Man looking into a store window on a city sidewalk with a family walking past him

O Peso do meu Chão

Eu sou apenas a sombra de um passado que carrego em minhas costas por onde passo. Um recordista em ausências e mestre em sobreviver com o pouco que me resta. O Brasil, esse gigante de memórias longas, parece não ter reservado um espaço em seu futuro.

Vivo no abismo de uma linha que divide o mundo entre os que têm e eu. Olho para a vitrine e o que vejo não é um objeto de desejo, mas o espelho da minha própria autoestima ferida. É o nó na garganta de precisar e nada encontrar, senão o vazio.

Ao meu redor, a casa é cheia de vozes. Meus filhos são a riqueza que o meu bolso não conhece; neles deposito o amor que não supre a ausência do dinheiro. Amanheço antes do sol, gasto a sola do sapato e a esperança atrás de um sustento que nunca vem. Bato em portas que não se abrem e sinto o gosto amargo do abandono de quem deveria olhar por nós.

Dói ver que, no dia da urna, a mão que sofre é a mesma que esquece. Elegemos os mesmos fantasmas, vestimos as mesmas promessas e o ciclo se fecha como uma armadilha. Sinto que o amanhã é apenas uma cópia desgastada de hoje, gerando mais escassez e mais uma vez o silêncio de uma noite mal-dormida.

Falta atitude. De quem nos lidera, sim, mas também sinto falta de um grito que finalmente nos liberte desse mesmo modo de existir. Enquanto isso, fico aqui, me equilibrando entre o sobreviver e o querer ser.

Rabisque abaixo