− Cara, aquele dia foi hilário! Pensei que você tivesse quebrado o braço quando caiu daquela ponte.

− Também, o Matheus não parou quieto! Parece que não sabe beber.

− Amadores, Amandinha! Sabe como é!

− Sinto dor só de pensar nisso.

Todos riram. A noite estava ótima entre meus amigos. Relembrávamos certa vez em que estávamos num parque, tirando foto e bebendo, além de fazer certas “macacadas” no playground, nas árvores e até na ponte, onde eu tomara um belo tombo que me fizera parar no hospital. Nunca bebera tanto!

De repente, sinto meu celular vibrar no bolso. Logo perceberam minha expressão séria. Era uma mensagem curta do meu melhor amigo que dizia apenas “volta pra casa”.

− Qual foi, babaca?

− Vinícius. Tem alguma coisa errada.

− O que ele tem? – perguntou Amanda, a única agora preocupada no grupo.

− Ele não disse. Deve ter acontecido algo.

− Ah, bobagem, cara! Seu maridão só está com ciúmes de você estar aqui! – dizia Renato, em certo tom de brincadeira.

− Renato, se você não tem nada sério a dizer, fica calado. Ele não mandaria uma mensagem dessas pra mim à toa.

− Ih! Olha lá, ficou nervosinho.

− Renato, fica quieto! – gritava Amanda.

− Tudo bem se eu te levar? Você bebeu muito e parece estar aflito – perguntou Fernando, preocupado.

− Tudo bem, eu vou com cuidado. Vejo vocês mais tarde!

− Se cuide! – Disseram em coro.

Cuidado. Chega a ser um pouco engraçado. O coração estava acelerado e o álcool corria em minhas veias. Poderia ser um perigo para qualquer transeunte dali. Normal era, de longe, tal situação. E eu sabia que ele não estava em casa, pois passaria a noite com a namorada. Então, qual seria o problema?

Estaciono em meu destino, mas não encontro a chave em meus bolsos. Com todo o meu desespero, celular, chaves, carteira e papeis caíram na grama. Abaixei-me de forma tão súbita que quase desmaiei ali mesmo. Minha visão ficara turva e minha cabeça começava a girar. Tentei me acalmar, contando até dez. Respirei profundamente repetidas vezes, segurei forte meus pertences e me levantei. Calmamente peguei minha chave e abri a porta. Joguei tudo que tinha numa mesa ali próximo. Eu precisava de água.

Então, caminhei próximo às paredes, acendi as luzes da cozinha e fui direto ao filtro de barro tomar uma água. Tomei devagar, respirei fundo e fechei meus olhos. Os sentidos já estavam quase todos em seu lugar. O silêncio do lugar então foi interrompido por uma espécie de choro. Ali, debruçado na mesa, segurando um copo vazio e próximo a uma garrafa de vodka pela metade, estava meu amigo.

Aproximei-me devagar. Sentei-me em uma cadeira de frente à dele, peguei o copo de sua mão e a segurei, forte. Devagar, ele levantava sua cabeça. Seu rosto estava inchado, coberto de lágrimas. Preocupado, eu me segurava para não demonstrar mais aflição do que já sentia. Ele não parava de chorar.

− Tudo bem cara, já estou aqui.

Por alguns instantes, ficamos ali olhando para o outro. O silêncio o reconfortava. Seu choramingo ia se desfazendo aos poucos. Quando ele estava mais calmo, comecei a lhe perguntar em um tom brando.

− Você chegou assim que me mandou a mensagem?

Ele acenou positivamente com a cabeça.

− E você estava na casa da Melissa?

Ele acenou novamente.

− Tudo bem entre vocês?

Não houve resposta.

− Tudo bem?

Ele voltava a chorar. Enchi um copo de água e pedi que ele tomasse devagar. Entre um gole, uma lágrima e um soluço, ele ia contando.

− Você deve estar cansado de ouvir minhas reclamações sobre nosso namoro, Matheus…

− Me conta o que houve…

− Ela sempre joga na minha cara o cafajeste que fui no passado, ela fica me julgando pelo meu tempo de solteiro, que eu bebo demais, que eu sempre estive rodeado de mulheres, que sempre estive em balada, mas ela não entende que isso foi na minha época de solteiro.

