos são impostos é complexo, mas cada um tem sua maneira de fazê-lo. A gente aprende com o tempo, com pessoas e com exemplos e cada relógio avança do seu próprio jeito.

Olhe pra frente e me fale o que você tá vendo ali: a dois palmos e no distante horizonte. Parece complexo, não? Ninguém disse que seria fácil, mas ninguém disse também que você deveria lidar sozinho. Então, não seja tão duro consigo mesmo. Pare de pensar que há tantos monstros assim pra você enfrentar. Alguns deles nem são tão grande, pode ser apenas sua cabeça alimentando-o mais do que o normal.

Então, meu amigo, tente de novo, respire, levante a cabeça e respire de novo. Talvez você só esteja pensando demais. Talvez nós dois só estejamos pensando demais.

Música de inspiração:

Bird set free

Era um bar como os de antigamente. Aquela iluminação amarelada e mais fraca, lustres antigos, velas bem distribuídas, um palco de madeira e um barman atrás do balcão. Todos se vestiam como antigamente. Sentados, comendo suas porções, riam e conversavam animadamente. A música era tranquila e o aroma remetia aos velhos tempos.

Então, as luzes se enfraqueceram e o silêncio se fez presente. O piano substitui a canção de fundo enquanto o palco se ilumina, seguindo meus passos. Atentamente, a plateia aplaude e sorri.

Estou amarrado, “protegido” de mim mesmo em uma camisa de força, a boca vendada, mas com os olhos em cada um. Estou pronto para interpretar como assim me ordenaram. Estou pronto para desempenhar o papel que me foi imposto. Estou pronto para mostrar uma imagem construída de uma felicidade que disseram ser minha. Estou pronto.

Não, eu não estou pronto.

Eles querem ver ali no palco, a pessoa perfeita que eles não conseguiram ver, querem ditar o que deveria ser meu caráter, bagunçar minha personalidade e modificar meus princípios. As atitudem, são eles a classificarem, certas ou erradas, adequadas ou não. A minha voz, eles a calam ou aumentam conforme o melodia.

Eles também querem que eu seja eu mesmo.

Enquanto isso, vejo em seus rostos, os pássaros que ainda não se chocaram, as flores que ainda não desabrocharam. Eu vejo aquele relacionamento autoritário com a pessoa ao seu lado que você diz que ama. Vejo ela fazer exatamente o que eu sofri. E eu não posso te gritar isso, pois você está surdo. Eu não posso te mostrar, porque você está cego. Eu não posso te fazer gritar, pois você está mudo. Eu não posso fazer mais nada, pois não sei mais quem você é.

Como também não sei mais quem sou. Eu tenho uma voz a se fazer ouvir e sei que ela está dentro de mim, mas não sei como fazê-la fluir. Meu corpo arde em chamas com esse desejo e é isso que me liberta de minha própria camisa de força, que se queima, dando lugar às minhas asas que se abrem de forma vigorosa.

Eu posso cantar, eu tenho minha voz.

Alguns aplaudem, como se pudessem sentir sua própria liberdade, incentivados pela criança habitante de cada um, mas alguns ali não estão felizes, não querem perder o controle. O pássaro não pode chocar.

Os aplausos cessaram, repentinamente.

E eu só pude ver uma multidão apressada a ir embora. O espetáculo se finda aqui. Ou quase. Talvez um fio de esperança havia, quando alguns sorrisos eu recebi.

O piano enfim se calou, mas a chama apenas começava a se queimar.

The Globalist

Podemos ter tido um momento de paz, um momento de virtude, um momento de esperança, mas isso não quer dizer que os problemas acabaram. Devemos lutar por um mundo melhor.

(…)

É estranho imaginar como o ‘jogo vira’. Antes, aquele opressor, com tamanho poder, estava ali no chão, com suas vestes rasgadas, sujas, sangradas. Parece ironia, mas ele se agonizava. Meu coração batia trêmulo, sentindo um pouco de piedade por alguém que tanto fez mal.

O que fazer? Perdoar? Pisar? Proferir-lhe toda a verdade para fazê-lo sentir-se culpado?

Sentei-me a seu lado. Ele não parecia almejar uma conversa. Senti pena daquele indivíduo. O que o fez chegar a tal ponto? Não lhe perguntei. Saberia que a resposta não viria.

“E aí, cara, tudo bem com você?”

Não houve respostas. Apenas um olhar vazio e distante.

“É estranho ver uma pessoa que tanto fez mal, para mim também, numa situação degradante como essa.

Não imagino o que tenha acontecido a você. Pode ter sido traído pelas pessoas de seu convívio, pode ter tido o coração dilacerado por alguém, pode ter confiado nas pessoas erradas.

Cruzou pelas estradas erradas, com os errados, com quem poderia ter te feito mal. E começou a achar aquilo normal. Agiu com outros da mesma forma. Não sentia remorso, não sentia culpa, não pesava na consciência. E hoje te vejo nesta situação.

Perdeu todo o império que um dia lograra. Se alguém não ‘dançasse conforme a música’ para você, bastava substituí-lo sem o menor pesar. E foi assim que seguiu pela vida.

Nutriu um ódio por essa terra, nutrindo ódio em vidas alheias. Ciclo viciado que desprezava qualquer sentimento de bondade. Semeou o negativo por terras de impureza infértil, de bondade antes em potencial, de bondade hoje em estágio final.

Foi dos inocentes um deus, venerado, alimentado, almejado. Crentes por algo melhor se tornaram. Esqueceram-se de suas vidas, antes maravilhosas, maximizados aqueles problemas outrora insignificantes. A vida tornara-se melhor. Tornara-se?

