− Filho da p…

            E o jovem rapaz se esbraveja ao gritar um palavrão numa estrada inóspita, num calor de 42º C. O motor do carro havia parado.

            A cena que vemos é a de um homem nervoso saindo do carro, pisando fundo por aquela estrada de terra, enquanto sujava seu tênis branco, após bater furiosamente a porta do seu velho automóvel.

            − Essa lata velha tinha que me deixar na mão justo hoje? – Ele gritava enquanto abria o capô do carro, deixando uma fumaça preta se exalar do motor.

            De longe, notava-se a raiva de um homem se espalhar pelo nada. Nada. Absolutamente nada era o que tinha naquela estrada. Não havia um borracheiro, um posto de gasolina, um mecânico ou mesmo uma mercearia. Apenas nada. Um homem, sua raiva, seu carro parado e mais nada.

            − Você tinha que me deixar na mão justo hoje? Depois de viajar por tantos quilômetros nessa estrada esburacada, vendo tantos acidentes e torcendo pra não ser mais um deles, enfrentar toda uma família para, nos fim das contas, acabar só numa estrada como essa? – Ele bateu o capô ferozmente. Era notável que ele não falava do carro.

            E ele soltou um longo suspiro, enquanto passava suas mãos pelos cabelos tentando se acalmar. Chutou um pouco de terra. A poeira subiu até seus olhos e sua boca, o que o levou a uma incomodante tosse e a uma ardente coceira nos olhos.

            E ele tossia. E quanto mais tossia, mais palavrões se ouvia.

            Com a vista prejudicada pela terra, o rapaz virou de forma a chocar sua canela contra o parachoque.

            − O que mais falta agora? – gritou ele.

            De repente, um barulho ao longe. Parecia o motor de um carro. Ele tentava avistar o que vinha, mas sua visão ainda estava prejudicada. Aos poucos, percebia-se que não era um carro, mas vários deles. Sirenes também poderiam ser escutadas ao longe. Policiais se aproximavam.

            − Talvez eles me ajudem – pensou.

            Eles pararam suas viaturas próximas ao carro parado e saíram com suas armas nas mãos.

            − Parado! Mãos pra cima!

            Não era mesmo o seu dia. Nada havia dado certo e agora estava indo preso por um motivo que ele nem mesmo sabia. Se ao menos não tivesse saído da cama naquele dia de sua viagem, estaria muito melhor agora.

            O rapaz tentava pedir explicações, mas só ouvia um “calado” e um “você está errado, cara”. Para piorar, um dos policiais colocou uma venda em seus olhos enquanto outro segurava seus braços.

            − Fica quietinho que vai ser melhor pra você, rapaz!

            E durante meia hora, aquele tormento o dominou. Parecia uma estrada sem fim, onde só se escutava o barulho do motor, enquanto ele não podia fazer nada.

            Mas chegaram, finalmente. Um dos policiais o tirou a força da viatura e o fez caminhar, enquanto ele permanecia de olhos fechados. Seu corpo tremia, enquanto se imaginava vítima de tantas torturas. Poderia ser seu fim.

            Então, ele foi forçado a parar. Tiraram-no a venda e o soltaram. Aos poucos, sua vista foi entendendo a realidade. De princípio, não fugiu, precisava entender a situação em que se encontrava. Um salão, muitas pessoas, grandes corações vermelhos representados por balões e uma linda moça de cabelos encaracolados e olhos claros a lhe esperar. Uma faixa grande escrita SIM de vermelho. Era a mesma moça que lhe fizera perder horas de viagem.

            E, pela primeira vez naquele dia, ele não quis soltar nenhum palavrão. Apenas sorriu, enquanto seus olhos derramavam algumas lágrimas. Todos ao seu redor assobiavam, aplaudiam e gritavam por seu nome. Eles apenas pararam de fazer tanto barulho quando um rapaz cabeludo de terno e gravata se posicionou ao lado da jovem e, com seu violino, se pôs a tocar, enquanto ela pode declamar:

“Meu pequeno coração, de olhos tão belos.

De forma tão confusa, me desesperei,

Sem reação fiquei.

Deixando-te abalado,

Triste e tão solitário

Era meu pecado, deixá-lo naquele estado.

Mas pena minha essa não seria

Arrependida, uma atitude eu tomaria

E uma coragem de dentro sei que buscaria

Não quero te perder. Não poderia.

Apaixonar-me por ti foi inevitável

Agora, aos seus olhos, eu posso dizer

É certeza que ao seu lado desejarei sempre viver

‘Sim’, é o que eu deveria, desde o início, te responder”.

E ela pouco se importou com o estado sujo do rapaz. Num breve instante, já estava em seus braços, tocando-lhe os lábios, sentindo o doce sabor do seu beijo. E desde aquele dia, sob os gritos, aplausos e assovios de toda a plateia, o jovem casal tornou-se um só.

Primeira parte

Segunda parte

Rabisque abaixo

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