Eu ouvia atentamente cada palavra aflita sua.

− Ela insinua que eu sou o mesmo de sempre, vive me enchendo de indiretas, não pode ver uma mulher bonita na rua que fala coisa do tipo “aposto que se eu não estivesse aqui, você estaria correndo pro rabo de saia dela”.

O tom de Vinícius era cada vez mais alto, mas eu não o interrompia.

− Matheus, ela não entende que o que eu sempre busquei foi um relacionamento sério, que aquilo foi uma fase em que eu não tinha ninguém, mas ela insiste em dizer que eu não presto. Se ela não teve bons relacionamentos passados, por que então eu que tenho que carregar essa cruz?

Posso nunca ter tido um relacionamento e todas as vezes que tentei algo com alguma garota foi frustrante, mas ver meu amigo daquele jeito me trazia tanta carga negativa que eu era capaz de sentir aquilo totalmente em mim.

− Todos os dias eu mando uma mensagem pra ela perguntando se está bem, todos os dias eu pergunto se ela quer sair comigo a noite. Todas as noites eu digo que a amo. Sabe quantas vezes ela já fez o mesmo por mim? Nenhuma! Eu não recebo um carinho sincero, se faço uma brincadeira, ela emburra. Matheus, até com meus amigos eu tenho deixado de sair. A maioria tem reclamado que me distanciei demais.

− Até de mim que moro na mesma casa. Às vezes sinto como se tivesse perdido meu irmão.

− Vê só, Matheus? Tenho feito muitos sacrifícios por ela e qual minha recompensa? Ouvir todos os dias que eu não presto, que sou a mesma figura do meu passado, que não mudei nada, que estou apenas brincando com o sentimento dela. Isso vai me perseguir pelo resto da vida!

− E você continua com ela porque é trouxa.

− Eu nunca a proíbo de sair com as amigas, já falei pra ela sair de casa pra ver se para com toda essa paranoia, mas ela só fica alimentando esse sentimento negativo dentro dela. Ela foi capaz de espiar até a rede social dos meus amigos pra saber com quem eu ando. Eu já disse que a levaria comigo, mas todas as vezes que ela vai, ela fica calada, não diz uma palavra e, ao chegar em casa, fica brava comigo, fala que não quer sair mais porque diz que não dou atenção a ela.

− E você faz isso?

− Claro que não! Os amigos ainda ajudam a enturmá-la, mas ela fecha a cara e “finge que eu não estou aqui”.

− Por que você não larga dela então?

Silêncio.

− Não me diga que você se apaixonou profundamente por ela.

A resposta novamente veio como aceno.

− Vinícius, mas não tem nem três meses e ela nunca te disse que te amava.

− Eu sou do tipo que entro de cabeça num relacionamento e você sabe disso, mesmo que a outra pessoa não corresponda.

Dessa vez, quem não tinha resposta era eu. Algo em meu íntimo já dizia que aquele relacionamento não iria para frente, devido às reclamações que ele às vezes me fazia, mas o que eu poderia fazer se ele não me escutava por estar cego?

− Tome um banho e descanse um pouco. Amanhã continuaremos a conversa.

Talvez tenham sido o cansaço e a bebida o fizera hibernar rápido. Não posso dizer o mesmo de mim. A preocupação com meu melhor amigo me dominava. Não poderia permitir nada daquilo.

Amanheceu, mas preferiria que não. Por sorte, era domingo. Na TV, um gato perseguindo um rato distraía um pouco meu brother, sentando num sofá sujo de cereais, usando apenas sua bermuda de super-heróis favorita. Chegava a ser engraçado pra mim, aquele ser tão maduro, cheio de conselhos e experiências de vida, demonstrar seu lado infantil de forma tão desprendida. Não, ele não se importava.

− Bom dia!

− Bom dia!

− Podemos conversar?

− Claro.

Sentei-me na mesinha de centro para poder ficar de frente a ele. Tirei a tigela de suas mãos e comecei a conversa já em tom sério.