Mas aquele mesmo ódio semeado, plantado e nutrido, foi colhido e repartido entre os seguidores de tal fé. O ódio, antes enrustido, se digeria e escapava entre o único poro restante de uma mente que almejava poder. E o poder, derrotado pelo poder, se esvaneceu.

Agora não sobra mais nada. Apenas um chão frio e seco, coberto de sangue derramado pela ira. A lágrima que escorre é apenas consequência. Todos se foram. Não há sobreviventes por perto, não há mais alguém para amar ou odiar. Só lhe restava a solidão.

É da natureza humana: Destruir por acreditar em um ciclo interminável. Nada é eterno. Esse ciclo se rompeu e hoje o que resta é o pó. O pó que o vento leva para nunca mais. De tudo, lembranças ruins e uma consciência que jamais se cala.

Levante-se, erga-se. Há ainda uma vida a seguir. Nova? Depende de você. Faça o bem, semeie o bem, por mais incomodante que seja. Todos podemos recomeçar. Ainda há algo belo aí dentro, basta procurá-lo. E, se algum dia, essa carapaça arranhada se quebrar completamente e revelar um homem de forte luz espiritual, pode ter certeza que um belo caminho de flores e nuvens claras surgirão, amigos verdadeiros aparecerão e um pensamento de harmonia te contagiará.

E quando este dia chegar, quando um verdadeiro humano se libertar, chame a mim para uma amizade brindarmos. E, quem sabe, um copo de cerveja tomarmos.”

Revolt

  • Reaja! Você é capaz de erguer a cabeça e seguir. Seja guerreiro. Você pode se rebelar.

(…)

“Reaja!”. Essa frase me motivou a sair daquele chão frio, mesmo não sabendo de quem era. A liberdade estava próxima. Poucos passos e logo estaria longe dali.

Mas não posso sair. Há uma guerra ali dentro. Devo ficar e ajudar, devo me redimir de todo mal que fiz, transformando todos esses lacaios do poder em homens de bem. Fazer o mal é muito fácil, fazer o bem e se preservar deste lado, não. Entretanto, voltei à luz e eles também podem. Devo voltar.

Posso morrer. O que fazer? Essa dúvida machuca meus pensamentos, fere meus sentimentos. E se eu sair dali e ele me alcançar novamente? Ele, o mal. Sinto o gosto da liberdade que, todavia, se mostra a cada minuto mais distante. Sei que esse é um mal que nunca parará. O que fazer? Sou parte desse sistema, devo ser parte de sua destruição também!

Quando toda a guerra acabar, tudo voltará a ser o que era antes. Um poder, vários em seu poder. Não posso fugir desse controle. Não posso ter essa liberdade. Não apenas eu.

Sinto-me fraco para continuar, sinto-me em dúvida. Fui cruel. Não devo tomar minha liberdade. Perdi minha alma, perdi meu caráter.

“Não pense assim!” – dizia a mesma voz de antes, agora em matéria.

“Você não está só, você não perdeu sua alma. Seu arrependimento é válido. Aqueles homens foram consumidos pelo poder. Se você foi capaz de se libertar disso, eles também podem!

Vê, atrás de você? Quantos ali não perceberam o mesmo. Estão ensanguentados, com frio. Preferiram a liberdade. Compreendeu que todos merecemos respeito por igual, não vivermos em uma hierarquia de poder. Eles são jovens sedentos por liberdade e esperançosos por um futuro melhor.

Assim como eles, você ainda tem muito a provar. Já provou o gosto de sangue e fome desta terra, agora deve sentir o frescor da brisa e da água pura.”

Ele me mostra suas cicatrizes.

“Eu já fui um de vocês e os estive observando. Ajudei quem fosse preciso, como ajudei você. Fiz o que você almejou, recusando minha liberdade. Alguns são ingratos e acreditam que somos todos egoístas, que somos todos iguais, que somos todos maus, que não queremos ajudar ninguém. Nem todos somos assim. Somos ainda o que chamam de ‘a esperança da humanidade’ e assim que continuaremos a agir.

Por isso, vá! Vão. A liberdade os espera. Vocês têm muito a crescer, muito a ver. Acompanhem seus filhos, cuidem de suas famílias, preservem seus amigos, pratiquem o bem e a solidariedade. A vida é bela para continuar desperdiçando. Não sejam mais escravos de nada ou ninguém. O mundo ainda acredita em pessoas boas como vocês. Sejam a alegria, a felicidade, a verdade, a vida.

Espalhem coisas boas para o mundo.  Não sejam escravos da maldade só porque muitos são assim. Não façam o mesmo que os tolos só porque é divertido. Tenham caráter, tenham moral. Tenham uma vida digna e plena, sem se preocuparem em recompensas. Sejam os verdadeiros humanos.

Vocês podem fazer este mundo ser o que quiserem.”

O Voo da Esperança

Pinte o céu de com tons suaves para que a luz possa penetrar em seu lar. Há um horizonte azul atrás daquela janela manchada que se abre mesmo quando as nuvens parecem densas, e nele moram possibilidades que ainda não aprenderam a se calar. Respire fundo e sinta a brisa fresca do novo dia que promete recomeços.

Lembre-se do voo dos pássaros, da coragem que existe em bater asas contra o vento e seguir adiante. Se a sua dúvida pairar sobre seu peito, olhe para o alto e veja o quão alto estão, como encontram correntes favoráveis e transformam esforço em altitude. Não desista; a persistência é o vento que transforma quedas em trajetórias.

Eu tô te olhando daqui, mas acreditando que seu futuro é maravilhoso. Então, jovem gafanhoto, cultive pequenos gestos de cuidado, celebre as vitórias mínimas e confie que o tempo lapida sonhos em realidade. Siga em frente com ternura e coragem, porque há muitos voos de esperança esperando para pousar ao seu lado.