Alguns jurados na sala, mas nada em suas vistas. Não até pequenos pés de veludo se apresentarem. Um pezinho tão deliciado se desliza calmamente por aquela sala. Eles calçavam um sapatinho tão pequeno quanto seus pés, pintados de um azul claro com uma fitinha em cima.

Aqueles pés suaves sustentam uma menina doce e tímida. Ela está atrás das cortinas, olhando calmamente os juízes. Ela acredita que assim não é capaz de ser vista, mas eles a olham, pacientemente.

“Ela é mais uma daquelas garotas”, comentam e concordam.

Aos poucos, a garotinha vai saindo daquela cortina, tomando o seu lugar na sala de piso de madeira. No teto, havia algumas marcas de goteira. Choveu recente, era o que se percebia. O céu lá fora estava azul, como seu vestido de menininha.

“Vestido de menininha”, comentam e concordam.

Ela tem um grande laço na cabeça. Seus olhos e seu rosto levemente maquiados. O olhar continua tímido e os lábios com batons quase imperceptíveis. Seus cabelos encaracolados pintados de ruivo, mas uma cor nada fora do extravagante. Ela diz algumas palavras e todos notam sua voz doce e confortável.

“Ela serve. Age doce e delicada como uma moça deve ser”, comentam e concordam.

A sala se escurece. O céu se escurece. As luzes piscam três vezes antes de voltar ao normal. A garota doce some e outra aparece no mesmo lugar. Os mesmos olhos, o mesmo rosto, a mesma boca, o mesmo corpo, mas num tom diferente. No lugar daquele vestido, há uma roupa escura, formada de uma camiseta comum xadrez e uma calça jeans rasgada nos joelhos. O tênis desamarrado dá lugar à sapatilha. Os brincos não estavam mais apenas em suas orelhas. A voz já não era tão suave.

“Tragam aquela verdadeira mulher de volta”, comentam assustados.

Ela carrega sua guitarra tatuada nos braços, tatuada como seus braços. Tatuadas de uma figura preta como seus lábios, pintadas em um tom escuro, como seus cabelos. A melodia era outra. Era a mesma garota, mas a garota não era mais a mesma.

“Tirem-na daqui, não é este um lugar para uma jovem rebelde”, gritam assustados.

Ela dá voz à sua guitarra.

“Por muito tempo, eu fui apenas um projeto do que vocês queriam que eu fosse. Eu tenho que ser só mais uma garotinha doce para que vocês se ponham satisfeitos neste mundo de ideias fechadas que vocês criaram. As regras foram estabelecidas por vocês e eu devo segui-las ou não estou preparado para vocês, mas são vocês que não estão preparados para pessoas como eu. Qual o medo de alguém tão diferente?”

Um passo de cá, outros recuando de lá.

“Seu desejo pra mim é uma ordem, não é? Não, não é. Passo a vida toda te agradando e no fim da noite me pergunto quem realmente sou. Estão tentando me moldar enquanto tento lutar com todas as suas amarras. Me desculpe, mas eu não sou como essas garotas malucas que vocês inventaram”.

Eles não concordam. Eles querem que tudo seja brincadeira.

“Todas as vezes em que estive perdida, ninguém foi ao meu encontro. Gritei por tantas vezes para tentarem me libertar, mas ninguém veio ao meu encontro. Precisei perceber por mim mesma e inventei meu próprio caminho”.

“E talvez, ao passar por aquela porta, eu volte ser a mesma garota maluca que sempre fui, quem sabe. Mas se isso acontecer, se algum dia isso acontecer, eu vou ter a certeza que aquela garota maluca na verdade, era só eu mesma. Ninguém precisou inventá-la”.

Daqui pra frente, serei apenas eu por mim mesma. Nenhum protocolo mais.

Música de inspiração:

Rabisque abaixo

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