− Sempre que tenho algum problema, você me diz que devo erguei minha cabeça e seguir em frente. Eu começo a reclamar e reclamar e reclamar e a única coisa que você me diz é “abra um sorriso e enfrente”. Você me conta sobre situações que você já viveu e isso acaba por me acender uma chama. No final, tudo dá certo.

Ele respondeu com um sorriso.

− Entretanto, o cara que eu vi chorando sobre a mesa ontem está longe de ser o mesmo cara que me diz essas coisas. Eu vi alguém fraco que se deixou derrotar por um problema que poderia se resolver facilmente.

Ele prestava atenção em silêncio.

− Eu te conheço há muitos e muitos anos. Você praticamente me viu nascer. Sempre vi uma pessoa cativante, que carrega a felicidade para todos os lugares, que é sempre alto-astral, apesar de algumas vezes querer brigar com todo mundo, − rimos nessa parte − mas é sempre muito amigo e sempre quer o bem de todos. Você mesmo já me defendeu de inúmeras situações e até já comprou brigas por mim, alguma coisa que eu, com certeza, nunca irei me esquecer.

Vinícius apenas concordava com a cabeça.

− De uns tempos pra cá, depois que você começou a namorar essa moça, você tem se tornado outra pessoa. Fica no quarto trancado por um bom tempo e quando não sai, está sempre pelos cantos, calado e triste. Não sai mais com os amigos, mal fala comigo, mal fala com ninguém, não tem prestado muita atenção nas aulas da faculdade. Enfim, tem se distanciado cada dia mais. Das poucas vezes que fala, é pra reclamar do seu relacionamento. Exatamente as mesmas coisas que você reclamou pra mim ontem. Ou seja, um relacionamento que não evolui em nada.

Os olhos de Vinícius começavam a se encher de água.

− E não sou só eu que tenho observado isso. Alguns amigos nossos têm reclamado que você se distanciou tanto que uns até me perguntam se você chegou a mudar de cidade. Eu tenho notado seu bom-humor se despencar de uma forma que eu mesmo tenho me questionado se estou morando com o mesmo cara do ano passado.

Uma lágrima se desprendeu.

− Esse relacionamento está te prejudicando muito, está te sugando, está fazendo você ser quem você nunca foi. Eu não te reconheço mais, eu não sei nem dizer se ainda somos amigos. – Meu tom de voz se elevava − Caramba, cara, eu sei que você está muito apaixonado, mas você já parou pra pensar se é mesmo esse tipo de relacionamento que você busca pra passar o resto de sua vida? Você acha mesmo que algum dia ela vai virar pra você e dizer: “eu fui uma tola, eu deveria ter confiado em você”?

Vinícius já não conseguia olhar para meu rosto e sua respiração começava a ficar ofegante.

− Sinceramente, quem perde é ela pela pessoa maravilhosa que você é. Talvez, mas só talvez, ela se arrependa de não ter te dado valor, mas sabe-se lá quando isso vai acontecer. Até lá, a fé que você tem no amor poderá se desaparecer para sempre.

Dei uma pausa para que ele pudesse digerir minhas palavras com calma.

− Você reclama que ela não te dá amor, reclama que não recebe carinho, reclama que ela só reclama. Pelos céus, homem! Eu percebo que você já está todo machucado por dentro. Aonde você pretende chegar?

Comecei a chacoalhá-lo.

− Reaja, meu caro! Eu não quero ver mais nenhuma lágrima escorrendo por conta dela. Algumas pessoas não valem nem meias lágrimas e você aí desperdiçando as suas. Pense mais em você, seja mais egoísta, para de se preocupar com ela. Tenho certeza de que a hora que você disser que acabou e der as costas, rapidamente ela encontra outra pessoa e nem se lembrará mais do seu nome.

− Tem… toda… razão… – Ele suspirava.

Soltei-o. Levantei-me, pus a mão no rosto e levantei o dele. Fechei os olhos e falei calmamente:

− Você vai se aprontar, ir até a casa dela, dizer tudo o que está guardado aí e resolver de uma vez a situação de vocês. Não retorne com nenhuma incerteza. Saia, dê uma volta, esfrie a cabeça e volte. À noite, conversaremos.

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