Outra vez a girar

Ato 1
Confesso. Assim é mais divertido. Divertido quando ganho meu próprio jogo.

Culpada. Bastante culpada. A serpente habita e pode envená-la com uma mordida. É divertido. A faca não corta a língua, divide-a em duas.

Remorso. Palavra que não me cabe. É divertido brincar do meu próprio jogo. Jogo sem remorsos. Jogos sem sofrimentos – bilaterais. Jogos pra mim, não pra ti.

O ódio não é passageiro. O sangue ferve em tuas veias, mas não pedes vingança. Pede a morte. Rio de ti, em deboche. Já viste a morte de perto? Prazer. Chega mais perto.

Ela vem rápida. Venho lenta e cheia de sofrimentos – para dar. Minha conquista é meu ouro. Faço-te sofrer para poder me engrandecer. É assim que jogo. Diversão para mim, nada para ti. Vitória para mim. Derrota para ti.

Tudo vale a pena, se pra mim valer a pena. Egoísta? Quero o que é meu. Quero o que não é meu. Quero meu agrado. Quebro tua vida se for necessário. Se quero, quero. Não tem vez – se não for para mim.

Assim que jogo. Piso em teu calo. O que você haverás de fazer. Enfrentar este monstro? Lamento. Não é assim que funciona. Crio dor e sofrimento. Não é pra ti este momento.

E assim nasce meu pior inimigo. Quer lutar de igual para igual. Eu, alimentada pelo desejo. Ele, pelo ódio. O mundo não dá volta, meu amigo. Sempre será meu momento.


Ato 2
Fez-te a ti assim para quê? Se queres sangue é o que haverá de ter. O mundo dá voltas sim, é aqui que em teu jogo ponho um fim.

Qual o problema de tua luta? Não consegues te levantar? Confusão em tua cabeça. Não imaginaste que assim fosse terminar.

Não luto apenas com ódio, mas com a força de tantos que por tuas mãos sofreram. Guardei meus punhos para a hora certa, mesmo que se arrastasse todo o meu sofrimento. E, mesmo que tenha doído tão profundo, cá estou eu, erguido em meu anseio.

Sorte tua que me criei como bom homem que aprendeu que vida nenhuma há de se subtrair. Mereces na lama imunda permanecer. Agora todos conhecem teu verdadeiro ser. Vais a viver aí, presa dentro de si. Vais a viver aí, vais viver até se arrepender.

O mundo gira, mas não acreditaste. Agora me pergunto: quanto tempo nesta vida, haverás de suportar-te?

Remorso. Tão breve a habitar-te.


Ato 3:

Mesmo tendo perdido esta luta, haverei de renascer e tomarei aquilo que foi meu. Não vou mudar por bondade tua, nem haverei de me arrepender. Um dia, retornarei. Portanto, não durma.

Não mais uma daquelas garotas malucas

Alguns jurados na sala, mas nada em suas vistas. Não até pequenos pés de veludo se apresentarem. Um pezinho tão deliciado se desliza calmamente por aquela sala. Eles calçavam um sapatinho tão pequeno quanto seus pés, pintados de um azul claro com uma fitinha em cima.

Aqueles pés suaves sustentam uma menina doce e tímida. Ela está atrás das cortinas, olhando calmamente os juízes. Ela acredita que assim não é capaz de ser vista, mas eles a olham, pacientemente.

“Ela é mais uma daquelas garotas”, comentam e concordam.

Aos poucos, a garotinha vai saindo daquela cortina, tomando o seu lugar na sala de piso de madeira. No teto, havia algumas marcas de goteira. Choveu recente, era o que se percebia. O céu lá fora estava azul, como seu vestido de menininha.

“Vestido de menininha”, comentam e concordam.

Ela tem um grande laço na cabeça. Seus olhos e seu rosto levemente maquiados. O olhar continua tímido e os lábios com batons quase imperceptíveis. Seus cabelos encaracolados pintados de ruivo, mas uma cor nada fora do extravagante. Ela diz algumas palavras e todos notam sua voz doce e confortável.

“Ela serve. Age doce e delicada como uma moça deve ser”, comentam e concordam.

A sala se escurece. O céu se escurece. As luzes piscam três vezes antes de voltar ao normal. A garota doce some e outra aparece no mesmo lugar. Os mesmos olhos, o mesmo rosto, a mesma boca, o mesmo corpo, mas num tom diferente. No lugar daquele vestido, há uma roupa escura, formada de uma camiseta comum xadrez e uma calça jeans rasgada nos joelhos. O tênis desamarrado dá lugar à sapatilha. Os brincos não estavam mais apenas em suas orelhas. A voz já não era tão suave.

“Tragam aquela verdadeira mulher de volta”, comentam assustados.

Ela carrega sua guitarra tatuada nos braços, tatuada como seus braços. Tatuadas de uma figura preta como seus lábios, pintadas em um tom escuro, como seus cabelos. A melodia era outra. Era a mesma garota, mas a garota não era mais a mesma.

“Tirem-na daqui, não é este um lugar para uma jovem rebelde”, gritam assustados.

Ela dá voz à sua guitarra.

“Por muito tempo, eu fui apenas um projeto do que vocês queriam que eu fosse. Eu tenho que ser só mais uma garotinha doce para que vocês se ponham satisfeitos neste mundo de ideias fechadas que vocês criaram. As regras foram estabelecidas por vocês e eu devo segui-las ou não estou preparado para vocês, mas são vocês que não estão preparados para pessoas como eu. Qual o medo de alguém tão diferente?”

Um passo de cá, outros recuando de lá.

“Seu desejo pra mim é uma ordem, não é? Não, não é. Passo a vida toda te agradando e no fim da noite me pergunto quem realmente sou. Estão tentando me moldar enquanto tento lutar com todas as suas amarras. Me desculpe, mas eu não sou como essas garotas malucas que vocês inventaram”.

Eles não concordam. Eles querem que tudo seja brincadeira.

“Todas as vezes em que estive perdida, ninguém foi ao meu encontro. Gritei por tantas vezes para tentarem me libertar, mas ninguém veio ao meu encontro. Precisei perceber por mim mesma e inventei meu próprio caminho”.

“E talvez, ao passar por aquela porta, eu volte ser a mesma garota maluca que sempre fui, quem sabe. Mas se isso acontecer, se algum dia isso acontecer, eu vou ter a certeza que aquela garota maluca na verdade, era só eu mesma. Ninguém precisou inventá-la”.

Daqui pra frente, serei apenas eu por mim mesma. Nenhum protocolo mais.

Música de inspiração: