• Reaja! – Gritava uma voz ao fundo, porém distante.

(…)

Morto. Estou morto? Não vejo ninguém, não ouço ninguém. Tudo está tão escuro. Sinto o chão gelado nas minhas costas. Minhas vestes rasgadas, sou capaz de jurar que não há pudores.

Do que me lembro? De pouca coisa.

Ali está uma figura estranha. Gigante. Iluminada. Há imagens de reverência. Que ser bondoso! Quem será? Será alguém de bem? Todos parecem adorá-lo. Vejo seus rostos felizes, esperançados e amparados. Estão todos bem.

Seria algum Deus? Talvez não. Não se parece um. Não se parece com Aquele que algum dia ouvimos falar. Esse parece ter um olhar mais sombrio, mais melancólico. Sou capaz de jurar que pareceu ser solitário em alguns momentos.

Ouço correntes, mas não as vejo. Onde estão? Todos parecem andar compassados numa fila indiana. Cada passada, um ruído de corrente. Olhem seus pés, uns amarrados aos outros. Eles trabalham duro, trabalham pesado. Começo a entender.

De manhã, trabalham. Sempre vigiados. Param para comer uma papa verde e retornam. A noite, adoram-no felizes. Os maiores veneradores podem tocá-lo, o que é algo gratificante para todos eles. Os mais rebeldes, confinados.

E eu ali, assistindo a tudo. Um mero expectador? Não! Eu também estou lá. Vigiado, dominado, obrigado a venerá-lo. E eu estou adorando tudo aquilo. Como é belo! Posso sentir sua luz daqui.

Em pouco tempo, me torno seu braço direito. Tantos benefícios concedidos a mim. Sou quase tão importante quanto o dominante. Todos reverenciam a mim. Não preciso ser bom, não preciso ser verdadeiro, não preciso ser eu mesmo.

Vejo todos eles se ajoelharem diante de mim, darem suas vidas por mim. E continuo vendo os sorrisos estampados ali, naquelas faces sofridas. E lhes dou apenas migalhas.

Esse lado das trevas é mais próspero. Só me basta ser quem eu não sou.

Ali estou eu. Gigante. Iluminado. Com imagens de reverência a mim. Que ser bondoso! Quem serei? Serei alguém de bem? Todos parecem adorar-me. Vejo seus rostos felizes, esperançados e amparados. Estão todos bem.

Todos bem. Mas, não eu. Sinto-me tão só. Sinto-me triste. Sou venerado, mas não me sinto completo. Algo me faz tremer por dentro. O que acontece? Não encontro respostas. Todos me adoram. Por que não me sinto bem? Preciso de respostas. Não as encontro. Preciso fugir dali.

Deserdei-me. Revoltei-me. Tentei escapar e me pegaram. Agora estou só, deitado no chão frio com minhas vestes rasgadas e sujas. Não vejo ninguém. Não ouço ninguém.

Será que estou morto?

Um comentário em “Dead Inside

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