Primeiro Ato 

Blim-blém (pausa). Blim-blém (silêncio). 

De longe, ouvia-se o velho sino do Parque Central. Barulhento e tenebroso. Alguns juravam ouvir um ruído junto. Outros, diziam ser apenas o ouvido cansado de um morador ancião. 

Blim-blém (pausa). Blim-blém (silêncio). 

Duas da manhã. O silêncio se rompera com a sinfonia dos ventos. Fazia frio. Não havia quaisquer estrelas e a lua tímida escondia-se atrás de uma nuvem carregada. 

Enquanto a cidade inteira dormia, minha namorada e eu procurávamos um bom lugar para um afago. Próximos a um balanço, nos sentamos. Ainda não havíamos notado o pequeno playground tão próximo. 

– Poderíamos trazer Bibi algum dia. 

Silêncio. Fran tremia. Notei suas mãos roxas e geladas. Entreguei-lhe meu sobretudo e a deitei em meu peito enquanto a abraçava. Ela se aconchegava em mim, enquanto me respondia: 

– Não quero trazê-la aqui. Disseram ser este um lugar muito ruim para crianças pequenas. 

– Bobagem! 

Os boatos diziam que naquele parque muitas garotinhas sumiam, sequestradas, e tinham suas almas roubadas. Boatos nunca confirmados, mas Fran não arriscaria sua irmã caçula num local como aquele. 

– Não quero que aconteça nada a ela – Ela me dizia com lágrimas nos olhos. 

– Nada de ruim acontecerá a ela, eu prometo – Abracei-a forte, enquanto beijava-lhe a testa – Vocês duas sempre estarão protegidas comigo. 

Então, ela me abraçou de frente, com um sorriso. Feliz por meu poder de persuasão e por tê-la acalmado. Mas algo havia me deixado intrigado: Um par de sapatos brancos próximo ao balanço, que eu não havia notado. Minha primeira reação foi empurrá-la. 

– Ai, você está me machucando, Mateus. 

Voltei a mim. Num reflexo rápido tornei a olha-a, assustado. 

– O que foi que você viu? – Ela me perguntava séria, olhando para trás. Os sapatos haviam desaparecido. 

– Não, nada, nada. Devo ter ficado impressionado com alguma coisa. Algo que… bem… é… devo ter visto… num filme… num filme de terror, isso, é… num filme de terror. 

– Você só vê filmes de desenhos. 

– Quando estou com você. 

– Você mora comigo! 

– Vejo quando você está dormindo… 

– Mateus, você sempre dorme primeiro que eu! 

– Mas, é que, eu vejo… primeiro que… 

Passos. Susto. 

– Você ouviu isso? 

Estávamos os dois em choque. O que estava acontecendo? Silêncio. Fran olhava para todos os lados. Nada a vista. 

Silêncio. 

… 

– Aaaaaahhhhh…! 

– O que foi? – perguntei assustado. 

– Ali, atrás de você. 

Olhei. Nada. Ela jurava ter visto uma garotinha de olhos brancos atrás de mim. Então, senti algo pesado em meus braços: Fran perdera seus sentidos. 

Segundo Ato 

“Toda noite venho ao balancinho, 
Piso nessa areia pra brincar 
Mamãe não gosta nada, nada, nada 
Meu sapatinho branco vai sujar…” 

Nhéque – nhéque – nhéque – nhéque 

“Meia noite e meia no parquinho, 
Fujo pra sozinha vir brincar 
Mamãe não gosta nada nada nada
Pois sempre me demoro pra voltar…” 

Nhéque – nhéque – nhéque – nhéque 

Há um boato naquela estranha cidade que diz que todas as segundas-feiras, quando o Parque Central se encontra inóspito, é possível escutar uma voz doce e distante de uma garotinha de quatro ou cinco anos, seguido do rangido do balanço. Alguns moradores já solicitaram a retirada do playground, mas o último prefeito que tentou fazê-lo desapareceu misteriosamente. Desde então, ninguém mais quis arriscar sua vida. 

O boato começou há muitos anos, por conta de um cozinheiro famoso da cidade. Ele possuía um restaurante com comidas requintadas, deliciosas e possuía um dom divino em sua arte. Todos na cidade o elogiavam. Seu restaurante vivia cheio e lhe trazia bons frutos. 

Mas, sua vida não era tão feliz quanto. Um dia, ao chegar mais cedo em casa, pegou sua mulher com seu melhor amigo e o matou ali mesmo, escondendo o corpo. 

Ele continuou casado com a mesma mulher, mas tornara-se um homem frio e sem brilho. Deixou o restaurante para vigiar sua mulher por 24 horas. Mesmo assim, não se dava por satisfeito e a acusava de muitas coisas. Batia e a agredia verbalmente. Ensandeceu-se. Quando sua filha nasceu, duvidou que tivessem o mesmo sangue. 

Durante um bom tempo, a garotinha e a mãe viveram em um cárcere em seu porão. Contam por aí que a menininha sempre via a lua pela janela alta daquele quarto frio e dizia à sua mãe que queria brincar lá fora com seus amiguinhos, mas ela só respondia frases curtas, como as da canção da garota. 

