Um quarto vazio, exceto por uma corda em forma de arco e um banquinho de madeira. É onde estou agora. As cortinas alvas transparentes balançadas pelo vento. Um dia ensolarado, folhas dançando lá fora, pássaros assoviando e um céu alaranjado com poucas nuvens. É um belo dia – lá fora.

Aqui dentro, um vazio – no quarto. Aqui dentro, um vazio – em mim. Conflitos e uma insegurança da própria natureza. Ódio, rancor, raiva, náusea. Tanto sentimento ruim dominando meu ser.

Antes, tentei esbravejar, bradar, mudar, mas quem deu ouvidos? Agora é um pouco tarde. Eu, simplesmente, desisti. De tudo. Tanta podridão que meu grito logo desaparece. Pra mim, já chega.

Já não me importa se o mundo é dividido em classes ou em orientações, em religiões ou partidos políticos. Já não me satisfazem os amigos que pensam em me tirar algum proveito e namoros que só desejam sugar meu dinheiro. Não sei mais fingir que está tudo bem.

Cada um olha apenas para si e não se importam mais em mudar. Ter defeitos passou a ser legal. “Eu sou assim e não tenho que mudar. Aceite-me como sou!”. Preocupam-se apenas com seus próprios ideais. “Ignore!”. Ignorar? Claro, vamos deixar tudo maravilhoso como sempre esteve.

Tenho meus problemas, mas ninguém de verdade se importou em ouvi-los. Não importam se algo me faz feliz ou triste. “Você tem que começar a…”, mas nunca me perguntam como realmente me sinto com tudo aquilo. Basta-lhes apenas ser útil em alguma coisa para eles, apenas ao seu bel-prazer.

Tenho nojo deste mundo. Tenho nojo de todos, tenho nojo de tudo, tenho nojo de mim mesmo. Estou tão infectado. Pareço-me tão sujo. Não sei mais quem sou. Aqui já me fizeram de posse e isso me horroriza, me martiriza: Pertencer-me ao mesmo lugar de meus pesadelos.

Ouço o som da harpa vindo de uma luz branca. Ela está me chamando. “Venha, segure minha mão e vamos partir, seu tempo se esgotou por aqui. Comigo, você voltará a sentir um ar de esperança.”

Agora querem me ajudar, mas é tarde. Não tente me segurar. Saia já de perto de mim, você mente! Sinto-me tão só, mesmo com tanta gente ao redor, tantos que jamais agregarão à minha vida.

Não há mais motivo para estar aqui. Nada mais me importa. E nem vá chorar por mim agora, pois já é tarde para isso. Seus conselhos já não me valem de nada. Basta de sofrimento.

Aproximo-me do banco, subo. Olho por um instante aquela corda, a visão turva e molhada. Sinto o líquido transparente e gelado descer por meu rosto, coração batendo acelerado e algo em volta do meu pescoço. Por apenas alguns instantes, o banco permanece de pé. Ouço a porta ranger ao abrir, o corpo de madeira daquele pequeno objeto bater no chão frio, o grito desesperado do meu silêncio e uma voz me chamando alto.

Rabisque abaixo

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