Era um bar como os de antigamente. Aquela iluminação amarelada e mais fraca, lustres antigos, velas bem distribuídas, um palco de madeira e um barman atrás do balcão. Todos se vestiam como antigamente. Sentados, comendo suas porções, riam e conversavam animadamente. A música era tranquila e o aroma remetia aos velhos tempos.

Então, as luzes se enfraqueceram e o silêncio se fez presente. O piano substitui a canção de fundo enquanto o palco se ilumina, seguindo meus passos. Atentamente, a plateia aplaude e sorri.

Estou amarrado, “protegido” de mim mesmo em uma camisa de força, a boca vendada, mas com os olhos em cada um. Estou pronto para interpretar como assim me ordenaram. Estou pronto para desempenhar o papel que me foi imposto. Estou pronto para mostrar uma imagem construída de uma felicidade que disseram ser minha. Estou pronto.

Não, eu não estou pronto.

Eles querem ver ali no palco, a pessoa perfeita que eles não conseguiram ver, querem ditar o que deveria ser meu caráter, bagunçar minha personalidade e modificar meus princípios. As atitudem, são eles a classificarem, certas ou erradas, adequadas ou não. A minha voz, eles a calam ou aumentam conforme o melodia.

Eles também querem que eu seja eu mesmo.

Enquanto isso, vejo em seus rostos, os pássaros que ainda não se chocaram, as flores que ainda não desabrocharam. Eu vejo aquele relacionamento autoritário com a pessoa ao seu lado que você diz que ama. Vejo ela fazer exatamente o que eu sofri. E eu não posso te gritar isso, pois você está surdo. Eu não posso te mostrar, porque você está cego. Eu não posso te fazer gritar, pois você está mudo. Eu não posso fazer mais nada, pois não sei mais quem você é.

Como também não sei mais quem sou. Eu tenho uma voz a se fazer ouvir e sei que ela está dentro de mim, mas não sei como fazê-la fluir. Meu corpo arde em chamas com esse desejo e é isso que me liberta de minha própria camisa de força, que se queima, dando lugar às minhas asas que se abrem de forma vigorosa.

Eu posso cantar, eu tenho minha voz.

Alguns aplaudem, como se pudessem sentir sua própria liberdade, incentivados pela criança habitante de cada um, mas alguns ali não estão felizes, não querem perder o controle. O pássaro não pode chocar.

Os aplausos cessaram, repentinamente.

E eu só pude ver uma multidão apressada a ir embora. O espetáculo se finda aqui. Ou quase. Talvez um fio de esperança havia, quando alguns sorrisos eu recebi.

O piano enfim se calou, mas a chama apenas começava a se queimar.

Rabisque abaixo

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