Quando completou quatro anos, a garotinha conseguiu escapar e correu como pode. Encontrou o parque e foi se divertir no playground. Por um infortúnio, enquanto ela brincava naquele balanço velho, seu pai furioso a encontrou, depois de não a ter encontrado no porão. Sem testemunhas, ele a enforcou com as cordas do balanço e enterrou seu corpo ali, embaixo do balanço. Uma semana depois, sua voz interior gritou mais alto e ele foi ao delírio. Suicidou-se, sem qualquer cerimônia. 

Acreditando que algo assim jamais aconteceria, eles trocaram as cordas por correntes de ferro. Já a mãe, até o último instante de sua vida, ficou internada em um sanatório, onde diziam que ela vivia com uma boneca nos braços, tendo esta por sua filha. 

“Meia noite e meia no parquinho
Corro iluminada pela lua
Mamãe me disse: ‘filha não vá sozinha,
Pois tenho medo  que ele possa te encontrar'” 

Nhéque – nhéque – nhéque – nhéque 

“Gosto tanto do meu balancinho
Nele brinco, brinco sem parar
Posso ficar a noite inteirinha
Mas papai já está aqui para…” 

Terceiro Ato 

– Venha brincar comigo, garotinha. Venha ser minha irmãzinha. 

– Quem… é… – Fran estava apavorada. 

– Vem brincar comigo no balanço. 

Fran notava que os olhos da garotinha eram brancos, de uma forma estranha. 

– Quem é você? – perguntou Fran com mais coragem. 

– Eu sou sua irmãzinha caçula. Eu quero brincar com você. Estou tão solitária. Venha, tome um chá comigo. Está quentinho, acabei de fazer. 

– Solitária? Você não tem mãe, irmãs, amigas? 

– Mamãe morreu há muitos anos. E eu sempre faço novas irmãzinhas, sempre aparecem para brincar, mas desaparecem depois de um tempo e eu tenho que buscar outra vez. 

– Buscar? Como assim buscar? Do que você está falando, garota? 

– Às vezes vem uma garotinha ou outra brincar no meio da noite e eu a arrasto para o balanço e ela desaparece logo, logo. 

A garotinha cruzou os braços, enquanto fazia cara de emburrada. 

– Mas, mas é claro, tudo faz sentido agora! É você quem as sequestra e depois rouba suas almas. O que você faz do corpo dessas pobres garotinhas? 

Então, a garotinha abre os braços como se dissesse “não sei” e depois solta uma gargalhada sinistra. 

– MONSTRA, SUA MONSTRA! – gritava Fran aos prantos. 

– Fran, fran, acorde, o que está acontecendo? 

Fran se debatia nos braços de Mateus, enquanto continuava a gritar com a garotinha. 

– Você vai me dizer onde escondeu todos os corpos ou vou matar você. 

– Você nunca irá conseguir me matar, pois eu… – a voz da garotinha engrossava, enquanto seus olhos brancos brilhavam e sua boca expelia sangue – já estou morta e vou te levar junto, para o meu túmulo HA HA HA! 

Assustada e suada, Fran acordava nos braços de Mateus. 

– No balanço! No balanço! Elas estão no balanço. 

– Fran, fran, se acalme, que você está dizendo? – Mateus perguntava apavorado. 

– Temos que destruir o balanço. Os corpos devem estar enterrados logo abaixo. É pra onde ela os leva, para seu túmulo. 

Mateus estava um pouco assustado, pois o boato do prefeito desaparecido era forte, mas não sabia no que acreditar. Mesmo assim, eles pegaram algumas ferramentas no porta-malas e atacaram o brinquedo favorito da garotinha. 

Blim-blém (pausa). Blim-blém (pausa). 

O relógio marcava três horas quando o balanço caía. 

Blim-blém (pausa – estrondo do balanço caindo – grito desesperado de uma garota). 

O céu ficou branco por alguns instantes, indicando que o espírito havia se recolhido para sempre. 

– Conseguimos! Mandamos a alma pra… 

– O serviço ainda não acabou, Mateus, temos que descobrir o paradeiro das crianças… 

E os dois começaram a cavar a areia do parque. Ao bater em alguma coisa dura, tiraram o excesso da areia até que pudessem ver o primeiro corpo de uma criança, já sem vida. Depois viram o segundo e logo o terceiro. Entreolharam-se com medo, enquanto engoliam a seco. 

Acionaram a polícia. Em poucas horas, o local estava tomando de pessoas chorando, enquanto a chuva caía. A garota do parque estava se despedindo de todas as suas irmãzinhas. 

Mateus e Fran voltaram para casa suados, cansados e sujos. Eles não estavam felizes, apesar de terem resolvido um mistério de anos. Ter em suas mentes a imagem de tantos corpos pequenos os assombraria todas as vezes em que eles fossem tomar o devido repouso em seus travesseiros. 

download
La chica en el parque – dibujo por Luis Mendes

Créditos da Imagem do Banner: Photo by Leon Seibert on Unsplash

Rabisque abaixo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s